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Arraial Liberal. "Não sei de quem é a culpa, mas parece que há dois pesos e duas medidas"

Arraial Liberal. "Não sei de quem é a culpa, mas parece que há dois pesos e duas medidas"

Facebook/Iniciativa Liberal Maria Moreira Rato 14/06/2021 14:06

Iniciativa Liberal ignorou as recomendações da Direção-Geral da Saúde e da Câmara Municipal de Lisboa e organizou um arraial no sábado à noite. Os proprietários dos restaurantes sentem-se injustiçados com este evento e questionam se “o coronavírus só circula” nos mesmos.

Os arraiais dos Santos Populares foram adiados, mas não para todos. O partido Iniciativa Liberal organizou um em Santos, o que motivou várias queixas juntos dos moradores, soube o i. Também a polícia foi “obrigada” a ficar de braços cruzados, uma vez que, não tinha ordens para intervir, a não ser que “um conjunto de regras não estivessem a ser cumpridas” ou se “houvesse orientações superiores, nomeadamente de um delegado de saúde” para que o evento não se organizasse, apurou o i junto de fonte da PSP.

É certo que o ajuntamento de mais de mil foliões não agradou a várias pessoas, o que as levou a questionar à polícia se “sempre podiam existir festas ou não”. Uma situação que foi debatida entre a direção Nacional da PSP e a Polícia Municipal no sentido de articular o policiamento. “A PSP queria que a Polícia Municipal tivesse uma maior intervenção porque há uma responsabilidade direta das câmaras, tem uma proximidade diferente e conhecem melhor as pessoas. É uma forma mais subtil de fazer policiamento”, diz a mesma fonte ao i.

Em relação ao arraial em Santos não tem dúvidas: “A informação que nos deram é que estavam a cumprir todas as regras instituídas. E, do ponto de vista legal, o que fizeram é o que faz qualquer esplanada de um restaurante”.

Proprietários contestam No entanto, não é este o ponto de vista do proprietário de um dos restaurantes mais antigos da zona de Santos. “A atitude do Iniciativa Liberal foi péssima porque os restaurantes não tiveram oportunidade de fazer nada, mesmo com o horário de encerramento às 22h30, e isso não é justo”, sublinha ao i. “Compreendo os impedimentos da pandemia, mas o problema é que se calhar vai haver mais casos devido a este ajuntamento”, salientando que “o Sol, quando nasce, nasce para todos”, assumindo que o evento espelha “uma falta de respeito total” pela restauração.

“Não tenho nada contra o partido, mas acho que isto não devia acontecer porque temos a sensação de que existem regras diferentes”, fazendo um paralelismo entre aquilo que aconteceu este fim de semana e o período negro que atravessou desde março de 2020. “Investi no take-away, mas, primeiro, não teve o retorno que esperava. Depois, abri, fechei, voltei a abrir e por aí fora, é a história que todos conhecem”, partilha com o cansaço notório na voz.

“É triste lembrar-me das dificuldades pelas quais passei, e continuo a passar, e constatar que nem os próprios políticos têm pena de nós”.

Também Leonel Madeira, proprietário do restaurante O Tachadas, da Rua da Esperança, na Madragoa, desde 1999. 
“Acho que se os restaurantes foram proibidos de celebrar os Santos Populares e não pudemos sequer pôr fogareiros na rua, parece que as proibições só não se aplicam aos partidos políticos”, frisa, recordando que “o Partido Comunista teve um congresso com montes de gente, em novembro, e, agora, a Iniciativa Liberal faz o arraial e isto só prova o clima de injustiça que se vive”.

“O coronavírus só circula nos restaurantes?”, questiona. “Dizem que estiveram mais de 1000 pessoas no arraial, mas já li que foram perto de 3000. Não sei de quem é a culpa, se é da Câmara ou do Governo, mas sinto que há dois pesos e duas medidas”, desabafa Leonel, tecendo duras críticas à atuação das forças de segurança.

“Não sei qual é a moral da PSP porque dizem que não podemos juntar pessoas nos restaurantes e depois não implicam com uma celebração daquela dimensão. Ainda por cima, a restauração tem sido um dos setores mais prejudicados e está a ser discriminada mais uma vez”, avança, adiantando que, a seu ver, “se estava proibido, estava proibido para todos e não devia haver forma de contornar a lei”.

“A arrogância não é arma contra a pandemia” “Como é possível a IL ter criticado o PCP e agora ainda fazer pior que os comunistas?”, questionou o presidente do PSD numa publicação na rede social Twitter, tendo juntado à mesma uma imagem do “Arraial Liberal”. Mostrando o seu desagrado, Rui Rio escreveu “Assim não!”, defendendo que para vencer o novo coronavírus é necessário “ter todo o respeito pelos outros e sentido da responsabilidade”.

“A arrogância não é arma contra a pandemia, nem a favor da recuperação económica”, frisou, condenando a realização do evento organizado à revelia da Direção-Geral da Saúde (DGS), pois, num parecer a que a agência Lusa teve acesso, o Delegado de Saúde Regional de Lisboa e Vale do Tejo, António Carlos da Silva, mostrou-se “desfavorável relativamente a todas as atividades que extravasem o referido comício político”, ressalvando que “atendendo ao princípio de precaução em saúde pública, e pela situação epidemiológica atual na cidade de Lisboa, a mesma não deverá ocorrer e ser adiada”.
Já o presidente da câmara considerou que o partido político agiu ao abrigo da lei das manifestações para contornar as proibições, reforçando que o IL fez “uma utilização alterada daquilo que a lei prevê”.

“Foi utilizada da maneira que se viu por um partido político, que atuou em exceção e de forma contrária ao que vimos por toda a cidade”, disse, constatando que o IL “decidiu dar um sinal contrário, não cumprindo as regras da DGS, não se preocupando sequer com isso, procurando achar que faria de uma manifestação um festejo à revelia de qualquer regra.” “Esse comportamento ficou com esse partido”, rematou Medina.

Tiro ao alvo à política Além do desrespeito pelas normas de segurança em vigor, o Iniciativa Liberal também disponibilizou 20 barraquinhas cuja finalidade a DGS explicou desconhecer, tal como os jogos presentes.

Num destes, o tiro ao alvo, foi utilizado um manequim sem rosto sem mãos que envergava uma t-shirt de Che Guevara. Pouco tempo depois, era-lhe atribuída a cara de Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e da Habitação. 
Num jogo de setas, foi possível acertar em Pedro Nuno Santos, António Costa, Marta Temido, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Rui Rio, Eduardo Cabrita, Augusto Santos Silva e Fernando Medina. “Aproveito para dizer que, com aquecimento, consigo ser bom em jogos de setas”, veiculou Tiago Mayan Gonçalves, candidato presidencial do Iniciativa Liberal, na sua conta oficial do Twitter.

Já num vídeo, publicado na mesma plataforma, o objetivo passava por derrubar o máximo de latas de cerveja possível adornadas com a cara de Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras e ex-militante do PSD.
As “brincadeiras” têm sido censuradas por variadas personalidades nas redes sociais, como Francisco Seixas da Costa, antigo diplomada, docente universitário, gestor de empresas e consultor, que tweetou “A maturidade e o espírito democrático espelhados num ‘jogo’ político. Para memória futura”.

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