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Constantino Sakellarides. "Nenhum país avançado tem esta forma de aconselhamento"

Constantino Sakellarides. "Nenhum país avançado tem esta forma de aconselhamento"

Jornal i 23/06/2021 08:13

Constantino Sakellarides, coordenador do Observatório Português dos Sistemas de Saúde e ex-diretor geral da Saúde

Consideram que a gestão da pandemia foi problemática cá como noutros países. O que falhou foi tirar-se lições?

O que me parece relevante é, primeiro, reconhecer um conjunto de limitações que temos há décadas. Isso é óbvio no planeamento, no aconselhamento, é óbvio na falta de reforma dos sistemas de saúde pública, é óbvio na comunicação. A pandemia destapou-as. Tornou-as mais claras.

Escrevem que há o risco real de voltarem a ser tapadas.

Toda a gente reconhece que no meio de uma crise é difícil recuperar destas limitações rapidamente. Se não temos planeamento há décadas, se não temos uma cultura de aconselhamento, se não reformamos a saúde pública há mais de 20 anos, se a comunicação de risco nunca foi o nosso forte, não vai ser em seis meses/um ano que se vai se recuperar. Julgo que não era possível ter-se feito mais com estas limitações, simplesmente era preciso reconhecê-las para começar a resolvê-las. Aproveitar esta oportunidade para não tapar outra vez. Insistimos nestas limitações não para dizer que são resolúveis a curto prazo mas porque não notamos ainda sinais de que haja aprendizagem.

O Governo não reconhece essas falhas crónicas?

Uma posição extremamente defensiva tem este problema: não reconhecendo, não aprendemos. Temos de tirar a ênfase da crítica mediana, assumir que são coisas que as nossas instituições não conseguem fazer bem mas começar a superar estas limitações. E por isso dizemos que, como noutros países europeus, era difícil fazer melhor, mas o que devíamos fazer é o reconhecimento de limitações e começar a recuperá-las e esses sinais ainda são débeis.

Alertam que o país, há ano e meio em pandemia, não tem uma estratégia de saúde pública. É um dos apelos que fica neste relatório.

Está tudo ligado. O problema do planeamento e do aconselhamento é que são formas de racionalização das decisões que os políticos tentam evitar, e isto é histórico, porque limita o seu espaço de manobra. Os políticos querem ser voluntaristas, querem espaço de manobra, não querem ser constrangidos nem pelo planeamento nem pelo aconselhamento sistemático. Percebemos que é assim, mas achamos que não deve ser. Precisamos de planeamento, de uma forma de aconselhamento regular e credível, são as garantias de que as coisas correm bem.

Defendem que um dos problemas das reuniões do Infarmed foi a síntese ser feita pelos políticos.

O que mostramos no relatório é que nenhum país avançado tem esta forma de aconselhamento. Damos vários exemplos. Têm um painel de peritos que dá as suas recomendações, que às vezes incomoda, mas isso é que dá garantias. Os países avançados têm formas de aconselhamento sistemáticas, independentes, contínuas, não são ad hoc.

Revelam que o Conselho Nacional de Saúde Pública reuniu pela última vez a 18 de novembro. Defendem que seja envolvido.

O Conselho Nacional de Saúde Pública neste momento não existe.

Outra das críticas é que o plano para o último outono/inverno “não existiu”. Não saiu do papel?

É um dos grandes insucessos. Foi apresentado a 21 de setembro, mas nunca mais ninguém falou nele. Nem nas reuniões do Infarmed, nem nos serviços, nem no Ministério. Não se pode voltar a repetir. 

 

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