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A excentricidade ímpar de Silvina Ocampo

A excentricidade ímpar de Silvina Ocampo

Rita Homem de Mello 15/06/2021 14:23

Trinta e quatro breves contos compõem o mais recente livro da escritora argentina publicado entre nós, Fúria. Pequenas narrativas escritas geralmente num tom fabulizado, que revelam uma fúria esfíngica, sombria, invernosa.

“É com uma certa timidez que escrevo este prefácio. Une-me à Silvina Ocampo uma amizade antiga, conquanto sempre jovem, uma amizade que se funda na memória partilhada de certos bairros de Buenos Aires, de certos crepúsculos, de caminhadas na vagarosa planície ou ao longo de um rio silencioso como a terra, de poemas predilectos e, mais que tudo, fundada na compreensão e na benevolência que a Silvina nunca deixou de me revelar. Como Rossetti e como Blake, a Silvina chegou à poesia pelas sendas luminosas do desenho e da pintura, e na sua página escrita perdura a certeza imediata do elemento visual”.

Quem escreveu este prefácio foi Jorge Luis Borges, inserido no livro de contos Fúria, de Silvina Ocampo (1903-1993) editado pela Antígona no presente mês de maio. A belíssima ilustração da capa é da autoria de Mariana Malhão. No seu reverso está escrita a frase: “Quem é esta? Pensei, e era eu”. Uma frase que flecha o leitor como uma chaga.

Borges, Júlio Cortázar, Italo Calvino, Roberto Bolaño, Lorca, Lawrence da Arábia, Tagore, Xul Solar ou Antonio Berni, com quem estudou Belas-Artes em Paris, faziam parte do seu círculo de amigos, assim como Alejandra Pijarnik.

Com Pijarnik viveu uma amizade muito intensa. Na biografia La Hermana Menor, da autoria de Mariana Enriquez, temos acesso a cartas onde se destaca o amor não correspondido de Alejandra Pijarnik por Silvina.

Irmã de Victoria Ocampo, primeira mulher eleita para a Academia Argentina de Letras, diretora do teatro Colón, fundadora da revista Sur e fundadora da União Argentina de Mulheres, Silvina foi a mais nova de seis irmãos. Mas, ao contrário da sua irmã Victoria, ela manteve-se na retaguarda de uma timidez, de um mistério e uma singularidade que pautaria toda a sua obra.

Casada com o também escritor Adolfo Bioy Casares, com que viveu um casamento aberto e uma vida literária em comum, (os dois com Borges escreveram em 1949 A Antologia da Literatura Fantástica) Silvina cultivou toda a sua vida uma excentricidade ímpar. Na aparência, no modo como recebia em casa, nas suas relações, na escrita, no seu universo fantasmagórico.

No presente livro deparamo-nos com trinta e quatro contos. Trinta e quatro breves contos rasgados em fúria. Uma fúria esfíngica, sombria, invernosa. São pequenas narrativas escritas geralmente num tom fabulizado.

É sabido que as fábulas são protagonizadas por animais e que têm na sua génese uma moral, cujo objectivo é virtuar o nosso comportamento. Pois bem, nos múltiplos contos de Ocampo em que os animais são os principais protagonistas, são eles que ou se deixam desvirtuar com os humanos, geralmente com as mulheres, ou juntos aplaudem a podridão da sociedade. Os ratos geralmente são sempre os homens, como podemos constatar em Cave: “Coitadinhos! Não sabem, não compreendem o que é o mundo. Não conhecem a felicidade da vingança. Observo-me num espelhinho: desde que aprendi a olhar-me nos espelhos, nunca me vi tão bonita”.

Mas existem também outros textos, como o que abre este livro, A Lebre, em que é claro que o animal assume a personalidade feminina. A lebre, que nenhum cão ouvia, “porque a sua voz soava à voz do vento”. A lebre que está sempre entre os seus inimigos; a lebre que duvida das suas capacidades; que tem que aprender a se ver ao espelho. A lebre que assume a liderança da corrida e ainda assim, socorre a matilha.

