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Mário Cordeiro. "Hoje um pai já não tem o mesmo à vontade de pegar numa filha ao colo"

Mário Cordeiro. "Hoje um pai já não tem o mesmo à vontade de pegar numa filha ao colo"

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 02/07/2021 14:50

Pediatra acaba de lançar um guia para uma sexualidade gratificante e responsável dos mais jovens. E antes que os pais levem as mãos à cabeça, explica porquê.

O pediatra Mário Cordeiro tem um novo livro dedicado à sexualidade dos mais jovens, para eles e para os pais. Chamou-lhe Venha Conhecer o Lobo Mau e deixa um apelo: “Convinha que os adultos deixassem de projetar nos mais jovens as suas frustrações, desejos, fantasias ou ignorância”. Além dos riscos, das gravidezes indesejadas às doenças transmissíveis, acredita que é possível ajudar os jovens a descobrir e compreender a sexualidade com menos tabus e preconceitos. Depois da pandemia, defende que os jovens vão precisar de extravasar emoções, mas não receia já uns loucos anos 20 com mais comportamentos de risco. Para já, acredita que é possível comunicar melhor com os jovens sobre os cuidados a ter com a pandemia, começando por assumir que o que se está a viver não é normal nem um “novo normal”. E não acredita que estejam a “furar” mais as regras que os adultos.

É a primeira vez que agarra no tema da sexualidade desta forma, com um “guia para uma sexualidade gratificante dos mais jovens”, o que deve fazer alguns pais levar já as mãos à cabeça. Teve esse receio?

Há sempre, mas da mesma forma que uma pessoa fala sobre birras e não as está a promover, ou sobre os problemas de sono das crianças e jovens, aqui é a mesma coisa. Claro que é um assunto ainda tabu, tem de haver intimidade e privacidade, não sou a favor de uma sexualidade desenfreada no sentido de não haver limites e de os adultos não intervirem ou que se tem de falar de tudo precocemente e igual para todos, até porque há uma maturidade diferente, nomeadamente entre rapazes e raparigas. E uma coisa importante é que os pais não devem, na minha perspetiva, quebrar uma linha de intimidade de pais e filhos quando começam a falar destes assuntos. Tem de haver não um tabu, mas uma fronteira saudável entre as suas experiências e a dos filhos.

No livro defende que se preserve os filhos de conhecerem a sua “cena primitiva”, expressão de Freud.

Sim. Dizer a um miúdo como foi feito é uma banalização, é dizer que és igual a sete mil milhões quando é importante pensarmos que fazemos aqui alguma diferença. Uma coisa é a parte conceptual, teórica, outra coisa é saber como foi na prática. Até porque os filhos podem ver um filme erótico, os pais podem ver o mesmo filme, mas já se fica um bocado sem jeito se de repente estão todos a ver o filme, imagine-se saber a história real.

Essa se calhar é daquelas primeiras situações de algum constrangimento para filhos e pais nas matérias de sexualidade, quando se é pequeno e se está a ver um qualquer filme e surge uma cena mais explícita. A partir de que idade é que as crianças reparam e o que fazer?

A partir dos três, quatro anos começam a parar a ver mas não percebem. Mas aí pode não ser bom e os pais devem ter algum cuidado. Não estamos a falar de pornografia, estamos a falar de uma cena de um casal a fazer amor numa cama. Uma criança que vê ali, aqueles adultos, os pais, pode achar que é uma forma de violência, um homem em cima de uma mulher. Uma criança que não sabe o que é o amor adulto pode pensar que aquele homem está a agredir a mulher e pode ficar encrostado naquela cabeça a ideia da intimidade como uma coisa violenta e má. Mais tarde o que temos, e isso é realmente problemático, é o acesso aos conteúdos pornográficos que hoje é completamente livre e qualquer um lá chega na internet, por mais filtros que se metam. E aí os pais devem procurar ter uma atitude pedagógica sobre os filhos, são sempre filmes que não ensinam nada e que mostram uma mulher subjugada, uma coisa mecânica, sem afetos.

Com essa facilidade de acesso, os adolescentes estão a ver mais pornografia?

Todos os estudos dizem isso e que estão a usar pornografia como elemento de informação de formador de opinião. E isso aliás, não digo que seja a única razão, mas acredito que possa ser uma das razões pelas quais a violência no namoro é praticada em 70% das relações e é aceite por quase dois terços dos jovens, como concluíram dois estudos feitos cá, um no Norte, outro pela UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta. De alguma forma, os jovens acham que a violência, e não estou a falar só de violência física e de uma atitude persecutória de andar vigiar os telemóveis, mas uma certa subjugação, é aceitável. Elas acham “assim é que ele gosta de mim” e eles “vou-lhe mostrar como gosto dela”. Depois de toda a evolução na relação de poder entre homens e mulheres, ainda muito longe do ideal, é arrepiante que se volte para trás para relações deste tipo, que não digo que sejam da idade das cavernas mas andam lá próximo.

