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Portugal-Israel. A Maldição dos Rabinos até destruiu o nariz de Júlio

Portugal-Israel. A Maldição dos Rabinos até destruiu o nariz de Júlio

DR Afonso de Melo 09/06/2021 18:50

Hoje, em Alvalade, pelas 19h45, a seleção nacional defronta os israelitas pela sétima vez. Adversários pelos quais já se viu goleada por 1-4 nas eliminatórias para o Mundial-82.

Como dizia Iva Delgado, a memória nunca prescreve. E não a minha, certamente. Quando se fala em Portugal jogar contra Israel, tal como sucede hoje, em Alvalade, na última partida de preparação antes do início do Euro-21 que deveria ter sido Euro-20, lembro-me do Júlio. Júlio Castro da Costa Augusto, nascido no Porto no dia 26 de março de 1953, o veloz avançado do Boavista de 1979 a 1981, antes de se transferir para o FC Porto.

Estava destinado que o Júlio fosse internacional em 17 de dezembro de 1980. Inequívoca a sua boa forma, não o suficiente para tirar Jordão e Nené da titularidade de uma equipa de Portugal que defrontava pela primeira vez Israel, num jogo da fase de grupos de apuramento para o Mundial da vizinha Espanha em 1982, mas capaz de ser chamado pelo selecionador, Juca, à frente de Manuel Fernandes, na altura da substituição de um dos médios. O que aconteceu em seguida, vi com olhos de ver, mesmo à minha frente, a poucos metros de distância. Portugal ganhava por 3-0, com dois golos de Humberto Coelho e um de Jordão, a vitória estava mais do que garantida, Júlio andava para trás e para a frente naquelas acelerações de aquecimento habituais, iria vestir a camisola dos cinco escudos azuis pela primeira vez na sua carreira. A alegria, imagina-se, era enorme. De repente, sem que ninguém viesse a perceber verdadeiramente o motivo, o preparador físico da seleção levantou-se do banco e saiu disparado atrás dele. Mas Júlio cumprira o seu último sprint, estava na hora de regressar ao meio do terreno. Faltavam cinco minutos para que o árbitro Enzo Barbaresco desse por finalizado o confronto, Carlos Manuel já caminhava para a linha lateral. Quando Júlio se virou, de repente, bateu de frente com José Falcão, o responsável pelo treino físico de Portugal. Os óculos de Falcão ficaram estilhaçados, o nariz de Júlio jorrava sangue como uma fonte. Teve de ser imediatamente suturado com pontos. Manuel Fernandes entrou para o lugar de Carlos Manuel, Júlio ficou a braços com os enfermeiros, quis o Destino que nunca viesse a ser internacional ao longo da sua carreira. Uma maldição israelita marcou-lhe a vida...

Desgraças Até hoje, Portugal e Israel enfrentaram-se seis vezes. Dois dos jogos foram particulares, como é o de hoje – vitórias lusitanas (2-0 em 1998 e 2-1 em 2000). Dois outros contaram para a fase de apuramento do Campeonato do Mundo de 2014, no Brasil, e não se foi além de dois empates, 3-3 em Israel e 1-1 em Portugal. Sobra, portanto, o jogo das desgraças – dia 28 de outubro de 1981.

Num grupo que contava igualmente com a Escócia e a Irlanda do Norte além da Suécia, Portugal deslocou-se ao Estádio de Ramat Gan, em Tel-Aviv, um bocado com a corda na garganta – Escócia e Irlanda do Norte seriam os dois qualificados para a fase final do Mundial espanhol.

Juca resolveu povoar o meio do campo. E Portugal alinhou desta forma: Amaral; Gabriel, Eurico Gomes, Humberto Coelho e Adelino Teixeira; Romeu, Rodolfo, Sousa e Freire; Jordão e Manuel Fernandes.

O jogo tornou-se louco bem cedo e foi enlouquecendo cada vez mais com o decorrer dos minutos. Aos 6 minutos, um avançado de nome Beni Tabak, do Maccabi de Tel Aviv e que só vestiu a camisola do seu país por oito vezes, abriu o marcador e deixou os portugueses muito, mas muito atrapalhados. Dois minutos mais tarde, Rui Jordão, no seu estilo felino, empata a contenda e tudo regressava à primeira forma. O público vibrava de forma fanática, o estádio transformou-se num vulcão branco e azul de bandeirinhas e gritos histéricos que rasgavam gargantas e destruíam cordas vocais. Nos últimos 20 anos, Israel limitara-se a uma vitória contra uma seleção da Europa – 2-1 ao Chipre, em 1960. Bater os portugueses era um feito muito para além do imaginável. E, no entanto, eram tantas as fragilidades da seleção nacional que a goleada ganhou foros de inevitável.

O meio-campo que Juca fez entrar no relvado de Tel-Aviv decididamente não se entendia e criava um verdadeiro corredor para a rapidez de homens como Damti, Cohen e Gariani. Aos 14 minutos, o capitão Damti fez 2-1; quatro minutos mais tarde, Tabak voltou a marcar – 3-1. Até ao intervalo, mais um golo, outro do endiabrado Tabak, sobre a meia-hora.

Portugal era um destroço. Tentava tapar os buracos que iam surgindo por toda a parte da sua defesa, o sonho de ir a Espanha estava desfeito, restava lutar pela dignidade de não sofrer uma derrota copiosa e procurar não ser o último qualificado do grupo.

Ao intervalo, Juca trocou Freire por Nené e Humberto Coelho, ressentido de uma lesão, por Dito. De pouco serviu. Durante alguns minutos, pairou a sensação de que algo viria a acontecer de positivo para a seleção nacional. Nené chutou colocado, mas a bola foi rechaçada por um dos postes, Jordão sofreu um penálti mas tratou de o desperdiçar logo em seguida. O resultado não teria alterações.

Mais uma vez, como tantas outras ao longo da sua história, a equipa de Portugal falhava a qualificação para uma fase final e dava uma imagem muito, mas muito pobre das suas capacidades. Nos dias que se seguiram, as opções do técnico foram bombardeadas a tiros de zagalote, procurando-se justificações para as não convocações de Oliveira e de Costa, por exemplo. O fracasso continuava a acompanhar a equipa nacional fosse para onde fosse e as oportunidades escapavam-se-nos por entre os dedos. Não passávamos de uma deprimente mediocridade...

 

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