Mas as lebres de Ocampo são cúmplices de anjos e demónios e é pelos seus olhos que sorvemos uma disfuncionlidade que, de algum modo, inexplicavelmente nos fascina.

Uma disfuncionalidade que assume vincadamente um contorno barroco. Barroco no sentido adjetival e descritivo, e também na forma como toda a fantasia se arquiteta em torno de algo que se avoluma a partir do quotidiano ou de uma suposta ‘normalidade’.

Uma suposta normalidade maquinada com um misto de estranheza e romantismo e que parte usualmente de alguma situação banal ou expectável. Recordemos o caso de Camila em Os Objectos.

Camila tem tendência a perder (como a maioria das pessoas) vários objectos, e durante a sua vida perdeu pulseiras, estátuas de bronze, bonecas. Até que um dia, passados muitos anos, volta a encontrar caída no chão uma pulseira que tinha perdido. Mas a felicidade vai ser rapidamente povoada por uma obsessão em querer readquirir outros objectos que também faziam parte da sua memória.

De notar, que o que aqui é posto em causa é a nossa própria relação com a memória, com a ausência de controlo sobre o nosso inconsciente, sobre a verdadeira essência de tudo o que nos inquieta. “Enquanto Camila se inquietava, tentando pensar noutros assuntos, os objectos apareciam, nos mercados, nas lojas, nos hotéis, em todos os recantos, da estátua de bronze com a tocha que iluminava a entrada da casa ao pendente de coração atravessado por uma flecha. A boneca cigana e o caleidoscópio foram os últimos. Onde encontrou esses brinquedos, que pertenciam à sua infância? Não havia ninguém em casa. Abriu a janela de par em par, inspirou o ar da tarde. Então viu os objectos alinhados contra a parede do seu quarto, como sonhara que os encontraria. Ajoelhou-se para poder acariciá-los. Ignorou o dia e a noite. Viu que os objectos tinham faces que lhes nascem quando os observamos durante muito tempo. Através de uma longa série de acontecimentos felizes, Camila entrara, por fim no Inferno”.

Como se vê, são histórias que na maioria se vão tecendo a partir do espaço doméstico, do feminino, de reuniões de família, festas de aniversário, casamentos. Aliás, é precisamente no conto O Casamento que a voz feminina mais se faz arranhar. Mas, na grande maioria essas histórias remetem geralmente para o tempo da infância. Uma infância pronta a degenerar-se e a perverter-se. Uma infância numa viagem em agonia de ida sem volta ao inferno.

Não há dúvida de que a infância nos seus contos se resume a uma espécie de viveiro de calamidades. E é nesse viveiro que se conserva providencialmente o humor negro, a tragédia, a estranheza, o mistério e a desordem.

Acontece que o coração do leitor vai caber numa caixa de fósforos a cada descrição, e de tão envolvido e assoberbado, ele vai-se sentir mais vivo do que nunca. Tudo porque simplesmente ele vai sentir-se vitaminado por uma adrenalina indecifrável, vigorosa e alucinante. A alucinação, a lágrima e o riso são, nos seus textos, uma espécie de três últimos apóstolos do fantástico que se convertem no mesmo trilho cruel e brumoso.

Nos contos de Ocampo, o leitor nunca se sente um peixe fora de água na presença de um mundo de criaturas raras, misteriosas e mirabolantes. Aliás, por nunca se sentir deslocado, embora que às vezes hesitante entre esse mundo sinistro e o seu, a sua atitude perante o texto é de pura expectativa. É que o leitor nunca sabe o que se segue, nunca sabe a que inferno vai parar. É um percurso também ele em fúria.

