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Winston Marshall. A renúncia da música em nome da liberdade de expressão

Winston Marshall. A renúncia da música em nome da liberdade de expressão

Dreamstime Sara Porto 01/07/2021 19:40

O banjoísta e co-fundador do grupo Mumford & Sons, deixou o grupo na passada quinta-feira depois de ter sido severamente atacado e acusado de ser “fascista”por partilhar um livro com tendências de extrema-direita, “congratulando-o”.  

A polémica remonta a março quando Winston Marshall, membro da banda de folk-rock britânico, Mumford & Sons, que durante a pandemia da covid-19, começou a ter o hábito de partilhar e recomendar livros nas suas redes sociais, foi surpreendido por uma onda de ódio e julgamento pela partilha de um livro em específico. 

O músico partilhou no Twitter a sua opinião sobre o último livro do jornalista “conservador” americano Andy Ngo, de seu título: Unmasked: Inside Antifa’s Radical Plan to Destroy Democracy – que argumenta que militantes de extrema-esquerda têm “planos radicais para destruir a democracia”. “Finalmente tive tempo para ler o teu importante livro. És um homem corajoso”, escreveu Marshall recebendo logo a seguir uma resposta massiva, com comentários que o acusavam de tendências extremistas: “Posso ser ingénuo, mas o banjoísta dos Mumford & Sons assume-se como nazi, não era algo que imaginasse”, lê-se numa das reações dos internautas. 

A controvérsia em torno de Andy Ngo Andy Ngo é conhecido como um “provocador”, que participa em manifestações de grupos de extrema-direita nos Estados Unidos, nomeadamente os Proud Boys. É o editor geral do The Post Millennial, site de notícias conservador canadiano.

O jornalista destaca-se pela denúncia de alguns comportamentos do grupo de extrema-esquerda Antifa (abreviatura de antifascista, palavra que se espalhou enquanto Donald Trump estava no poder na América, especialmente na cobertura de confrontos com os supremacistas brancos), através de vídeos cuja credibilidade foi sendo cada vez mais questionada. No livro em questão, o autor fala dos Proud Boys como um grupo de “fraternidade pró-Trump”.

Graças a toda esta controvérsia em torno do jornalista, os fãs do artista não perdoaram e este foi imediatamente acusado de “ser de extrema-direita” por recomendar um livro que lança uma “luz negativa sobre o movimento de extrema-esquerda apelidado de Antifa”. Depois disso, Marshall decidiu afastar-se por uns tempos da banda pedindo desculpa aos internautas: “Nestes últimos dias compreendi melhor a dor que causei pelo livro que defendi. Não só ofendi pessoas que não conheço, como também os meus companheiros de banda, e por tal peço imensa desculpa. Em resultado das minhas ações, decidi fazer uma pausa na banda para examinar os meus pontos de vista. Para já, fiquem a saber que me apercebi que o meu apoio pode ser visto como uma aprovação de um comportamento decisivo e de ódio. Peço desculpa, essa não era a minha intenção”, lamentou o músico. O que os fãs não esperavam é que essa pausa fosse “para sempre”. 

“Uma decisão difícil” No dia 25 de junho, o banjoísta anunciou no seu blog que apesar de “não ter sido uma decisão fácil”, deixaria de fazer parte do grupo Mumford & Sons. No “desabafo” em forma de “comunicado”, o músico começou por se defender das acusações que o ligavam à extrema-direita: “Não consegui prever que o meu comentário sobre um livro que critica a extrema-esquerda pudesse ser interpretado como uma aprovação da igualmente abominável extrema-direita”, admitiu, afirmando que isso “não poderia estar mais longe da verdade”.

“Treze membros da minha família foram assassinados nos campos de concentração do Holocausto. A minha avó, ao contrário dos seus primos, tias e tios, sobreviveu e nós somos muito próximos. Infelizmente a minha família conhece bem os males do fascismo. Chamar-me de “fascista” é absurdo e inacreditável”, revelou.

Além disso, Marshall não tinha consciência do quão esse tweet poderia afetar a banda. “Eles foram atrás dos meus amigos”, contou numa entrevista ao programa Today da BBC Radio 4. Segundo o artista, apesar da banda ser constituída por quatro elementos, estes eram vistos, aos olhos do público, como uma “unidade”, e “isso não é justo porque não tem nada a ver com eles”, defendeu.

Mas apesar de todos os incentivos para que a banda o afastasse, esta não cedeu, convidando-o a continuar. “Isso exigiu coragem, principalmente nesta era da chamada ‘cultura do cancelamento’. Pedi desculpas e decidi dar um passo temporário a trás”, continuou no seu blog, afirmando ter de proteger os seus companheiros de banda do “ninho de vespas em que tinha involuntariamente acertado e que desencadeou um enxame sobre eles e as suas famílias”, explicou. 

Mesmo após esse afastamento “combinado”, seguido de um pedido de desculpas público, tempo antes do músico anunciar a sua “saída permanente”, a multidão continuava a ostracizá-lo, desta vez pelo “pecado de me desculpar”, revelou no seu blog.

Em seguida, seguiram-se artigos difamatórios e aumentaram os comentários que o rotulavam “erradamente” e que, segundo o artista, “só mostra aquilo em que o discurso político binário se tornou”: “Eu podia permanecer e continuar a me autocensurar, mas isso iria corroer o meu senso de integridade, roer a minha consciência”, escreveu, acrescentando: “O único caminho a seguir para mim é deixar a banda e espero que, ao me distanciar deles, seja capaz de falar o que penso sem que sofram as consequências. Deixo-os com amor no coração e desejo a estes três meninos nada além do melhor”. 

O futuro de Marshall Na entrevista ao programa Today da BBC Radio 4, o artista de 33 anos voltou a sublinhar o quão importante é para ele a sua liberdade de expressão mostrando o seu desejo futuro de poder ser “ainda mais franco’’ publicamente sobre as questões que lhe são próximas: “Sempre que os tópicos me inspirem, espero poder falar sobre eles, sejam eles quais forem”, declarou. Agora o músico promete continuar o seu trabalho com a Link Up de Hong Kong e admite estar ansioso pelos novos projetos futuros.

Recorde-se que Unmasked: Inside Antifa’s Radical Plan to Destroy Democracy, foi lançado a 2 de fevereiro deste ano, tornando-se best-seller da Amazon e apareceu na lista de livros mais vendidos do The New York Times para não-ficção.

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