21/10/21
 
 
Afonso de Melo 07/07/2021
Afonso de Melo

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A diversão dos irlandeses

Lembro-me de Rex Harrison na tela do Cinema Europa obrigando Audrey Hepburn a recitar: “The rain in Spain falls mainly in the plain…”. 

LONDRES - George Bernard Shaw, como bom irlandês escrevia num inglês deslumbrante, mas não usava o alfabeto – escrevia em taquigrafia que depois era traduzida pela sua secretária. Tinha umas ideias meio estapafúrdias quanto a grafia da língua.

A palavra fish (peixe) nas suas mãos transformava-se em ghoti – era ler o ‘gh’ como em laugh, o ‘o’ como em women e o ‘ti’ como em nation. Ninguém prestou atenção às suas patetices e precisou de escrever Pygmalion para que o levassem a sério.

Recordam-se, certamente, da história, passada ao cinema em My Fair Lady. Henry Higgins, professor de fonética, aposta com o seu amigo, o coronel Pickering, que conseguirá fazer com que uma vulgar florista, de sotaque cockney, Eliza Doolitle, passe por uma senhora da alta sociedade ensinando-lhe um upper class accent. 

Lembro-me de Rex Harrison na tela do Cinema Europa obrigando Audrey Hepburn a recitar: “The rain in Spain falls mainly in the plain…”. Mas quando a peça subiu pela primeira vez ao palco, a tirada de Eliza, que chocou a eduardiana plateia, foi uma imprecação: - Not bloody likely! Muito cockney, I’m affraid...

Winston Churchill não assistiu à estreia. Uns dias antes, Bernard Shaw, que não morria de amores por ele, enviou-lhe dois bilhetes com um cartão: “Mando-lhe dois convites para o caso de querer trazer um amigo; isto é, se tiver algum”. Churchill respondeu com outro cartão: “Lamento não poder estar presente. Gostaria de ter bilhetes para uma próxima sessão; isto é, se houver outra”.

Muito upper class, I’m affraid. Mas os irlandeses nunca perdem a capacidade de ironizar com os ingleses. Há uma anedota que o ilustra muito bem. Um árabe, em Londres a negócios, resolve visitar um pub. Não bebe, porque a religião não lhe permite, mas entretém-se na conversa com um grupo de ingleses.

No dia seguinte regressa, queixoso, e pede para falar com o proprietário do pub, um irlandês católico e façanhudo. Lamenta-se da companhia da véspera e do facto de ter sido esbulhado de um valiosíssimo relógio de ouro. O irlandês replica: - Sir, isso é absolutamente impossível!

O árabe teima: está absolutamente convicto que foi um dos ingleses com quem se entreteve na véspera à conversa que lhe roubou o relógio. E pretende apresentar uma queixa na polícia.

Aí, o irlandês remata, com uma expressão de profunda seriedade, quase ofendida: - Caro senhor, os ingleses não roubam relógios. Roubam países!


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