O conto Fotografias, por exemplo, parte de um episódio vulgar numa festa de família em que um fotógrafo é contratado para registar o momento. Adriana, uma rapariga de catorze anos, que há um ano tinha ficado paralítica, festeja em casa o seu aniversário. O que nos choca aqui não é o facto de a personagem ser paralítica, de estar numa cadeira de vime ou de acabar por morrer sem ninguém dar conta no final da festa à cabeceira da mesa entre fatias de bolo e copos transbordantes de sidra. O mais apavorante é todo o enquadramento e o plano maquiavélico e sinistro das descrições. “Foi só mais tarde, quando provámos o bolo e brindámos à saúde da Adriana, que nos apercebemos de que ela tinha adormecido. A cabeça pendia do pescoço como um melão. Não era estranho que, sendo aquela a sua primeira saída do hospital, o cansaço e a emoção a tivessem vencido. Algumas pessoas riram-se, outras aproximaram-se e bateram-lhe nas costas para a acordar”.

É fabulosa esta descrição, o modo como a narradora manuseia cada plano com a máxima segurança, com tamanha maleabilidade. É como se estivéssemos sorrateiramente atrás de uma lente sobre o seu próprio eixo observando tudo e todos em ângulos contrários.

Mas, embora o leitor tenha essa sensação, ele nunca está preparado para o desenlace versátil e tumultuoso de cada história. Ele nunca sequer está a um passo de perceber a mensagem que lhe é fintada.

Borges, no seu prefácio, sublinhou: ”Nos contos de Silvina Ocampo há uma particularidade que não consigo compreender, o seu estranho amor por uma certa crueldade inocente ou oblíqua; atribuo singularidade ao interesse, o interesse atónico que o mal inspira numa alma nobre. O presente, digamos de passagem, talvez não seja menos cruel do que o passado, ou do que os diferentes passados, mas tais crueldades são clandestinas. […] A crueldade, nos nossos dias, procura a sombra; a crueldade é obscena, no sentido etimológico do termo”.

Realmente não há um único conto que não seja profundamente sombrio, obsceno ou insólito. Vejamos como em todos os textos, a crueldade agasalha-se num lirismo pautado por uma anomalia, que no nosso íntimo nos é familiar. É-nos familiar porque tudo o que é obsceno ou ameaçador exerce um poder magnético sobre nós.

A normalidade em Ocampo é o fato de menina das alianças que o leitor se recusa a vestir. Mas, por mais que o figurino do socialmente correto lhe assente melhor, a verdade é que o leitor de Ocampo não está disposto ou interessado em acatar o que aparentemente lhe é suposto assentar melhor. Ele está interessado em descolar da realidade, em alucinar noutro cometa. 

Ele quer foçar a sorte dos duendes, quer dar corda a um urso mecânico perdido a um canto e viajar no seu dorso até encontrar um poema tatuado num vulcão ou num braço de uma boneca, mesmo que essa boneca seja a mais assustadora. Porque todos os poemas também são assustadores se lidos demasiadas vezes. Lidos demasiadas vezes eles estrangulam-nos e engolem-nos a seguir.

“O destino é como um tigre que já provou carne humana e vigia o seu dono”, escreveu Ocampo em Magush.

Ainda que no limbo entre o palpável e o indecifrável, as personagens ocampianas são sedutoramente estouvadas, com atitudes bruscas e bizarras, mas que também, de alguma maneira acabam por nos ser próximas.

Só com elas presenciamos acontecimentos destoantes e imprevisíveis capazes de nos fazer entrar para nunca mais querer sair de uma Casa de Açúcar ou de uma Casa de Relógios. Porém, é nessa imprevisibilidade atípica que o leitor não tem como não se sentir cilindrado por um exército de ratos em revoada.

Ávida leitora de notícias ligadas a crimes, psicopatas ou qualquer fatalidade que fosse, Ocampo dedicava-se a colecionar recortes de jornais que servissem de inspiração a futuros textos.

E, se reparamos bem, a brevidade de alguns deles, assim como o seu esqueleto narrativo, assemelha-se claramente a uma notícia trágica. Uma notícia que do nada flui para pormenores, que deambulando entre o horripilante e o maravilhoso, criam uma teia furiosamente feminina.

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