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Alemanha – Portugal. A horrenda nudez da menina dos nossos olhos!

Alemanha – Portugal. A horrenda nudez da menina dos nossos olhos!

Afonso De Melo Em Munique 21/06/2021 09:18

A Alemanha despiu por completo a seleção nacional (4-2) e revelou-nos todas as fraquezas de uma equipa que está muito longe de ser tão boa como pensamos que é.

MUNIQUE – Na minha frente, a menos de 100 metros de distância, contemplo o lugar preciso em que, há quinze anos – quem diria? -–Thierry Henry se deixou cair ao toque ligeiro de Ricardo Carvalho e um penalti convertido por Zidane (Ricardo falhou a defesa por milímetros), atirou a França para a final de Berlim e Portugal, para o maldito jogo para os terceiro e quarto lugares em Estugarda pelo meio de uma confusão que meteu uma hora e tal de avião a sobrevoar a cidade até que pudéssemos aterrar. Nessa altura, Portugal e Alemanha defrontaram-se como derrotados. Coube aos alemães serem um pouco menos derrotados ao garantirem o terceiro lugar (3-1). Há sete anos, em Salvador da Baía, no último confronto entre ambos os países, Portugal foi dolorosamente esmagado por 0-4 logo na abertura do Mundial do Brasil e nem à segunda fase passou. Pois, é a Alemanha, terrível Alemanha que sempre teimou, salvo três honrosas exceções, em fazer de nós pequeninos quando estamos frente a frente num campo de futebol.

E assim foi, outra vez. Logo aos 4 minutos, um golo anulado por fora de jogo, poupou-nos à terrível condição de termos de dar a volta ao resultado mas não escondeu que a seleção nacional entrou fechada na sua lura como um laparoto medroso. Não se anunciava nada de bom. Era preciso ter a bola e não a tínhamos. E quando a tínhamos ficávamos de imediato sem ela. O “Furor Teutonicus” de que falava Júlio César quando os antigos povos germânicos do norte da Europa rondavam as fronteiras do Império Romano, fazia-se sentir de forma verdadeiramente assustadora.

Subitamente, os mágicos saltaram da caixa. Depois de 14 minutos de massacre, Bernardo descobriu Jota na esquerda que fugiu, sozinho, e foi, junto de Neuer, oferecer o golo a Ronaldo. Tão simples e tão bonito como uma serenata de Toselli.

Os alemães arfaram. O soco, em plena boca do estômago, aconselhou-os a não atacar à bruta como o tinham feito até aí. Foi vê-los baralhados, entontecidos, de repente duvidando de si mesmos, mas acreditando que seria através de bolas postas pelo ar, da esquerda e da direita, que voltariam a tornar-se tão ameaçadores como tinham sido de início. Algo mudara entretanto. Algo fundamental: o Tempo, essa identidade abstrata jogava agora a nosso favor. Por pouco, muito pouco. Nelson Semedo perdeu, como já tinha acontecido, a visão abrangente dos movimentos de Gosens e um remate torto deste para a baliza encontrou Havertz no caminho, com a bola a tocar em Ruben Dias: 1-1 (35m). Se era de alma que eles precisavam, nós demos-lhe uma carrada de alma com o auto golo de Guerreiro quatro minutos depois. Estávamos de regresso àquilo que a história destes jogos nos habituou: submissos a um poder meio-fátuo, incompreensível. O medo tomara conta de nós.

Mudança. Ao intervalo, Fernando Santos trocou Bernardo Silva por Renato Sanches. Ninguém refuta o facto de aquele meio-campo estar a precisar de reboco. Mas como iríamos sair das fases defensivas com a rapidez com que tínhamos feito o golo?

A Alemanha perdeu a fúria. Ou, pelo menos, meteu-a no bolso. Já foi com elegância que chegou, tranquilamente aos 3-1 (Havertz, 51m), e convenceu-nos a todos de que já não deixaria fugir a vitória, tão grande era a sua superioridade, tão confrangedora a debilidade dos que traziam aos ombros os galões de campeões da Europa. Não, não somos assim tão bons como julgamos, não somos assim tão bons como já demos a entender, não somo assim tão bons como a maioria da imprensa nos incensa.

Mais um centro bem medido, Gosens sozinho ao segundo poste e 4-1 (60m). Uma preocupação grande invade todos os portugueses que observam a derrocada pura e dura da sua seleção. A pergunta que se coloca, nesta fase do jogo, é: quantos golos ainda marcarão os alemães? A vantagem que adquiríramos com os três golos em Budapeste esfumara-se. Até a posição de um dos melhores terceiros está comprometida.

Não é preciso puxar pela memória para nos recordarmos de exibições medíocres praticadas por esta equipa nos tempos mais recentes. Mas nunca as nossas fraquezas foram tão expostas, tão nuas. Diogo Jota reduz aos 67 minutos. Faltam vinte para o fim deste tormento. Ou será que ainda há, na alma lusitana, um resto de daquela protérvia que nos levou a ser donos de metade do mundo? Cabe-nos fixar os olhos no relvado e esperar. Os alemães parecem estar-se nas tintas para o golo sofrido, tão grande é a sua vantagem. Decidiram esperar. A bola jogava-se no seu meio-terreno mas tinham, pela frente, todos aqueles metros convidativos nas costas dos defesas portugueses. Ronaldo teimava em manter-se distante, sobre a esquerda, quando a equipa precisava dele no meio, o mais junto da baliza que fosse possível. A dez minutos do final, corrigiu finalmente a posição, mas os alemães trocavam, felizes, a bola de um lado para o outro, pouco preocupados com o que a seleção nacional ainda pudesse vir a conseguir, ignorando o remate estrepitoso de Renato Sanches à barra, sem dúvidas em relação à sua vitória até merecidíssima.

A derrota frente à França doeu-lhes na alma e chegara a hora de alguém ter de pagar por essa tarde maldita, aqui na Arena de Munique. Não podiam ter encontrado adversário mais em conta. A derrocada de Portugal vai ficar na longa lista dos nossos desaires mais mazombos e bisonhos. É mais uma assinada por um opositor que nos assustou ao longo dos cem anos de história da Equipa-de-Todos-Nós. O próximo jogo, em Budapeste, com a França, vai ser decisivo para o apuramento mas muita coisa terá de mudar para que não assistamos outra vez à horrenda nudez daquela que vinha sendo a menina bonita dos nossos olhos desde que, em 2016, em Paris, se tornou campeã da Europa. Que se vista. Agora de fato-macaco, como não pode deixar de ser.

 

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