Mas encontra mais fatores, na educação das crianças, na confiança?

Penso que existe ainda algum défice, e a escola aí é muito culpada, por não abordar mais estes assuntos, os relacionamentos, como evoluíram. E poderiam fazê-lo não só nas tão discutidas aulas de cidadania, por exemplo, mas mesmo nas outras disciplinas. Não sou a favor, nunca fui, de aulas de educação sexual, porque acho que a educação para a vida, para o amor, para a sexualidade não são temas estanques. Uma vez até falei com um ministro da Educação sobre isso: acho que fazia sentido descobrir em cada disciplina elementos que permitissem falar de sexualidade, de relacionamentos, de famílias. Na matemática, estatísticas demográficas, a própria duração da gestação, do ciclo fértil. Mas em geografia, em história, que então está pejada de exemplos. “El-rei teve um filho bastardo...” – porque não discutir isto, o que significou, o que significa. Na literatura também há muitos exemplos, na poesia portuguesa, nos Maias que os miúdos leem. Quando se fala dos Maias geralmente o passo seguinte é vamos focar na gramática ou no que o autor queria dizer, quando se podia falar daquela relação, de afetos, paixão, amor e da parte menos boa: do sofrimento quando há uma rutura, como é que uma pessoa se prepara e lida com isso sem comportamentos mais extremos. E depois sim falar dos riscos, dos perigos, da gravidez indesejada, das doenças transmissíveis, mas falando também do lado bom e gratificante da sexualidade, transmitindo uma ideia mais completa e não apenas uma ideia parcelar e perigosa.

O lugar da sexualidade nas escolas volta a estar na ordem do dia, desde logo com a lei aprovada na Hungria que proíbe que se fale de homossexualidade, que se mostre filmes com referências LGBTI. Percebeu a posição neutra de Portugal na condenação da legislação?

Não consigo perceber. Se há uma União Europeia, é para ser um espaço em que as pessoas se possam sentir irmanadas nos direitos e princípios, circular livremente. Foi assim que foi criada. No momento em que um país tem nitidamente uma postura homofóbica – e ao avançar com esta lei está a proibir tacitamente que um casal homossexual vá a Budapeste e dê um beijo na rua, porque podem estar ali miúdos – isso choca com a livre circulação de pessoas e bens e choca com a matriz humanista que presidiu à criação da UE. Percebo que neste caso concreto o árbitro tente até ao limite conseguir que as coisas sejam consensuais, mas isto era uma questão de princípio e acho que Portugal esteve muito mal. Depois sim, o primeiro-ministro veio dizer uma coisa, a ministra veio dizer outra, mas isso não serve. O Governo português tem uma força maior que a soma das partes e Portugal devia ter assinado a carta de condenação com os outros países, que não eram propriamente países extremistas.

Há sempre o argumento de quem contesta que se fale destas questões nas escolas que é até que ponto pode “contaminar” a cabeça dos miúdos que é algo que procura desmistificar mais uma vez neste livro, com curiosidades como nascermos todos mulheres – o sexo só se diferencia à sexta semana de gestação.

Sim, haverá sempre quem defenda teorias da conspiração e negacionistas, que a terra é plana, que o homem não foi à Lua, mas a minha esperança é que essas pessoas sejam minoritárias. Cada um pode pensar o que quer, não é crime pensar que a Terra é plana. Quando essas correntes começam a generalizar-se é que é assustador. Neste livro apresento  informação factual e científica. Está provado cientificamente que a homossexualidade é inata. Ninguém se faz homossexual. As pessoas podem ter muitas experiências ao longo da sua vida, mas são experimentações. Pode haver diferentes motivos para o fazerem. Agora o desejo por pessoas do mesmo sexo ou dos dois sexos é uma coisa inata, não pode ser modificada...

Por se verem filmes.

Sim, é um absurdo. Falamos agora da Hungria, mas em Portugal, depois de a homossexualidade ter sido legalizada no Código Penal em 1852, voltou a ser criminalizada em 1886 e oito anos depois do 25 de Abril a homossexualidade ainda era crime neste país. A lei só mudou em 1982. Só demonstra a resistência. Quando se diz que falar em homossexualidade transforma as pessoas em homossexuais é completamente infundado, a maioria dos homossexuais tem pais heterossexuais. São argumentos ridículos, ligados a uma ideia bolorenta da sociedade e da religião. Naturalmente a Igreja tem de ter a sua identidade, mas faz progressos e com este Papa então tem feito, percebendo-se que pode andar a 200 a hora. Mas voltámos a vê-lo mais uma vez cá com movimentos contra as aulas de cidadania e o direito à objeção de consciência dos pais. Em casa não somos cidadãos, tem de ver um conceito de tecido social que vá para além do que se ensina em casa, onde cada um tem as opiniões que quiser. E se as famílias estão tão convencidas de que o dizem em casa é que é, não percebo porque é que receiam que a escola faça ruir esse edifício.

