27/7/21
 
 
José Paulo do Carmo 11/06/2021
José Paulo do Carmo

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Até ao Sul de Espanha

De cada vez que lá regresso (como é o caso) tenho a sensação de que o que procuro são as memórias felizes que vivem no meu imaginário.

As férias de Verão da minha infância e inicio de adolescência foram passadas invariavelmente no Sul de Espanha. Se bem me recordo, devido ao facto de o meu Pai gostar de estacionar o carro e praticamente não ter que lhe tocar durante os dez dias. Hotel em frente ao mar e largas marginais para passeios a pé e um único foco, descansar, apanhar sol e dar uns bons mergulhos. Em Portugal não existiam muitos espaços assim e Espanha era já por essa altura um baluarte do turismo internacional. Com muita vida noturna e uma programação muito completa para crianças e graúdos. Hoje em dia já não se notam as diferenças mas na época era tudo novidade. De cada vez que lá regresso (como é o caso) tenho a sensação de que o que procuro são as memórias felizes que vivem no meu imaginário.

É engraçado que sou capaz de não me recordar do que comi ontem ao almoço mas lembro-me de tudo o que vivi naqueles dias. Da azáfama da preparação, ao acordar de madrugada para fazer uma cansativa viagem de oito horas com a mala meticulosamente arrumada para caber tudo, ao mais ínfimo pormenor, de ver o meu Pai guardar numa bolsa cinzenta colada ao corpo um maço recheado de pesetas, para que não houvesse surpresas ao passar Sevilha (assolada por pequenos ladrões). Da paragem obrigatória para comer uns calamares (lulas fritas em forma de argola), uma ensaladilla rusa ou um presunto pata negra e um queijo manchego, onde a tortilla também não podia faltar. Do meu olhar pasmado ao ver os espanhóis barrigudos de calças no umbigo a comer “pan tumaca” (pão barrado com tomate cru, azeite e um pouco de sal) logo pela manhã e do gozo que o meu pai tinha em gastar umas moedas nas slot machines, que eram presença obrigatória em cada restaurante virado para a estrada.

Quando chegávamos tínhamos apenas tempo para deixar as malas e seguíamos para o Pryca fazer as compras da semana. Deliciava-me com tudo o que lá havia mas especialmente com Kas de limão e com umas galletas (bolachas) rellenas de chocolate que duravam sempre menos do que era suposto. Os pequenos almoços na varanda depois do ritual de ir comprar um cacete a estalar e os dias passados entre a piscina e a praia maravilhosa de areia preta, com a água a temperatura convidativa. Os gelados e waffles que ia comprar com os meus primos a meio da tarde e o tempo para fazer a digestão que usava a ler o Record e A Bola que me enviavam por correio de Portugal. Os passeios à noite que a minha mãe adorava, entre ruas e ruelas típicas, pejadas de gente, com tendinhas de um lado e do outro a vender bijutaria (ou cartazes a imitar os das touradas que podíamos personalizar com o nosso nome), que terminavam invariavelmente numa pequena casa de crepes belgas chamados “La vaca sentada”.

A emoção do dia que íamos ao parque aquático e ao de diversões. Era tão feliz e nem dava conta… Acho que é sempre assim. A felicidade vem de uma forma natural e fica dentro de nós em jeito de saudade. Quando regresso ao Sul de Espanha regresso a tudo isso. Não da mesma forma mas é sempre especial. Talvez um dia consiga desafiar os meus Pais a regressar, para reviver um pouco desse estado de leveza novamente.


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