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O terror que vivem os ativistas expostos pela Câmara de Lisboa

O terror que vivem os ativistas expostos pela Câmara de Lisboa

João Campos Rodrigues 11/06/2021 08:14

“Foi um choque enorme”, debafa Pavel Elizarov, ativista anti-Putin que esteve detido várias vezes em Moscovo e até na Bielorrússia.

Hoje, Pavel Elizarov, um exilado político russo de 35 anos, sente-se mais receoso quando anda pelas ruas de Lisboa.

Junto com duas amigas, este opositor do Presidente Vladimir Putin ousou organizar uma manifestação em Lisboa, em janeiro, exigindo a libertação do seu companheiro Alexei Navalny, com quem chegou a estar preso, antes de fugir da Rússia. Contudo, Elizarov e as amigas acabaram por perceber que os seus dados – nome, morada, número de identificação e de telemóvel – que enviaram à Câmara para avisar do protesto, não foram apenas reenviados para a PSP, Ministério da Administração Interna e autoridades de saúde. Também foram parar às mãos do Estado russo, conhecido por aterrorizar opositores de Putin, mesmo no estrangeiro.

“Foi um choque enorme”, desabafava Elizarov ao i, enquanto Medina acorria a justificar-se perante a imprensa, assegurando que tudo se tratou de um erro “lamentável”. Mas que teve consequências reais, lamenta Elizarov, que como tantos outros opositores russos vive a olhar por cima do ombro, receoso de ser apanhado pelo regime. Ou de que a sua família, que ficou na Rússia, possa sofrer represálias pelo seu ativismo.

“Sempre temi que isso pudesse acontecer, porque quando marcamos uma manifestação apareço como organizador no Facebook. Estou sempre alerta, obviamente”, conta Elizarov.

“E sim, nas manifestações eles aparecem a tirar fotos, sei que com algum esforço me poderiam identificar por aí”, continua. “O que mudou foi que eles obtiveram a minha morada, os números dos meus documentos, o meu contacto de telemóvel. Sinto-me menos seguro”, desabafa Elizarov, que planeia processar a Câmara de Lisboa com os seus companheiros.

 

Terror

Quer a divulgação dos dados dos três ativistas russos tenha sido resultado de Medida ser “cúmplice” de Putin, como acusou o seu rival, Carlos Moedas (ver página 4) ou de um erro grosseiro, é algo que não podia vir em pior altura. Vladimir Putin enfrenta uma onda de contestação sem precedentes, após o envenenamento de Navalny com novichok – um agente nervoso, entre os mais mortíferos existentes, conhecido como o favorito das secretas russas – e a sua detenção quando regressou ao país. E, com o aumento da contestação, escalou a repressão.

Elizarov não é estranho a essa repressão. Cresceu numa Rússia onde o culto de personalidade a Putin se tornava elemento central da sociedade, em que jornais, opositores políticos e até oligarcas – poderosos empresários e mafiosos que compraram antigas empresas nacionalizadas, a preço de saldo, no rescaldo da queda da União Soviética – eram silenciados. E revoltou-se quando estava na faculdade, a estudar Matemática Aplicada e Informática, juntando-se às organizações que Navalny começava a dinamizar.

O preço que Elizarov pagou foi elevado. Viu vários companheiros enfrentar penas de dois, três, até quatro anos de prisão por organizar protestos, sendo ele mesmo alvo de um processo judicial antes de fugir do país.

“Também fui detido várias vezes em Moscovo, mas não fiquei preso mais que duas semanas”, conta o opositor. Em 2005 até foi detido na Bielorrússia, país de Alexander Lukashenko, conhecido como o último ditador da Europa, que enfrenta uma maré de contestação – recentemente, o regime bielorrusso foi ainda mais longe do que o habitual, ao desviar um avião da Ryanair para apanhar um opositor político e a sua namorada, enfurecendo a vizinha UE e os EUA – e que tem em Putin o seu maior aliado.

“Fui detido lá por causa de uma manifestação, juntámo-nos a uns amigos bielorrussos. Fomos presos só quatro dias, mas ali é mais duro que na Rússia”, lembra Elizarov. “Usavam uma espécie de tortura do sono, taparam-me a cabeça com alguma coisa que cheirava muito mal, não dava para dormir. E também estava demasiado frio para dormir, fui deixado lá sem me conseguir mexer para aquecer”, relata. “Foi mesmo duro”.

 

Assassinatos

Quando Elizarov chegou a Portugal, em 2013, conseguindo asilo político no ano seguinte, a sensação foi de alívio. “Quando consegui asilo em Portugal obtive também proteção internacional, por isso sentia-me muito seguro aqui”, explica o ativista. “Sei que Portugal é dos países mais seguros do mundo. Por isso mesmo, quando aconteceram ataques a opositores de Putin em vários países, como o caso do novichok, aqui sentia algum medo, mas muito menos que sentiria noutros países”.

É que não foi apenas Navalny que foi vítima do infame agente nervoso. Durante anos houve um padrão de ataques contra opositores fugidos da Rússia, incluindo a alegada tentativa de homicídio do antigo espião Sergei Skripal e da sua filha, em 2019 – uma garrafa de perfume cheia de novichok usada no crime foi deixada no lixo, onde foi encontrada por um cidadão britânico, Charlie Rowley, que a ofereceu à sua companheira, Dawn Sturgess que acabaria por falecer.

Não se tratou de um caso isolado, de todo, “o Governo russo conduz atividade de repressão transnacional no estrangeiro altamente agressivas”, alertava um relatório recente da Freedom House, que registou pelo menos sete tentativas de homicídio de dissidentes desde 2014. Mas muito mais frequentes são os casos de fabricação de acusações judiciais e abuso de mandatos de captura internacionais, bem como o uso de vigilância sofisticada e hacking.

Face a todos estes riscos, é difícil compreender como foi possível o envio dos dados de três opositores ao Estado russo. “Percebemos por pura sorte que aconteceu isso, e que estava a acontecer antes”, relata Elizarov. Após os ativistas enviarem os seus dados para notificar da manifestação que organizavam em janeiro, em vez de receberem só um email da CML, a acusar receção, como costume, receberam também um email do Departamento de Saúde Pública (DSP). Até aqui, tudo bem, vivia-se o confinamento, não seria possível a manifestação, alertava a agência do ministério de Saúde. Contudo, no topo do email da DSP, junto com o PDF com os dados, vinha a mensagem original da CML recebida pela agência – e entre os remetentes estava a embaixada e o MNE russo.

Elizarov, que já era bem conhecido das autoridades russas, ficou sobretudo preocupado com os seus companheiros e ao perceber que isso também acontecia com opositores de outras ditaduras. Além de que o cerco aos apoiantes de Navalny – “já estive na prisão com ele, por isso é que esta situação me revolta mais, porque é pessoal também, admiro-o pela sua coragem”, conta o ativista – está a apertar.

Aliás, esta semana foi proibida a sua organização política, considerada “extremista” pela justiça russa. “Qualquer pessoa envolvida, que enviou um donativo, sei lá, de cinco euros, pode ser considerado criminoso, financiador de extremistas”, diz Elizarov. “É ridículo”.

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