Já esta semana o Tribunal Constitucional considerou inconstitucionais normas relacionadas com a proteção da identidade de género nas escolas, não pelo conteúdo, mas por não terem sido aprovadas pelo Parlamento mas pelo Governo. Como viu este revés?

Se foi uma questão de constitucionalidade, não considero um revés, mesmo que a tal legião de anti-aulas de cidadania possa ficar ululante. Espero que o assunto, devolvido agora à AR, possa prosseguir o mesmo rumo. Os obscurantistas tentam, mas cabe-nos a nós, cidadãos democratas e de visão ampla, tudo fazermos para que as necessidades dos jovens sejam satisfeitas, e isso passa por uma educação para a cidadania que não seja apenas dada em casa, sobretudo por pais serôdios e bafientos, impregnados de estereótipos religiosos com os quais manifestam, tantas vezes, a mais descarada hipocrisia.

Na altura a polémica instalou-se com as orientações para o uso de casas de banho independentemente do sexo nestes casos particulares. Na prática, mudou alguma coisa? Era uma medida necessária?

O número de casos é minúsculo e pensar que todas as escolas teriam de responder a estas crianças é disparate no sentido de que só algumas, muito poucas, o teriam de fazer, mesmo que o direito deva ser assegurado para todos em qualquer instância. As pessoas que criticam esta decisão e que levantaram um bicho-de-sete-cabeças acerca do assunto, apesar de se afirmarem cristãs são de uma falta de solidariedade, empatia e respeito a toda a prova. Depois confessam-se e comungam – porque sabem que o Papa Francisco não os está a ver…, caso contrário, talvez mudassem a sua atitude – talvez o “VAR” do juízo final, em que acreditam, lhes seja desfavorável.

O Governo espanhol anunciou que vai avançar com uma proposta de lei para mudança de género a partir dos 14, sem relatório médico. Concorda com o passo que Espanha quer dar ou aí já será ir longe?

Não. Concordo com a lei portuguesa. Maiores de 16 e com fundamentação médica.

Hoje são reconhecidos dezenas de géneros. Em Nova Iorque mais de 30. Há famílias que educam os filhos como crianças de género neutro.  Às vezes há o argumento de que se cai num extremo, de um relativismo total não só nas temáticas de género mas nas questões de linguagem. Não se poder dizer mãe e pai em algumas escolas. São temas que lhe parecem que estão a ser abordados de forma equilibrada?

Tudo o que é exagero, além de cair no ridículo, descredibiliza as causas. Os casos de, por exemplo, exigir-se dizer tenenta e tenento, e não tenente, ou outras coisas similares são, na minha opinião, desnecessárias e contraproducentes. Outra coisa será admitir uma ou outra coisa, na linguagem, que merece ser burilada, mas sem, ao olhar para a árvore, esquecer a floresta. Tento pôr-me na pele de um cidadão que respeita os direitos humanos e os defende, os direitos das minorias e das maiorias, o direito ao pensamento crítico e à liberdade de opções em tudo, desde expressão da orientação sexual a estilos de vida (ser vegan, por exemplo), desde que não ofenda ou cause danos a terceiros. E isto vem muito da educação que tive em casa, com um pai conservador e religioso, mas democrata convicto, com professores, com familiares, com leitura de livros e visionamento de filmes. Felizmente encontrei uma mulher que está no mesmo diapasão de ideias: a defesa da liberdade e a revolta contra as iniquidades. Estive hoje com um casal de lésbicas. Trabalham na União Europeia mas não se atrevem a ir à Hungria nem podem ir ao Dubai ou às Filipinas (são casadas e adotaram o nome uma da outra). Não consigo aceitar isto como “normal” – é um afrontamento a toda a humanidade.

Para um jovem, será mesmo mais fácil hoje assumir a sua sexualidade?

Por um lado, pela visibilidade, seguramente. São reconhecidos direitos que não existiam. O primeiro-ministro do Luxemburgo aparecer nas reuniões com o marido tem um impacto enorme.

Em Portugal não temos muitos exemplos desses.

Não temos, as pessoas têm algum receio. Mas os direitos são reconhecidos, as pessoas podem casar, adotar. Agora continua a haver as coisas pequeninas. O “oh Manel salta aí o muro”. O Manel não quer saltar e é um “maricas”. O que é que tem a ver ser homossexual, heterossexual, bissexual com querer saltar um muro de dois metros? Se quisesse saltar era um grande heterossexual? Continua-se implicitamente a associar a coragem ao macho e isso leva ainda os jovens a ter receios, a não se sentirem bem consigo, a terem problemas do foro mental. As pessoas têm o direito de amar quem quiserem, não é do foro público, é do foro intimo. E é por isto acho que tem de haver uma posição firme e que a posição de Portugal foi lamentável.

O seu livro traz perguntas de jovens sobre sexualidade e sobre o corpo, se se pode ficar louco com a masturbação, quantos parceiros devem ter um homem e uma mulher, a que responde que geralmente eles exageram e elas diminuem. Chegam-lhe muitas perguntas assim?

