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22 de Junho de 1971. O sr. Américo e o estranho caso das bolas de ping-pong

22 de Junho de 1971. O sr. Américo e o estranho caso das bolas de ping-pong

Afonso De Melo 22/06/2021 20:35

Quatro homens assaltaram a dependência do Banco Pinto de Magalhães - todos eles tinham planeado o roubo nas Piscinas do Areeiro onde o gerente, Américo Monteiro, viu tudo e não percebeu nada.

A Polícia Judiciária investiga. Os seus inspectores farejam por toda a parte como cães de caça. Os assaltantes da dependência do Banco Pinto de Magalhães da Avenida de Roma estão a monte. O seu golpe fora imaginativo e audacioso. Fora ensaiado com bolas de ping-pong na Piscina do Areeiro na semana anterior. Américo Monteiro, responsável pela manutenção da piscina, tinha algo para dizer. Presenciara a manobra, não percebendo, na altura, para que era ela dedicada. Segundo ele, dois indivíduos de “tipo aciganado” (sic), entre os 30 e os 35 anos, entraram na piscina na sexta-feira, cerca das 10 horas da manhã. Tomaram banho normalmente durante meia-hora e, no final, foram sentar-se nas bancadas. Segundo o testemunho de Américo Monteiro, passaram a adoptar um comportamento suspeito: primeiro esconderam a cara com óculos escuros de aros largos; depois demoraram-se numa longa conversa.

Américo estava desconfiado. Muito desconfiado. Ha vários anos que era o responsável pelas instalações e, decididamente, nunca vira os dois indivíduos pelas redondezas, Tratou de observá-los com curiosidade. Entretanto surgiram à entrada mais dois sujeitos mas, após alguns minutos de hesitação, desistiram de passar as portas da piscina e afastaram-se. Voltariam dentro de cerca de trinta minutos. Segundo o testemunho de Américo, apresentaram-se impecavelmente vestidos: “Um vinha de fato à medida, bem cortado, certamente por um bom alfaiate, o outro usando uma camurcina beije”, registou a polícia as palavras do sr. Monteiro. “Sentaram-se os quatro muito juntos, debruçados sobre algo que, de início não fui capaz de distinguir”.

Ping-pong Américo Monteiro era um tipo persistente que vigiava tudo o que se passava na Piscina do Areeiro como se esta lhe pertencesse. Ferrado pela curiosidade, não tirou os olhos dos quatro indivíduos que lhe despertaram, desde logo, uma sinistra desconfiança. Percebeu que se mantinham afastados o mais que podiam dos outros frequentadores do recinto e que começaram a trocar entre si bolas de ping-pong. Mistério! Para profunda estranheza de Américo, a troca de bolas continuou até se tornar mecânica. E reparou que eles traziam algo escrito.

Pelas 11h45, os quatro mamíferos suspeitos abandonaram as instalações da piscina e foram colocar-se um lugares que se percebia facilmente terem sido antecipadamente escolhidos. Havia algo de comum nos quatro postos: todos eles tinham vista para o Banco Pinto de Magalhães. Tal como acontecera com as bolas de ping pong, os meliantes iam trocando de posição entre eles da forma mais ocasional possível, mas não escaparam à vigilância atenta de Américo, que os havia seguido até ao exterior. Declarou Américo: “Faltavam cinco minutos para o meio-dia quando um desses indivíduos aciganados (sic) entregou ao mais bem vestido de todos um saco de pano enfeitado com os anéis olímpicos”. Continua a afirmar Américo: “Então, esse fulano bem vestido, decidiu-se e entrou no banco”.

Entretanto, outra testemunha entrou em cena, o gerente da Pastelaria Sílvia. Não se menospreze, pelo caminho, a importância de Américo Monteiro nos acontecimentos, já que foi ele que solicitou ao pasteleiro que entrasse na repartição bancária de forma a ver o que estava a acontecer. Afirma Monteiro: “Demorando muito tempo para preencher o papel de depósito, o responsável bancário convidou o tipo mais bem vestido a sair. Eram 12h15 minutos. Os parceiros, quando o viram regressar à rua, dispersaram cada um para seu lado”.

Estávamos na sexta-feira. O fim-de-semana decorreu sem acidentes. Na segunda-feira, quatro homens, empunhando duas pistolas e uma pistola-metralhadora irromperam brutalmente pela dependência do Banco Pinto Magalhães da Avenida de Roma. Eram precisamente 11h57. Ao balcão, quatro senhoras e um homem – nem de propósito o gerente da Pastelaria Sílvia – esperavam para ser atendidos.

O homem mais bem-vestido empunhava a pistola-metralhadora e gritou: “Isto é um assalto e não estou para brincadeiras!” Parece que ninguém estava, mas ela lá sentiu necessidade de sublinhá-lo. Foi aí que os seus compinchas começaram a enfiar sacos de pano na cabeça dos circunstantes, incluindo naturalmente o gerente da Pastelaria Silvia. O sub-gerente do banco encontrava-se armado, mas não tentou resistir. Um dos assaltantes conduziu-o até ao cofre de onde foram pilhados 2180 contos em dinheiro português e estrangeiro. Consumado o assalto, os quatro indivíduos puseram-se em fuga num carro escuro. Desta vez Américo Monteiro não viu nada.

 

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