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Teresa Palma Pereira. "O piano é o mundo onde me descubro"

Teresa Palma Pereira. "O piano é o mundo onde me descubro"

Mafalda Gomes Sara Porto 05/07/2021 13:09

Vê no piano um instrumento introspetivo. Quando toca consegue abstrair-se de tudo à sua volta: “O sentimento de tocar para poucas ou para muitas pessoas não é assim tão diferente”.

Acredita que o piano é um mundo inteiro... Toca-o como quem conversa consigo mesma, através da música vê imagens e através das imagens viaja até um universo de melodias. Embora não venha de uma família de músicos (o pai é Rui Pereira, antigo ministro da Administração Interna), Teresa Palma é uma das pianistas portuguesas mais talentosas da sua geração. Dona de um currículo de excelência e de um percurso que coleciona atuações que voaram além fronteiras, fala ao i sobre como pretende transformar Oeiras na “capital portuguesa da música clássica”, através da IV Edição do Festival Internacional de Piano de Oeiras. Recua também aos momentos bonitos da sua carreira e mergulha numa reflexão daquilo que o piano significa para si.

O que ficou da menina que aos oito anos começou a tocar piano?

Não estava nada à espera desta pergunta (risos). Acho que nós crescemos e a música cresce connosco. É um processo natural, nem se dá por isso. A relação que se tem com a música e, no meu caso, com o piano, vai sempre mudando. Posso dizer que cada vez mais me aproximo da relação que sempre idealizei. É muito interessante... Não é uma coisa que se sinta todos os dias, mas tocar em momentos chave faz-me perceber isso. Portanto, de alguma forma, resta alguma coisa dessa menina, mas uma coisa em constante transformação. Fui-me construindo ao longo dos anos e apesar de saber que tudo aquilo que faço e sou contribui para essa relação que tenho com o piano, há uma parte que se mantém um pouco parada no tempo (num bom sentido, claro!).

Esta já é a 4.ª edição do Festival Internacional de Piano de Oeiras. O que mudou desde a primeira edição? Qual é o principal objetivo deste festival?

Creio que não mudou muita coisa... Foram sendo limadas algumas “arestas” consoante o que corria melhor, ou menos bem. Consoante as próprias circunstâncias, que mudaram muito desde o ano passado para toda a gente… Mas penso que, no essencial, aquilo que define o Festival, tem sido sempre a mesma coisa: dar o protagonismo ao piano “bem tocado”. De alguma forma não há nada de espetacular à sua volta, porque eu acredito que o piano é um instrumento introspectivo (é isso que mais me apaixona neste instrumento). Certamente há muita gente boa a tocá-lo, mas eu tento trazer pessoas que sinto que contribuem para esta essência, que possuam esta relação bastante introspectiva, honesta e esta ligação quase visceral com o piano. Este instrumento não precisa de grande espetáculo, de fogo de artifício… Tem tudo lá.

E será também uma forma de aproximar o público português da música erudita?

É também uma forma de desconstruir alguns mitos. Temos verificado de ano para ano, na nossa zona (Oeiras – Carnaxide), há pessoas que gostam muito de música e, principalmente, de ouvir piano. Isso não tem nada a ver com conhecimento e educação em música, mas às vezes há uma certa má fama que gera uma retração nas pessoas… Há a ideia de que é preciso conhecer, ter estudado para gostar de ouvir. Poderá também restar um preconceito de que os concertos sejam financeiramente inacessíveis, o que não é de todo verdade no contexto atual, onde temos concertos de música pop incomparavelmente mais caros que qualquer espetáculo do melhor pianista do mundo. As pessoas sempre tiveram um certo respeito pela música clássica, mas também há aqui um certo temor, que não é tão positivo quanto o respeito e que não é necessário. Proporcionando estes concertos (que são de entrada livre) todos os anos às pessoas, arranjámos também uma forma de as convidar e fazer perceber que é para todos. Sempre teve uma adesão muito boa (no ano passado online), mas antes da pandemia da covid-19 já estávamos a ter enchentes… Este ano voltámos aos concertos com público, com as limitações que toda a gente conhece e todas as pessoas têm sido muito ativas na procura das reservas. É esta a mensagem que queremos passar: mostrar música clássica, mostrar que este festival existe e que é para todos. Talvez sirva para desbloquear o certo receio que as pessoas têm de entrar na sala de concertos para ouvir música erudita. Gostam, ouvem, mas depois sentem-se “intimidados”.

O festival conta com pianistas que vêm de todas as partes do mundo. Pode falar-me um bocadinho da importância que a “diversidade cultural” tem em projetos como este?