Foram perguntas que fui recolhendo ao longo do tempo. Esta ideia de interagir com os jovens começou em Inglaterra quando tive um tutor de pediatria que tinha muito esta prática e criou um site para onde os jovens podiam escrever. O curioso é que há perguntas que uma pessoa pensa porque é que perguntam se podem ir ao Google? O que tenho sentido é que o jovem, no meio de milhões de respostas, continua a precisar de alguém que lhe possa dizer qual é a informação correta para a conseguirem transformar em conhecimento. E acho que esse tem de ser cada vez mais o nosso papel de educadores, pais, “cientistas”. A partir daí fazem a sua viagem e a sua ponderação.

Há uma menina de 11 anos que pergunta o que é a menarca. Ainda há crianças que chegam a idade de ter o período sem saber o que é?

Ainda há muitos eufemismos, é a “história”, o “chico”, o “benfica”, uns nomes que mostram algum tabu. Mais uma vez, não sou um defensor de vir tudo para a praça pública e falar de tudo precocemente, mas há alguma dificuldade dos pais em abordar estes assuntos. E isso tem a ver com a nossa história, há coisas que carregamos no nosso subconsciente. Somos o produto dos genes, da educação, mas acarretamos dentro de nós centenas de milhares de anos da humanidade. Durante muito tempo não havia adolescência, passava-se da infância para a idade adulta. Os rapazes saíam do gineceu e as raparigas quando tinham o período eram mães. O período aparecia um bocadinho mais tarde do que agora, mas o destino das mulheres era esse. Subjacente ao aparecimento do período há um certo terror das mães. Quando se pensa que 10% das meninas do 4.º ano já tem o período, imagine o que é para as mães pensar vai para o 5.º ano e já pode ser mãe.

Psicologicamente é o momento em que as filhas crescem.

Sim, esse é o outro lado. Muitas mães sentem-no de uma forma muito violenta. Porque ao mesmo tempo que antecipam que a filha está a entrar na idade fértil, sentem que dentro de um tempo são elas que vão deixar de poder ser mães. Isto mexe muito com a cabeça das pessoas. Isto para além das coisas práticas, de pensar nos pensos, nas toalhitas, em como vai ser na escola, na ginástica. E isso sim, voltando às escolas, é uma coisa que me irrita, que o Ministério da Educação continua a fingir que ignora e as direções idem idem aspas aspas: ser possível continuarmos a ter casas de banho em escolas públicas e privadas sem privacidade, sujas, às vezes imundas. Sugeri uma vez numa escola onde os meus filhos andavam uma ideia simples: os rapazes sobretudo iam fazer chichi e usavam a mangueirinha para regar tudo, a casa de banho ficava um esterco. Há uma coisa muito simples que fizemos quando estava a formar-me em Oxford, custo zero, que foi pintar uns alvos nas sanitas com pontuação, sinalizando a mouche com 100 pontos. Quando fizemos isso em Inglaterra, os miúdos passaram a acertar sempre. Passou a ser uma brincadeira mais limpa. Quanto é que isto custa? Comprar o spray. Se os rapazes estão mais defendidos, para uma rapariga é nojento ir a uma casa de banho porca. Como é que uma rapariga com o período se pode sentir bem a ir mudar-se quando às vezes nem há portas que fecham. Não consigo entender como é que os Ministério vários, este e os outros, não pensam neste assunto com seriedade. Quer dizer, percebo. Só se vota aos 18 anos e só se produz mais tarde. Estamos numa sociedade de produção e voto. Os velhos não produzem, mas apesar de tudo ainda votam, vale a pena dar-lhes um rebuçadito. As crianças e os jovens não votam nem produzem, mas perguntar-lhes ao menos o que acham seria bom, porque às vezes têm soluções engenhosas para as coisas que os incomodam.

Das perguntas que lhe fazem os jovens, quais o inquietam mais?

Os que sentem uma autoestima baixa, que não gostam do próprio corpo, que sentem que ninguém os vai amar, que são casos perdidos, digamos assim. Isso acaba por poder levar a problemas de ansiedade, depressão. E depois as situações de violência, abusos sexuais. E preocupa-me muito o que estamos a ver de aumento de violência através da internet, vídeos e fotografias que são colocados por maldade nas redes sociais, que se espalham e que dão cabo da vida de uma pessoa.

A reação muitas vezes é: tu é que te puseste a jeito.

Sim, que era a mesma reação que dantes havia com “tu é que usas minissaia”.

Que a internet exponenciou.

