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O monstruoso apetite pelos golos dos ogros do Danúbio

O monstruoso apetite pelos golos dos ogros do Danúbio

Afonso de Melo 14/06/2021 20:51

Dificilmente outra seleção apresenta nos seus registos uma tão grande quantidade de goleadas, aplicadas seja a quem for contando com as duas maiores em Mundiais. Apenas um nome não consta na lista de vitórias dos húngaros - o de Portugal. 13 jogos; 9 vitórias e 4 empates. A nós não engolem eles!

Se os 7-0 de Portugal à Coreia do Norte, na Cidade do Cabo, no Mundial da África do Sul entraram para a lista das maiores goleadas em fases finais de Mundiais, os nosso adversários húngaros de amanhã, aqui no Estádio Ferenc Puskás, em Budapeste, tem uma ou duas palavras para dizer sobre a matéria. Na verdade, passando os olhos pelos resultados da seleção húngara desde a sua estreia, em Outubro de 1902, é de ficar estarrecido com a voragem pelo golo que sempre excitou estes ogros do Danúbio. Vamos por partes. Na tal lista a que fiz referência, das maiores goleadas, a Hungria tem direito ao primeiro lugar com o 10-1 que aplicou a El Salvador, em Espanha, 1982. Já agora tem também direito ao segundo, com 9-0 à Coreia do Sul, na Suíça, em 1954 - ex-aequo com o Jugoslávia, 9 - Zaire, 0, na RFA, em 1974. (Abra-se um parêntesis para dizer que borra a pintura com o 0-8 que sofreu do Uruguai, no Brasil, em 1950).

Desde os primórdios que os húngaros viveram desvairados com o cheiro do golo como Vlad Dracul pelo cheiro do sangue lá no seu principado da Valáquia.  Se na primeira década do século passado levou alguns corretivos dolorosos (0-5 com a Áustria; 0-7 e 2-8 com a Inglaterra), as coisas não tardaram a dar uma reviravolta completa, sobretudo quando a Hungria despachou a Itália por 6-1 em 1910. Percorre-se a lista de serviços da seleção do Danúbio, e há momentos retumbantes: 9-0 à Suíça (1911); 12-0 à Rússia (1912); 13-1 à França (1927); 8-3 à Checoslováquia (1937); 11-1 à Grécia (nas eliminatórias para o Mundial de 1938); 7-2 à Roménia (1945); 9-0 à Bulgária (1947); 9-0 à Roménia (1948); 8-2 à Polónia (1949); 12-0 à Albânia (1950); 8-0 à Finlândia (1951); 7-1 à Turquia (na fase de qualificação para os Jogos Olímpicos de 1952, onde foram campeões); 6-3 à Inglaterra (em Wembley, no famoso jogo de 1953); 7-1 à Inglaterra (na desforra do jogo anterior, em 1954); 8-3 à Alemanha Ocidental (no jogo de grupos da fase final do Mundial de 1954); 8-0 à Suíça (1959); 11-0 à Tunísia (1960); 6-1 à Bulgária (no Mundial do Chile em 1962), e por aí fora num total, até ao momento, de 1945 golos marcados num total de 954 jogos, números que, temos de concordar, são verdadeiramente impressionantes.

Aquele que escapou. Como nos velhos filmes do Oeste, de preferência com o Lee Van Cleef, há sempre um que escapa à pontaria infalível do herói que, pelo fim de tarde, cavalga em direção ao pôr-do-sol. Bem a propósito, o que escapou à voracidade dos húngaros chama-se Portugal.

Até hoje, em treze jogos realizados contra os húngaros, a seleção leva a confortável vantagem de nove vitórias e quatro empates. E há que assinalar, por exemplo, a goleada por 4-0, imposta em Janeiro de 1938, a uma equipa que seis meses depois estava a disputar a final do Campeonato do Mundo de França, face à Itália. O encontro teve lugar em Lisboa, o selecionador era Cândido de Oliveira, e os golos foram apontados pelo eborense João Pedro da Cruz, o João Cruz que jogou onze anos no Sporting - logo dois - Espírito Santo, do Benfica, e Pinga, do FC_Porto. Convenhamos que era uma linha avançada do quilé, como gostava de escrever o Assis Pacheco, e que a vitória fica nos anais das mais brilhantes da equipa dos cinco escudos azuis.

Antes disso já tínhamos empatado no Porto (3-3), no dia 26 de Dezembro de 1926, numa partida da qual já deixámos aqui registo recente, e vencido em 9 de janeiro de 1938, em Lisboa, por 1-0 (golo de Pinga).

Em junho de 1956, recebemos os húngaros já no Estádio Nacional, e empatámos a duas bolas, golos de José Águas e Vasques. Dez anos mais tarde, aconteceu o que foi, muito provavelmente, Portugal-Hungria mais importante da história do futebol português. Estreia na fase final do Campeonato do Mundo da Inglaterra, em Old Trafford, Manchester, com uma vitória trabalhosa por 3-1, dois golos de José Augusto e outro de José Torres. Em 1983, disputámos o último amigável frente aos ogros do Danúbio, já longe dos seus tempos gloriosos: empate bisonho em Coimbra- 0-0.

A partir daí, tivemos dois jogos da fase de apuramento para o Euro-2000 - 3-1 fora e 3-0 em casa; dois jogos da fase de apuramento para o Mundial de 2010 - 1-0 fora e 3-0 em casa; o 3-3 espetacular de Lyon, no dia 22 de Junho de 2016 (2 golos de Ronaldo e um de Nani) que nos permitiu seguir para a fase eliminatória do Europeu da nossa glória e, mais recentemente, nova disputa dupla para a qualificação do Mundial da Rússia em 2018 - 3-0 em casa; 1-0 fora, como de costume. Ah! Não! O monstro não nos engole!

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