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Jacinda Ardern. A confusão em torno da biografia não consentida

Jacinda Ardern. A confusão em torno da biografia não consentida

Sara Porto 16/06/2021 21:25

A primeira-ministra neozelandesa diz ter sido enganada pela autora do livro Jacinda Ardern: Leading with Empathy. Pensava estar a colaborar num livro de múltiplas vozes femininas, não numa biografia.

Há menos de uma semana, Jacinda Ardern juntou-se às críticas gerais a They Are Us (Eles somos nós), um filme de Hollywood sobre a sua resposta aos ataques terroristas a uma mesquita de Christchurch. A primeira-ministra neozelandeza disse que a tragédia está demasiado viva para ser transformada numa obra cinematográfica. Agora, Ardern voltou a distanciar-se de um projeto que gira em torno da sua figura.

Escrito pela ativista e jornalista Supriya Vani, e pelo escritor Carl A. Harte, e editado pela Simon & Schuster, o livro Jacinda Ardern: Leading with Empathy (Jacinda Ardern: Liderando com Empatia) baseia-se nas “entrevistas exclusivas de Vani com Ardern”.

Mas há um problema: aquilo que resultou numa biografia que documenta sobretudo o seu estilo de liderança deveria ter sido uma obra onde estariam “cerca de 10 outras mulheres líderes políticas envolvidas”, esclareceu a primeira-ministra em conferência de imprensa na passada segunda-feira, 14 de junho.

Ardern disse que foi “claramente enganada” por Vani sobre a intenção da entrevista e a premissa do livro, garantindo nunca ter sido informada pela jornalista da sua intenção de a biografar. O combinado, na sequência de uma abordagem em 2019, seria participar com “entrevistas exclusivas” para “um livro sobre mulheres e liderança política”. “Disseram-me que havia cerca de 10 outras mulheres líderes políticas envolvidas e concordei com a entrevista apenas nessa base, uma vez que não era específica para mim”, acrescentou.

Na verdade, as alegações sobre um livro de entrevistas exclusivas à primeira-ministra já tinham causado alguma estranheza na Nova Zelândia, já que Ardern normalmente não concede entrevistas a biógrafos. Duas conceituadas jornalistas neozelandesas, Madeleine Chapman e Michelle Duff, escreveram biografias de Ardern, mas nenhuma das duas conseguiu garantir uma única entrevista.

Em sua defesa, Harte confirmou,em declarações ao The Guardian, que “a entrevista original era para um livro que traçava o perfil de uma série de líderes femininas”. Contudo afirma que a primeira-ministra Ardern não foi enganada, “porque no momento da entrevista, não tínhamos intenção de escrever uma biografia apenas sobre ela”. O co-autor, Carl A. Harte, explicou também que o rumo do livro foi alterado em 2020, em consequência da pandemia da covid-19, que acabou por impedir a realização das entrevistas às restantes líderes mundiais, mas também porque “a sua história e a sua liderança modelo merecia um livro”. Harte acrescentou que Ardern estava ciente de que o enquadramento do livro havia mudado para biografia, já que “em janeiro, Vani tinha informado o gabinete da primeira-ministra dessa intenção, tendo sido inclusivamente enviada a capa do livro para os seus assessores”.

UM FILME PRECIPITADO? Durante a semana passada, Ardern já se tinha visto na obrigação de falar publicamente sobre o filme They Are Us, cuja produção deveria arrancar em breve e que, apesar de ter como pano de fundo os ataques de 15 de março de 2019 à mesquita de Christchurch, transformou a primeira-ministra neozelandesa na protagonista.

A produção, onde a atriz Rose Byrne interpreta o papel de Jacinda Ardern, foi anunciada pelo Hollywood Reporter na passada sexta-feira, 11 de junho, como uma “história inspiradora sobre a resposta da jovem líder aos trágicos acontecimentos”. Contudo, as reações não corresponderam ao esperado e o filme foi imediatamente criticado por se centrar na liderança de uma mulher branca, tendo como pano de fundo o assassinato em massa de 51 muçulmanos por um supremacista branco. Foram muitos os neozelandeses muçulmanos que criticaram o argumento como “explorador”, “insensível” e “obsceno”. Uma petição para cancelar a produção do filme ganhou, em apenas três dias, cerca de 60.000 assinaturas. “Há muitas histórias do 15 de Março que podiam ser contadas, mas não considero a minha uma delas”, reiterou Ardern negando qualquer envolvimento com o filme.

A reação parece ter convencido a produtora Philippa Campbell a abandonar o projeto: “Ouvi as preocupações levantadas nos últimos dias e ouvi a força das opiniões das pessoas. Concordo que os eventos de 15 de março de 2019 são cruéis demais para o cinema neste momento e não desejo envolver-me com um projeto que está a causar tanta angústia”, esclareceu.

A PRIMEIRA-MINISTRA Jacinda Ardern é a terceira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra na Nova Zelândia e a segunda líder mais jovem da história do país. Nasceu em 1980 na sétima maior cidade da Nova Zelândia, Hamilton, mas cresceu numa pequena cidade rural chamada Murupara. A sua mãe era funcionária de um refeitório escolar e o seu pai polícia em Morrinsvile, o que, segundo a primeira-ministra, foi decisivo na sua “maneira de ver a política”.

Estudou na Universidade de Waikato, em 2001, tendo trabalhado como investigadora no gabinete da primeira-ministra Helen Clark. Mais tarde, trabalhou no Reino Unido como assessora do primeiro-ministro Tony Blair, tendo sido, em 2008, eleita Presidente da União Internacional da Juventude Socialista. Depois de passar pelo parlamento neozelandês, foi escolhida por unanimidade como vice-líder do Partido Trabalhista, cuja liderança assumiu em 2017. Nesse mesmo ano o partido superou o seu maior rival, o Partido Nacional, e Jacinda assumiu o cargo de primeira-ministra. Ao fim de apenas oito meses no cargo, deu à luz uma menina, tornando-se a primeira chefe do governo do país a ter um filho durante o mandato.

Tornou-se de imediato um ícone da nova esquerda e da emancipação feminina. A eficácia na resposta à pandemia da covid-19 tornou-a ainda mais popular. Este ano, a revista Fortune colocou-a no topo da lista dos grandes líderes mundiais pelo seu papel nas questões climáticas e políticas de igualdade de género.

 

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