Sim. É preciso uma educação para a internet. Não é o dizer não ponhas, mas porque é que o fazes, falar do assunto e sensibilizar os jovens. E  ao mesmo tempo, se enviar uma fotografia faz parte do erotismo normal do namoro, é preciso alertar os jovens  que às vezes as coisas acabam de uma forma menos boa e isso em algumas pessoas pode levar a atos vingativos. É o mundo em que estamos. Hoje as pessoas fazem tudo como os telemóveis na ponta das mãos, mete-se tudo na internet. Ainda há pouco tempo num concerto do Pedro Abrunhosa as pessoas passaram o concerto todo a filmar para pôr na internet. A filmar o concerto todo! Na Gulbenkian a mesma coisa, a tirar fotografias para dizer “estou aqui”. Se os adultos estão assim, ainda mais os miúdos, que sentem muito a pressão de ter ou não ter likes, que é uma coisa altamente perversa. Tudo isto tem de ser desmontado, sem fazer juízos de valor, explicar que é importante uma pessoa preservar a sua privacidade e a sua intimidade.

É um livro com muita informação mais dirigida aos adolescentes, mas também aos pais, sobre como as crianças vão crescendo. Escreve que as crianças começam a sentir a angústia existencial aos 18 meses, quando percebem que afinal não são os reis do mundo mas relativamente minúsculos, e que têm uma sexualidade muito intensa. Quando começam a aperceber-se disso?

A criança é um ser erótico desde bebé, na relação com a mãe. As mães sentem culpa por tudo e por nada e há mães que até sentem culpa por sentir prazer quando os bebés estão a mamar, o que é uma reação fisiológica, que se explica por os mamilos serem pontos erógenos. Os bebés começam a exploração do corpo por volta de um ano e meio, sobretudo quando tiram a fralda. Começam a perceber que tocar ali não é o mesmo que tocar no pé.

A partir dos três, quatro anos pode haver mesmo exploração dos órgãos sexuais, às vezes até quando as crianças se sentem mais aflitas, com mais stresse, porque depois têm uma descarga de endorfinas, como num orgasmo, e algumas até adormecem. Penso que o que os pais devem fazer é estar atentos, dizer-lhes que se podem magoar mas sem emitir juízos de valor e depois explicar o que é a intimidade, que há coisas que fazemos quando estamos aqui em casa mas não quando estamos na rua. E isso é fácil de explicar mostrando como há pessoas que vêm cá a casa e outras não. Andamos de fato de banho na praia mas não andamos na rua. A intimidade é uma coisa sagrada, é isso que é preciso dizer às crianças. Não tem a ver com tabus, mas a nossa vida não tem de ser um livro aberto.

E quando começar a falar de sexualidade?

Aproveitando as ocasiões que surgem, as perguntas, mas respondendo na medida em que as perguntas são feitas. “Onde é que eu estava antes de nascer?” Resposta: “Estavas na barriga da mãe”. Se isso chega, ok. Isso não quer dizer que a criança não fique a pensar no assunto e dali a uns dias pergunte: “Mas como é que eu fui parar à barriga da mãe?”. Aí dizer a verdade, mas não é preciso ser logo a verdade nua e crua, é preciso alguma poesia para representar a sexualidade como algo belo. Há perguntas que podem partir de um acontecimento, de uma notícia. O público húngaro chamou homossexual ao Ronaldo. Um miúdo pode perguntar: “O que é isso, qual é o mal?”. Os pais podem aproveitar estes momentos para ter uma atitude esclarecedora e pedagógica. Às vezes há coisas em que os miúdos ficam a pensar e nem nos apercebemos. Quando era miúdo fazia-me confusão que o Pato Donald tivesse três sobrinhos. E quem eram os pais dos sobrinhos? Não percebia aquela família. Havia a vovó domada que era irmã do tio Patinhas, mas casada com quem. Não havia respostas e não fazíamos essas perguntas. Em 1991, quando surgiu a revista Pais e Filhos, na altura eu e a Isabel Stilwell fizemos um inquérito a miúdos sobre personagens Disney e fizemos um artigo em que desconstruíamos: e se o Pateta fosse gay, e o Tio Patinhas fosse um filantropo, se o Donald tivesse assaltado um banco e os metralhas fizessem voluntariado no lar? E os miúdos comentavam aquilo. E foi interessante porque, alterando paradigmas, explorávamos uma série de temas.

Recorda a revolução sexual nos anos 60 e como as coisas começaram a mudar nas famílias. Era adolescente. Tem memórias de se falar de sexualidade em sua casa?

Em Portugal foi tudo mais tarde. Não se falava muito, aprendia-se sobretudo na intriga do liceu, na altura separados – rapazes para um lado e raparigas para o outro. Só na faculdade é que apanhei ensino misto. Falava-se nos recreios, mas atenção, não era uma coisa à vista. Havia sempre um que sabia mais, geralmente porque os pais eram mais liberais, isto sempre com uma conotação política, os pais mais ligados de certa forma à oposição ao regime. Juntava-se um grupo, andávamos com uma bola para fingir que estávamos a jogar caso aparecesse o contínuo e lá dava uma explicação qualquer, às vezes a confundir tudo, quem fazia o quê, mas eram estes professores da nossa idade que nos falavam de sexo.