Não penso muito no facto de cada um deles vir de um país ou de outro, só desejo poder oferecer coisas diversificadas e muito boas. Aqui em Oeiras estamos muito perto de Lisboa, onde há grandes instituições que oferecem este tipo de espetáculos, mas apesar de estarmos perto, somos um pouco periféricos. Uma das principais razões de os trazer é dar ao público a oportunidade de os ouvir. E repito que, apesar de estarmos perto de Lisboa, há pessoas que não se podem deslocar. Temos por vezes público de idade, público que não conduz e não tem grandes possibilidades de deslocação, ou até mesmo pela questão financeira… Há pessoas que não podem sair daqui e deslocar-se até à Fundação Gulbenkian. Poder trazer-lhe estas figuras que elas nunca ouviriam de outra maneira é importante! Por outro lado, não penso muito em termos de latitudes. Uma das marcas do festival será sem dúvida, sendo ele concentrado no piano, trazer diferentes perspectivas sobre ele. Penso que todos os anos as pessoas que vêm, independentemente de onde vêm, o importante é que cada uma apresente uma abordagem diferente, uma maneira diferente de se expressar através do piano, de estar realmente com ele. Essa diversidade é o que contribui para trazer a este instrumento algo tão especial. É uma forma de homenagem ao instrumento.

Como surge o amor pela música, em particular pelo piano? Foi a Teresa que escolheu o piano, ou foi o piano que a escolheu a si?

(risos) Sinto que foi acontecendo… Comecei a tocar muito pequena, não era daquelas crianças que muito pequenas se imaginam numa sala de concertos, que idealizam as coisas… Foi algo que foi naturalmente acontecendo à medida que a relação com ele se aprofundava.

A sua família sempre a apoiou? Houve algum momento em específico que tenha percebido que era exatamente isso que queria fazer para o resto da vida?

Provavelmente no fim da minha adolescência, na altura em que tomei a decisão de seguir por esta via profissional. Sempre tive apoio incondicional para isso, nunca senti qualquer condicionante ou barreira. Não venho de uma família de músicos, mas acho que, de alguma forma, os meus pais e a minha avó (quando era viva) gostavam de beber um bocadinho desta coisa que é a música. Precisamente pelo facto de não tocarem, ficavam ainda mais entusiasmados com o facto de eu o fazer.

Lembra-se da primeira vez que atuou num grande palco?

Não me recordo de um momento-chave. Desde criança, dentro dos estudos e dentro das escolas, sempre me foram proporcionadas oportunidades de fazer pequenas apresentações. Claro que algures na idade adulta houve uma altura em que comecei a atuar em recitais completos e passei de um palco mais pequeno a um palco maior... Lembro-me de momentos que me marcaram, mas não houve um momento específico num grande palco. É a tal coisa: o sentimento de tocar para poucas ou para muitas pessoas não é assim tão diferente. Também já tive a experiência de tocar com uma orquestra, evidentemente que aí há uma grandiosidade diferente, mas ao mesmo tempo, não estamos sozinhos em palco. Mesmo que o pianista seja solista…Talvez seja uma maneira de estar de uma maneira mais extrovertida, mas o sentimento é o mesmo.

E qual a magia deste instrumento? Sente que os seus dedos contam histórias?

É uma possibilidade de expressão bastante transparente, bastante honesta. Uma possibilidade de encontrarmos o nosso próprio som e a nossa própria forma de expressão e às vezes é bem mais fácil do que encontrá-la na vida quotidiana. Realmente sinto-o como um instrumento bastante introspectivo, uma forma de estarmos connosco próprios. Penso que é uma característica do piano, mas também tem a ver com a minha abordagem pessoal. Há pianistas que são muito mais extrovertidos e têm muito mais a motivação, o impulso do tocar para os outros. Não é que eu não o tenha, mas sempre na perspetiva de partilhar algo que esteja a acontecer comigo.

Será essa uma característica transversal a todos os instrumentos? No que é que o piano se distingue?

Creio que não seja transversal a todos os instrumentos. O piano é um instrumento mais auto-suficiente… O piano é um mundo e as próprias carreiras são diferentes… Os instrumentistas de cordas ou sopros, desde novos, dependem muito das orquestras, dos grupos. A sua música é algo a integrar uma coisa maior… O piano, por si só, é auto-suficiente. Nós aprendemos muito mais a fecharmo-nos em nós mesmos e à volta do piano. Acaba por ser um pouco diferente.

Qual a importância da relação entre o artista e o objeto da sua expressão? Como foi a sua relação com o piano ao longo destes anos? Em que patamar se encontra?

Nós vamos mudando, passando por diferentes fases e a nossa relação com o instrumento também. Sobretudo, a relação que eu tenho neste momento com o piano, permite-me procurar coisas e descobrir coisas em mim. Eu descubro coisas sobre mim mesma através do piano! [risos] Ele oferece-me essa liberdade. Até porque trabalho como freelancer e não tenho grandes restrições de reportório, imposições que podem acontecer frequentemente a alguns instrumentistas.

