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Ferraz da Costa. "Não podemos estar dependentes de apenas duas ou três atividades industriais"

Ferraz da Costa. "Não podemos estar dependentes de apenas duas ou três atividades industriais"

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 11/06/2021 13:37

O presidente do Fórum para a Competitividade lamenta a falta de chips que obrigou a paralisar alguma indústria nacional, mas alerta para uma ameaça ainda maior: o aumento das taxas de juro. Em relação ao acordo do G7 em matéria de IRC, acredita que Portugal vai sair prejudicado.

 

Qual a importância destes chips para a indústria?

Há muitas componentes que são usadas com grande intensidade e frequência no ramo da produção industrial nas coisas mais variadas, os automóveis são disso um bom exemplo. Estes chips são produzidos a milhares de quilómetros de distância, dependem de correntes de abastecimento que, até há pouco tempo, não registavam grande problema, em que as empresas até conseguiam funcionar com stocks relativamente baixos. A interrupção do trânsito no canal do Suez quando o porta-contentores encalhou veio chamar a atenção de quem estava longe destes problemas para o que podia significar ter de repente cerca de 1/10 do tráfico mundial bloqueado numa passagem marítima, por onde todos têm de passar no caminho da Ásia para a Europa e para os Estados Unidos. Acabou por provocar um desarranjo nesse sistema de logística muito sofisticado, que funcionava muito bem e em que previsivelmente todos sabiam quantos dias depois é que tinham as coisas. Evidentemente isso veio criar dificuldades. E não vai ser só com os chips das concessões mecânicas e eletrónicas, vai também acontecer com outras coisas, não sabemos bem com o quê. Mas, por exemplo, a nossa indústria da construção civil está neste momento com dificuldades sérias de abastecimento de alguns materiais necessários para construir. O ferro e o aço já subiram muito de preço, o alumínio também. Muito provavelmente vamos ter subidas de preços, não sei se será um processo inflacionista clássico, mas acredito que, em algumas áreas, vamos assistir a algumas dificuldades. Aliás, isso já era relativamente previsível. A economia mundial era um motor muito complexo que quase parou, agora retomou, mas até voltar ao ritmo normal vamos assistir a alguns problemas.

E Portugal não fica alheio...

Isso vai acontecer em toda a parte, mas Portugal, por ter uma economia relativamente atrasada, é capaz de não ser tão afetado como outros.

Mas a indústria automóvel nacional parou. É o caso da PSA e da Autoeuropa...

Exatamente.

E enquanto a situação não for regularizada, o impacto ainda será maior, nomeadamente financeiro...

Isso de certeza. E ainda não se sabe bem o que vai acontecer. Pior do que as perdas financeiras é que poderemos assistir a um mecanismo generalizado de subida das taxas de juro. A Reserva Federal dos Estados Unidos discutiu o assunto há cerca de dois meses e concluiu que a maior parte das previsões de inflação eram exageradas. No entanto, houve um ou dois economistas conhecidos internacionalmente que disseram que iríamos passar rapidamente por um período de inflação por causas das injeções monetárias que foram feitas durante este período, nomeadamente nos Estados Unidos, e com volumes que nunca se tinha ouvido falar. E provavelmente vão ter esse efeito. Acho que Portugal pode ser muito mais afetado pela variação da taxa de juro do que pelo problema de abastecimento de três ou quatro atividades industriais, por muito importante que isso seja. E o nosso Governo tem tido um grande otimismo e, nos últimos anos, em vez de ter reduzido a dívida, optou por gastar esse dinheiro no pressuposto de que o alargamento da política monetária por parte do Banco Central Europeu iria continuar. Até ao dia...

E isso acompanhado pela falta de aposta na indústria...

Sim, sim.

No caso do PRR , Portugal deveria ter apostado mais na indústria?

Acho que sim. A bazuca portuguesa tem características únicas e basta olhar para a nossa vizinha Espanha, mesmo que o Governo espanhol tenha algumas componentes de extrema-esquerda, isso não impediu a administração pública espanhola de continuar, nos últimos anos, com políticas a apoiar as empresas espanholas. Isto significa que eles vão ter um Programa de Resiliência e de Recuperação muito mais voltado para a recuperação da economia do que nós, onde 80% das verbas vão ser consumidas pelo Estado. E, por outro lado, o que vai para as empresas vai estar sujeito a condicionalismos muito apertados, uma vez que o dinheiro tem de ser gasto num prazo extremamente curto. Ninguém tem na gaveta projetos com a dimensão pretendida para fazer face a uma oportunidade destas. Não é tudo conhecido, mas fala-se, por exemplo, que os projetos de inovação feitos em consórcio tenham de ter uma dimensão mínima de 50 milhões de euros. É muito difícil num prazo extraordinariamente curto arrancar já em 2020 com empresas suficientes que tenham um volume dessa natureza.