E hoje,  os miúdos têm mais a vontade ou conversa-se sempre em surdina?

Há mais liberdade, sem dúvida, mas usam assim aquelas expressões “eu transei”, eu curti, não se diz verdadeiramente o quê, o que muitas vezes não interessa nada.

Mas uma ideia que transmite neste livro é que os pais, às vezes, fazem um filme maior do que é esquecendo-se do que viveram quando eram jovens. Cita um estudo francês para concluir que os adolescentes continuam a querer descobrir o amor antes do sexo.

Sim, continuam. Foi um estudo feito no nono ano em que cerca de 80% dos jovens já tinham estado ou estavam apaixonados, perto de 70% já tinham tido saídas com a pessoa amada. Em termos de experiências sexuais, eram referidas por 23% dos rapazes e 13,5% das raparigas. A idade das primeiras relações sexuais com penetração está até a aumentar.

Há até relatos de haver menos relações sexuais nas gerações mais novas, uma geração mais abstinente.

Sim, mas isso serão menos. Agora os jovens não são parvos e o maior antídoto para as gravidezes indesejadas, doenças sexualmente transmissíveis, é o esclarecimento e a liberdade responsável. Há uma ideia de que os jovens são uns libertinos, mas uma pessoa pode ser livre e ser responsável, saber o que quer e o que não quer. Um dos meus professores em Oxford, Aiden Macfarlane, costumava dizer uma coisa que é verdade: quando lhe perguntavam qual era o melhor contracetivo para os jovens, dizia que era entrar na faculdade. A taxa de gravidez não desejada nas universitárias é zero. Não é porque haja mais interrupções, mas porque hoje existe informação e porque há uma consciência de que ter um filho no meio do curso pode interromper aquele projeto de vida. Têm uma atitude crítica e responsável. E foi isso que quis com este livro, em que deixo para o final as questões mais problemáticas, o lobo mau. Quis falar de afetos, de amor, da coisa bela que é a sexualidade. A sexualidade é uma coisa linda, deve ser gratificante, deve fazer-nos explodir a criatividade, querer desfrutar. Se o que transmitimos aos jovens sobre sexo é só “cuidado, há violações, pedófilos”, estamos a transmitir uma ideia errada e a alimentar medos que depois fazem com que a descoberta normal da sexualidade seja uma transgressão.

Na parte dos lobos maus, escreve que uma “febre da pedofilia”, levada ao extremo, tem levado a dois fenómenos: reduzir o abuso sexual de menores aos crimes prepertados por estranhos e lançar uma suspeita geral sobre relações entre adultos e crianças.

É preciso esclarecer de que estamos a falar. Não há um crime de pedofilia, a pedofilia é uma parafilia, o desejo sexual orientado para crianças mas a maioria dos pedófilos, justamente porque têm uma ética, sabem que nunca poderão fazer amor com uma criança. Quando cometem um abuso, são criminosos. Mas a maioria dos abusos sexuais sobre crianças não são de pedófilos, são de pessoas em casa, padrastos, avós, tios, pessoas próximas das crianças.

Não são pedófilos?

Podem ser mas muitas vezes não são, é uma questão de poder, poderófilos se quiser, usam o seu poder sobre as crianças, gostam desse poder, acham que ela gosta tanto de mim que quer e entre ameaças e rebuçados calam as crianças. E isto é um perigo.

Esse efeito indesejável na relação entre adultos e crianças, que impactos tem? Em casos de casais separados, pode ser uma arma de arremesso?

Hoje um pai já não tem o mesmo à vontade de pegar numa filha ao colo. Criou-se uma suspeita que acaba por alterar até estas relações.

Antes da pandemia, já se falava de uma cultura de superproteção dos jovens. Depois desta crise, poderá interferir ainda mais com a descoberta da sexualidade e os primeiros namoros dos jovens?

Acho que sim. Os jovens precisam de espaço para estarem uns com os outros, para se beijarem. Diz-se aos miúdos desde pequenos “não se vê com os dedos, vê-se com os olhos”. Errado. Uma criança vê verdadeiramente com os dedos, vê com todos os sentidos. E um adolescente então é altamente sensorial. E quando se vive de uma forma muito intensa, vive-se o dia. E isso depois condiciona a forma como percecionam tudo. Quando se diz a um jovem que não deve fumar porque daqui a 50 anos pode ter um cancro não funciona. Se dissermos “não fumes porque vais ficar com um hálito péssimo e depois logo tens uma festa”, aí sim pode haver um clique. Mas é essa sensibilidade intensa dos jovens que faz com que precisem de explorar. Se já havia uma sobreproteção, então com a pandemia pior, porque o outro passou uma fonte de germes. E além disso veem-se muito mais limitados porque um casal adulto tem a sua casa, ou vai para casa de outro, ou vai para o hotel e um adolescente não pode fazer nada disso. Os pais ainda querem saber mais onde os filhos estiveram, com quem estiveram. Há uma limitação grande.