Mas a verdade é que a relação se vai construindo por fases e tem muito a ver com aquilo que buscamos no momento. A magia é que podemos transpô-lo para música.

A Teresa transforma-se consoante a composição que toca? Do que é que é feito esse desdobramento (daquilo que somos) em prol da música que interpretamos?

Sinto que, de alguma forma, mesmo quando tocamos repertórios muito diferentes, há algo de nós que permanece, que é sempre o mesmo… Somos sempre nós e há alguma verdade em nós que é sempre a mesma. Mas a possibilidade de nos transformarmos um bocadinho de reportório para reportório tem muito a ver com a abordagem à música. Sendo eu intérprete (não sou compositora), é necessária uma grande receptividade da minha parte, uma grande humildade. Estamos ali a servir de veículo de qualquer coisa que é maior do que nós, que foi outra pessoa que compôs. Abraçamos isso e adaptamo-nos àquilo que a língua específica da peça musical nos pede que resulta nessa tal transformação.

Um pianista é como um atleta de alta competição? Teve e tem de fazer muitos sacrifícios?

(risos) Pois… Não direi que tenho uma vida “100% normal”. Há muitos anos que não tenho umas férias grandes sem o piano. Mas é evidente que uma pessoa com uma carreira muito mais preenchida, concertos por todo o mundo, como é o caso do pianista Nikolai Lugansky, que atuará este ano no Festival, não tem um dia-a-dia normal. É uma vida dedicada a isto, tal como um artista de alta competição!

Há vários artistas que passam grande parte da sua carreira em busca de uma sonoridade própria, a Teresa faz parte desse grupo?

Na realidade não sei se alguma vez essa sonoridade se encontra e não sei se o caminho certo será procurar criar uma sonoridade… O mais difícil é mesmo chegar a uma sonoridade natural, porque com toda a dificuldade técnica e todas as regras que temos de seguir para interpretar uma partitura, a sonoridade pode parecer uma coisa imediata, mas não o é. Não é preciso perdermos tempo à procura de uma sonoridade muito pessoal porque só o chegar à sonoridade natural já é bastante trabalhoso.

Além de pianista e responsável por este Festival, a Teresa pinta e já chegou a expor. A sua primeira exposição chamava-se “Mulheres” e na altura disse que era um trabalho mais direcionado para si, para aquilo que era. Na segunda exposição pretendeu “celebrar a vida”. Que relação mantém com a pintura?

Posso dizer que desde há alguns anos para cá, surgiram vários novos interesses, vários gostos que sinto que me completam e completam o que eu faço no piano. De alguma forma é como se houvesse uma complementaridade, embora as exposições que referiu tenham sido momentos muito informais e descontraídos, onde eu quis expor um bocadinho o meu hobbie, a minha paixão pela pintura.

Isso significa que existe dentro de si uma ligação entre a pintura e o piano?

Sinto que essa componente visual, completa de algum modo a componente musical e auditiva. Não houve qualquer inspiração musical nessas exposições, mas é como se o tocar me sugerisse imagens e as imagens me sugerissem música (risos). Uma relação harmoniosa que realmente foi uma das grandes surpresas na minha vida. Sou completamente amadora, mas tenho um gosto imenso por continuar a expressar-me desta forma que também é libertadora, porque aqui não há partitura, não há compositores. É só mesmo a minha sensibilidade e, mais uma vez, um espaço para me tentar descobrir em mim mesma.

Tem algum momento especial em cima de palco que a tenha marcado e que possa partilhar?

Sem dúvida que quando toquei em palcos maiores e com orquestras, houve momentos muito marcantes. Houve trabalhos em que eu me entreguei completamente, por exemplo, quando toquei o primeiro concerto [para piano e orquestra] de Johannes Brahms. São trabalhos especiais… Acho que é um trabalho que tão depressa não voltarei a fazer, porque realmente requer uma entrega muito grande. Mas às vezes os momentos mais marcantes são pequenos recitais, a reação do público, alguma coisa que alguém nos diz. Recordo-me quando toquei num recital no Rio de Janeiro… Foi um recital um pouco difícil porque havia ventoinhas constantemente ligadas e que criavam ruído. O sítio era maravilhoso, com abertura para um jardim! Estávamos no pico do verão e com o entusiasmo e a entrega, acabei encharcada. Nunca tinha terminado um recital assim! Foi o calor físico a juntar-se ao calor humano.

Tem algum novo álbum pensado para breve?

Para já não. Sinto que no último que gravei, chamado Identidade, em 2018, consegui tudo o que queria conseguir colocar num álbum. Obviamente que no dia a seguir já o faria de outra forma, é sempre uma frustração. Mas estou numa fase mais concentrada na relação com a música no momento, não tanto aquilo que se pretende num álbum (conseguir colocar um objeto mais perfeito possível). Estou numa fase em que quero viver o momento com o piano, as atuações ao vivo são o que me interessa mais por agora.

 

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