O último grande projeto de bandeira com essa dimensão foi a Autoeuropa....

Mas vale a pena dizer uma coisa em relação à Autoeuropa. Na altura, este deve ter sido dos últimos projetos europeus na área do automóvel que foi subsidiado fortemente e foi subsidiado com os fundos comunitários que recebíamos e que foram canalizados para a Ford e a Volkswagen. Na maior parte dos países, investimentos desse tipo já não eram permitidos, só podiam contar com medidas de caráter geral, por questões de concorrência. Por razões compreensíveis, a União Europeia não deixa que uma empresa possa receber uma ajuda enorme, na medida que isso seria uma concorrência desleal em relação a todas as outras. Neste momento, não estamos a conseguir criar condições gerais que atraiam investimento em quantidade suficiente, como se vê pelos números, que são bastante reduzidos. E não estou a pôr em causa o esforço da AICEP na atração de investimento, porque tem conseguido atrair muita gente, só que depois os empresários não gostam das condições, em boa parte dos casos. E uma das razões por que não gostam é que as empresas preferem ter um acordo de investimento que só é acessível para empresas acima de uma certa dimensão do que entrar nas condições gerais, que são as dadas pelo Orçamento de Estado. Isso é considerado pouco atrativo e, mesmo quando estão dispostos a aceitar a isso, têm medo do que venha a acontecer no futuro. Neste momento, ninguém faz uma ideia do que vai ser o Orçamento de Estado para o próximo ano. O que vai acontecer aos impostos? É isto que afugenta os investidores estrangeiros. Preferem ter um acordo de investimento negociado, em que fica tudo estabelecido: a que têm direito, o que têm de fazer, o que não podem fazer, qual é o papel do Estado e qual é o papel deles. Isso para os agentes económicos normais, mesmo para os estrangeiros, abaixo de uma certa dimensão é uma hipótese que não existe e é por isso que temos tão pouco investimento de dimensão média. É muito bom ter uma Autoeuropa que teve um efeito de arrastamento dentro do setor que é indiscutível e está à vista de toda a gente, mas era bom que tivéssemos 200 ou 300 empresas que empregassem umas 500 ou 600 pessoas e não só uma de cinco mil. E assim não estarmos dependentes de apenas duas ou três atividades.

Como vê o acordo dos ministros das Finanças do G7 que estabelece o IRC mínimo de 15%?

Os países pequenos, na luta pelo investimento estrangeiro, quase todos oferecem condições fiscais mais atraentes porque têm sempre o mercado interno mais pequeno. Ou seja, entre Portugal e Espanha, qualquer empresa mesmo com igualdade na taxa de juro e de taxa de imposto prefere ir para Espanha porque ganha logo o mercado interno espanhol que é seis vezes o nosso. Isso faz com que os países pequenos tentem normalmente ser mais competitivos fiscalmente. É o caso da Irlanda, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Dinamarca, Áustria e devia ser o caso de Portugal. O que foi agora discutido em Londres é uma imposição dos grandes em relação aos pequenos. A Alemanha, que economicamente é muito grande – tem uma taxa de imposto relativamente alta e não a quer baixar –, quer forçar os outros países a subirem. É uma forma de reduzir a concorrência. A França está exatamente na mesma posição. Isto mostra a influência francesa e alemã de quererem este arranjo, em troca a União Europeia não tributa tanto as grandes empresas tecnológicas, como chegou a estar previsto. O que estava previsto era haver um aumento de tributação brutal na Europa sobre a Google, Facebook, entre outras, obrigando-as a pagar alguns impostos porque praticamente não pagam, nos países onde realizam resultados através das suas redes. Os Estados Unidos, defendendo essas empresas – que são quase todas americanas –, não quer isso e vem fazer uma proposta (e que dá uma força grande por vir dos EUA) que agrada muito à França e à Alemanha, que andam a tentar isso há anos: fazer subir a taxa geral de imposto nos país que as têm mais baixas. Acho que para Portugal vai ser mau.

Porquê?

Temos de ter vantagens competitivas, mas, para isso, temos de as construir, o que demora mais tempo do que baixar a taxa de imposto. Mudar a taxa de imposto é uma coisa que pode feita rapidamente. E para atrair grandes investimentos é através de contratos de investimento, o que é diferente de depender das condições gerais. As pessoas confiam pouco nas condições gerais, principalmente quando olham para um Governo que é apoiado pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda . Acha que alguém no seu juízo perfeito pode achar que vai haver medidas de apoio às empresas? Não vai.

 

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