Que relatos lhe chegam?

De miúdos mais constrangidos. Agora isto há de passar e temos de acabar um bocado com essa ideia que têm alguns adultos de que os adolescentes são uns pervertidos, as ovelhas tresmalhadas e vão fazer tudo mal. É uma visão errada dos adultos, que sentem que os jovens estão a ficar autónomos, que já contestam e que vão um dia ter a sua vida, ao mesmo tempo que estão num fulgor da vida que leva os pais a sentirem um bocado de novo a sua juventude que projetam nos filhos como um tempo perdido. Detestava voltar a ser criança e voltar a ser adolescente, tenho boas memórias mas tenho 65 anos e não abdico dos ter, e essa inveja que os adultos sentem da liberdade dos jovens para mim é um sentimento errado e que acaba por os condicionar na altura em que faz parte viver assim. Aproveitem que já não têm de apascentar os miúdos para se redescobrirem. É bom que os miúdos saiam, que estejam uns com os outros, irrita os adultos estarem numa esplanada e verem os adolescentes naquela galhofa, a falar alto. Às vezes até há alguma paranoia: “Estão a rir de mim”. É uma inveja da liberdade de rir por parvoíces. Os adultos também se podem rir por parvoíces.

Uma das ideias que surgiu entretanto é que teremos uns novos loucos anos 20 depois desta pandemia, como aconteceu noutras crises. Antecipa-o nos jovens e que possa haver mais diversão mas também tendência para mais maluqueiras, comportamentos de risco?

Procurarem diversão sim, comportamentos de risco não creio. Agora é importante perceber o que perderam: há n festas de anos de 18 anos adiadas, n pessoas que terminaram o 12.º que não puderam fazer nem as viagens de finalistas nem aquelas festas habituais. Tenho um filho com 19 e dois que vão fazer 18 e isto tem sido complicado. O de 19 fez 18 no ano passado em abril, tinha a viagem de finalistas e não houve viagem para ninguém. Tinham o baile de finalistas em maio e acabou-se o baile.

Mas tendo esses exemplos diretos, o que se sente, que os miúdos se adaptaram ou estão fartos?

O que tenho visto é uma capacidade de adaptação muito grande, compreendem as coisas.

Por vezes há um discurso mais negativo dos jovens, que não querem saber.

Acho que é importante não nos esquecermos que isto não é normal e se calhar os jovens têm mais isso. Ainda noutro dia estava a ver na RTP2 um concerto na Gulbenkian. A dada altura põe-se a Gulbenkian toda em pé, cheia, e tanto eu como a minha mulher tivemos uma reação “o quê, estão ali todos juntos sem máscaras?”. Obviamente que aquilo tinha sido gravado antes da pandemia. O meu filho que também estava a ver a certa altura diz: isto é que é normal. E nós ficamos um a olhar para o outro. Temos de lembrar-nos do que é normal, que não é ficar assento sim assento não, de máscara o tempo todo. Portanto, vai haver um regresso à normalidade, isto não é ainda a normalidade. Dito isto, mesmo agora não estou em crer, não tendo dados sobre isso, que os adolescentes tenham comportamentos  de risco acrescidos e que as pessoas a furar as regras sejam mais os jovens do que os adultos.

É uma ideia que acaba por passar com imagens no Bairro Alto, ajuntamentos à noite e a própria ideia dos jovens afetados.

Sim, mas aniversários com 500 e tal pessoas, os contágios em casamentos, não são de miúdos. Os jovens dão mais nas vistas porque, como não são milionários, compram umas cervejas e vão para São Pedro de Alcântara. Os adultos, que já têm mais algum dinheiro, dão-se ao luxo de alugar uma quinta, de ir para algum lado, e não bebem cerveja, bem whiskey ou gin e de certeza que também conversam  e riem sem máscara.

Tendo experiência de falar com jovens, mudava alguma coisa na comunicação de risco?

O que faria, e algumas escolas fizeram mas outras não, é explicar os porquês das medidas, em vez de dizer que é assim e quem não fizer tem esta consequências. Quantos professores na primeira aula chegaram aos miúdos e disseram vocês têm razão, isto é uma enormíssima porcaria, é uma estupidez, mas tem de ser por isto? E não dizer que isto é a nova normalidade e vai ser assim. O novo normal? Se isto é o novo normal eu fujo já. Isto é uma anormalidade e se os professores expressarem isso, se lembrarem outros momentos em que houve coisas horríveis, os avós e familiares mais velhos que tiveram de ir para a guerra, acho que conseguem agarrar mais os miúdos. E essa deve ser a mensagem: vocês são agentes desse regresso à normalidade. Um discurso mais empático, em vez de dizer que a culpa é dos jovens, que não têm juízo...

Com esta nova variante, está a colocar-se com mais premência a necessidade de vacinar crianças e adolescentes para se chegar a um patamar de imunidade de grupo. Nem todos especialistas concordam, há pais com receios porque as vacinas começaram a ser testadas em crianças mais tarde. Conselho de pediatra?

