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Subida da temperatura. Situação não é alarmante mas "temos de estar atentos"

Subida da temperatura. Situação não é alarmante mas "temos de estar atentos"

João Porfírio Maria Moreira Rato 07/07/2021 13:37

A meteorologista Patrícia Marques explica que a utilização do termo “onda de calor” não se aplica ao caso português. 
A seu lado, Emanuel Oliveira, analista de gestão de risco de incêndios florestais, elucida que há que juntar os fatores humanos, meteorológicos e de vegetação na mesma equação.

Será que as ondas de calor que se têm vindo a fazer sentir em países como os EUA e o Canadá ou até no Norte da Europa chegarão à Península Ibérica como é noticiado? Os termómetros poderão atingir os 40 graus, mas não se reúnem as condições para que se possa afirmar que este fenómeno meteorológico acometerá Portugal.

“Somente podemos dizer que tal ocorre quando num intervalo de pelo menos seis dias consecutivos a temperatura máxima diária é superior em 5 graus ao valor médio diário no período de referência”, começa por explicar Patrícia Marques ao i. A meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) indica que a “denominação está vulgarizada, mas é um termo científico que tem um significado específico”.

“As temperaturas variam entre locais geográficos. Por exemplo, se verificarmos que, durante seis dias, o Alentejo tem temperaturas a rondar os 35 graus, esta não será uma temperatura acima da média, mas o mesmo não acontece se pensarmos no Norte do país”, sublinha.

É de realçar que o IPMA prevê que, este fim de semana, Évora chegue aos 40 graus. Em Beja e Portalegre, a temperatura vai manter-se nos 38 graus durante os dois dias. Em Castelo Branco, a partir de sexta-feira, a temperatura vai manter-se acima dos 35 graus. No resto do território, as temperaturas vão estar acima dos 30 graus.

“Não é uma situação alarmante, é uma situação de calor. As temperaturas têm estado abaixo da média para a época do ano e vai constatar-se uma subida das mesmas”, tranquiliza Patrícia Marques. “Pontualmente, haverá sítios que poderão passar os 40 graus. Não se pode comparar este episódio com as ondas de calor vividas noutros pontos do globo porque este começará hoje e terminará no sábado”, lembra. Espera-se uma descida dos valores da temperatura máxima já no domingo.

O calor que mata A onda de calor do final de junho que devastou o noroeste do Pacífico com temperaturas de três dígitos na escala Fahrenheit levou a que fossem ultrapassados recordes em vários estados dos EUA. No Oregon, foram registadas 95 mortes devido às temperaturas elevadas que se fazem sentir.

A título de exemplo, Portland chegou aos 116 graus Fahrenheit (o equivalente a quase 47 graus Celsius), ultrapassando as temperaturas máximas que havia atingido nos anos 80 do século XX. Por outro lado, os condados de Gilliam e Marion apresentaram a temperatura mais alta do estado, 117 graus, de acordo com o serviço de meteorologia, isto é, 47 graus Celsius. 

Por outro lado, a onda de calor que dura há uma semana no Canadá provocou a morte de cerca de 500 pessoas – os termómetros dispararam para temperaturas quase impensáveis naquelas latitudes de 49,69 graus Celsius – e está na origem de dezenas de incêndios florestais e inundações no oeste do país. É exatamente este fenómeno que preocupa Emanuel Oliveira, consultor para organismos do Estado, na área dos riscos naturais e dos incêndios florestais.

“O grande risco será sempre em termos de incêndios florestais e de saúde. As condições reunidas são diferentes, quando comparadas com os incêndios do verão de 2017, porque tem muito a ver com o estado dos combustíveis. Estavam muito secos porque houve uma seca prolongada. Principalmente, na região Centro”, elucida o profissional que exerceu funções de comandante operacional municipal da Proteção Civil em Vila Nova de Cerveira entre março de 2009 e março de 2014.

“Neste momento, os combustíveis não estão com grandes défices. É o normal para a época. Em zonas como o Alentejo, já apresentam disponibilidades”, ou seja, mais suscetíveis a incêndios. “Quando olhamos para o fenómeno dos incêndios, não podemos pensar só na meteorologia, porque aquilo que arde é a vegetação”, diz o doutorando na Universidade de Santiago de Compostela. 

“A vegetação está num estado bastante fenológico. É este parâmetro que nos diz, por exemplo, se os combustíveis estarão numa fase de stress hídrico que lhes pode provocar a mortalidade. Se houver fogo, ardem com mais facilidade conforme vão avançando nesse estado”, afirma, admitindo que, em território nacional, “há determinadas zonas que apresentam um estado mais avançado, principalmente, aquelas com paisagens compostas por herbáceas e matos”.

Deste modo, o investigador na área do risco espacial de incêndios florestais lembra que, além da mão criminosa e da negligência eventuais, na zona do Algarve – nomeadamente, Tavira e S. Brás de Alportel –, assim como em Castelo Branco e Portalegre o risco de incêndio é maior a partir de sexta-feira.

Uma avaliação que se alinha com a veiculada pelo IPMA, que colocou 25 concelhos dos distritos de Faro, Portalegre, Santarém, Castelo Branco e Bragança em risco muito elevado de incêndio. É de salientar que o risco de incêndio determinado pelo IPMA tem cinco níveis, que vão de reduzido a máximo, sendo atribuídos por meio de cálculos que têm em consideração a temperatura do ar, a humidade relativa, a velocidade do vento e a quantidade de precipitação nas últimas 24 horas.

“Temos de entender realmente o risco que está em jogo e ter cuidados redobrados. No entanto, muitas coisas mudam durante dias, a meteorologia é muito dinâmica”, assume Emanuel Oliveira. “Portugal não vai ficar livre destas condições. Se não surgirem agora, vão surgir mais tarde”.

“Esta situação pode preparar os combustíveis para aquilo que vai acontecer: começam a ficar mais débeis, mais secos e esse ‘escaldão’ que vão levar é importante. Se vier chuva a seguir, não teremos grandes problemas. Se continuarmos com tempo seco e temperaturas elevadas, os combustíveis vão continuar a serem preparados para a ocorrência de incêndios”, prevê o especialista, que tem analisado a vegetação portuguesa via satélite. “Contudo, há zonas que apresentam uma tendência para desvios negativos das condições normais, como Leiria, Santarém, Castelo Branco e Faro, que é o distrito que apresenta um avanço maior”. 

“Temos de estar atentos e manter a vigilância ativa. O fator mais difícil de monitorizar é o estado da vegetação. Depois, temos a componente humana e a meteorologia. Não há motivo para alarme, temos é de saber lidar com estas situações”, finaliza o especialista que está a trabalhar com dados de dia 1 de julho porque os mais recentes ainda não foram publicados pelo servidor norte-americano com o qual trabalha, porém, acredita que o panorama não se afigura mais negativo.

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