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Inglaterra-Dinamarca. Entre marqueses e dinamarqueses ficam as reticências...

Inglaterra-Dinamarca. Entre marqueses e dinamarqueses ficam as reticências...

Instagram/England Afonso de Melo em Londres 08/07/2021 10:15

Pelo segundo dia consecutivo, o tempo matou a crónica. Esta meia-final do Europeu foi jogada com um equilíbrio notável. Falhou o espaço para pôr um ponto final.

Sou uma ilha perdida num mar de jornalistas italianos. Os serviços da UEFA não deviam saber onde me meter neste Europeu que, de todos em que estive, e já lá vão mais de meia-dúzia, foi o que teve um contingente mais curto de malta da imprensa, obviamente também pelas estritas regras do covid impostas, por exemplo, pela Alemanha e pelo Reino Unido. Estão de cadeirinha, como se calcula, já com os olhos postos na final de domingo, e naturalmente a torcerem para que a Dinamarca não os obrigasse a jogarem com os ingleses da casa.

Os dinamarqueses amontoados atrás da baliza sul, mancha vermelha num plano branco, os ingleses a verem-se muito atrapalhados para os fazerem calar, ou para se fazerem ouvir por cima deles. Até que de súbito, mais de 55 mil pessoas entoaram... “touching me/touching you”. E o estádio por inteiro balançou ao ritmo de “Sweet Caroline/Good times never seemed so good/I’ve been inclined/To believe they never would...”

Será que nunca os tempos foram tão bons e não voltaram a ser? A pergunta ficava do lado inglês, 55 anos de frustrações desde 1966. A um passo da segunda final da sua história mais do que centenária, o momento imperdível da oportunidade única.

O ambiente de histeria vindo do público parecia ter sido injectado nas veias dos jogadores. Mais dos ingleses, como seria de esperar. Em breve, os nórdicos procuraram baixar o ritmo do jogo e foram-no conseguindo. O plano desenhou-se à nossa frente de forma perfeitamente adivinhável, para não dizer inevitável: um dos opositores atacava, o outro contra-atacava. Restava agora saber se o contra golpe dos dinamarqueses era suficientemente ameaçador para evitar que os Três Leões caíssem sobre a sua defesa com a voragem própria das feras sanguinárias.

Para já, iam defendendo o mais à frente possível. Mas notava-se que Kane recuava com presteza e se colocava no pouco espaço que haviam entre o meio-campo e a defesa da Dinamarca. Tal como a cerveja que a malta aqui da ilha gosta de beber morna, o jogo perdeu gás. Às tantas dei por mim a recordar-me do Assis Pacheco numa ida à Visita da Cornélia, ter posto numa comédia, um filho a perguntar ao pai: “Ó pai! O que é que vale mais? Um marquês ou um dinamarquês?”

Tenho ideia que o garoto levou um par de bofetadas, mas a pergunta fazia sentido ontem pelas oito e meia da noite. É verdade que uns e outros têm rainha e respectivas cortes, mas na Dinamarca não lhe dão tanto valor, disponíveis para serem mais popularuchos, aos contrário dos ingleses que, esses sim, gostam dos seus condes e duques e marqueses, pois então. 

E, de repente Estava eu perdido nestes devaneios quando Damsgaard marcou um livre directo de deixar todos de boca aberta e a babar na camisa. Minuto 30. Um golpe no coração da velha Inglaterra. Resposta soberba, oito minutos depois com Saka a fugir pela direita e a tocar para o golo fácil de Sterling se Kjaer não se antecipasse e metesse a bola na própria baliza. Para não variar neste Euro, tínhamos jogo. E do bom!

O tempo foi passando e as disputas passaram a ser mais repartidas. Em muitos momentos, era a Dinamarca que levava o jogo para o meio-campo inglês, mas no geral o contrário era mais duradouro. Claro que à medida que os ponteiro do relógio andam para a frente ao vejo a vida a andar para trás com a tal complicação dos fechos do jornal que não dão azo a prolongamentos. Restava, portanto, perceber se iríamos ter um vencedor nos 20 minutos que faltavam. O facto é que o equilíbrio assentou.

E começou a perceber-se que só um gesto de audácia poderia desfazê-lo. Mas a audácia comporta riscos e não é no final do jogo que estes são trazidos à superfície. Mesmo sem querer, todos vão pensando, mal por mal, venha o prolongamento.

E o cronista, mais uma vez, pregado no madeiro de não poder concluir a sua crónica. Enquanto marqueses e dinamarqueses lutam pelo lugar que sobra na final de domingo, procuro nas teclas do qwert um sítio onde não cabe um ponto final e apenas reticências...

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