O que achava era que talvez fizesse sentido, sabendo que os jovens socializam mais, seria começar a vacinar dos 18 anos para cima já em vez de continuar andar de cima para baixo, estando já os grupos mais velhos protegidos. Em relação às crianças mais novas, é evidente que teoricamente a partir dos 12 anos não haverá problema ou até mais cedo, mas as companhias não têm estudos e não se arriscam. E os meios de comunicação se houvesse um caso de um miúdo de 13 anos com um problema já só havia esse caso e a vacinação ia logo ao fundo. É sempre assim, no paracetamol a partir dos dois anos dizemos que se pode dar mas as bulas têm sempre muitas reservas, os comités de ética não permitem estudos em crianças mais pequenas. Espero que haja informação suficiente, bom senso, que se consiga vacinar os mais novos e mesmo assim se aparece uma variante que fure ou não a vacinação temos de esperar.

Mas sente os pais já preocupados com essa perspetiva de vacinar as crianças? Podem crescer os movimentos de antivacina mesmo cá, onde não eram tão expressivos?

Têm crescido bastante um pouco por todo o lado e ganharam imenso com isto, com a confusão que se criou. Há coisas que é difícil discutir com as pessoas, quando acreditam em coisas sem base científica. Mas depois houve alguns momentos em que a comunicação não ajudou. A história da AstraZeneca, “o sim, não, suspende-se”. Quando se suspende uma vacina depois de ter sido dada a milhões de pessoas isso cria uma desconfiança enorme. Podia haver outra maneira de anunciar, de transmitir a incerteza, nem que fosse uma suspensão de stocks. Aí concordo com o que o vice-almirante diz quando lhe perguntam sobre as vacinas. A resposta tem de ser: “É das boas”. Todos os anos as vacinas do Programa Nacional de Vacinação (PNV) vão a concurso público. Estão aprovadas, ninguém está a ver qual é a marca.

Gostava de ver o mesmo investimento que houve nesta campanha no Programa Nacional de Vacinação, onde nos últimos anos tem questionado alguma demora na comparticipação de vacinas.

Felizmente a da meningite B já entrou no PNV, já não faltam muitas, a da meningite Y e a da varicela. São opções de orçamento, técnicas e políticas, que podem ter diferentes fundamentações. Penso que temos tido um problema, e já antes da pandemia, que é a parte técnica e a parte política andarem muito encostadas, julgo que devia haver mais independência. Quando um diretor-geral da Saúde é nomeado pelo ministro da Saúde, cria-se uma dependência que não considero desejável.

Trabalhou muitos anos na DGS. Escreveu há umas semanas um artigo em que pedia mais dados detalhados sobre a situação epidemiológica. Sente que a Direção-Geral da Saúde sai fortalecida?

Não gostava de estar na pele da diretora-geral e da sua equipa. Acho que houve alguns erros de comunicação, quer no início, quer no Natal, quando o colega veio falar das festas ao almoço. Quando entramos neste registo começa uma chacota que rapidamente se espalha. Ou a diretora-geral de Saúde, quando no início houve aquela questão do fecham, não fecham as escolas e falou do caso das netas. Penso que não se deve particularizar: a diretora-geral naquele momento não tem netos. Aquelas conferências durante meses foram excessivas e nesse aspeto foi uma má gestão. Mas quer dizer, haveria algumas coisas que faria diferente, outras não.

Mas esta quarta vaga, parece-lhe que poderia ter sido gerida de outra forma?

Houve algum relaxamento, não sei se os ingleses trouxeram ou não alguma coisa quando vieram à Champions, mas o exemplo é muito importante. Um jovem português quando vê um jovem inglês de tronco nu a beber canecas de cerveja, claro que o que pensa é: “No meu país eu não posso e um estrangeiro pode?”.

No consultório, que consequências vê de ano e meio de pandemia?

Vejo muitas crianças assustadas, com medo, muitas crianças com insónias e perturbações do sono.

Com medo de apanhar o vírus?

Medo da morte. A morte passou a estar em todo o lado, está aqui no ecrã, nas notícias. E depois o vírus tem esta coisa: não se vê. E o mais perverso para as crianças é perceber que o vírus pode estar nas pessoas de que mais gostamos. E por outro lado, essa ideia de que nós podemos matar o avô, a avó.

Algumas famílias podem carregar essa culpa?

Sim e é uma realidade microbiológica, mas socialmente e psicologicamente é de uma violência brutal. Fui ver o meu pai, infetei-o e ele morreu. São marcas que ficam para a vida toda e que não são tão visíveis.

Os seus confinamentos foram produtivos?

Foram, fui para a Lourinhã, escrevi, neste momento estou entre casa e o consultório, mas foi acompanhar as aulas online, dar uns passeios ao ar livre. No meio de tudo o que aconteceu, podia ter sido pior.

 

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