15/6/21
 
 
Afonso de Melo 08/06/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

A prosa do nove

Passei décadas a fio a jogar futebol aqui e ali, desde o pelado de Benavente aos relvados dos Olivais por entre prédios (na terra rija dos Caveirinhas) e aos campos dos clubes todos do país de norte a sul com uma equipa de A Bola que contava sempre com reforços, desde o Eusébio ao Humberto Coelho, do Toni ao Romeu, do Chalana ao Shéu e ao Manuel Fernandes e, até, ao Jordão. 

No meio dessa espécie de loja de bricabraque que é o meu quarto de adolescente em casa dos meus pais, nos Olivais-Sul, encontrei um pedaço de pano vermelho esmaecido em forma de número nove. Bem, podia ser em forma de número 6, se o virarmos do avesso, mas é mesmo o nove, o meu primeiro nove, cosido pela minha mãe numa camisola de ginástica branca que era a camisola do nosso clube, em Benavente, que se batia bravamente no pelado do Campo da Feira.

Sempre tive um fascínio pelo nove. E pelo onze. Na altura de comprarmos os números na retrosaria Castella, houve que fazer contas: o 11 e o 10 ficavam mais caros – eram dois algarismos em vez de um. O assunto resolveu-se. Estive vai não vai para escolher o 11, gosto daqueles dois 1 par a par, tão simétricos.

O 10 tinha dono: era do Rechena. Nunca tinha visto alguém fazer com uma bola aquilo que o Rechena fazia. Quer dizer, tinha visto mas na televisão. Estávamos no início dos anos-70 e ainda havia Pelé. Por mim, que me deixava consolar pelas fintas do Rechena, o 9 é que batia certo. Até hoje. Eu só queria tocar uma vez na bola – a última, a do golo. Os outros que ficassem com as fintas. As que aprendi, e que imitava bem, como a do elástico do Rivelino, a fingir que vai e não vai e depois vai mesmo, retirei-a solenemente do reportório. Substituí-a pelos pontapés de bicicleta e de moinho. Truques de um toque só que embelezavam o golo.

Passei décadas a fio a jogar futebol aqui e ali, desde o pelado de Benavente aos relvados dos Olivais por entre prédios (na terra rija dos Caveirinhas) e aos campos dos clubes todos do país de norte a sul com uma equipa de A Bola que contava sempre com reforços, desde o Eusébio ao Humberto Coelho, do Toni ao Romeu, do Chalana ao Shéu e ao Manuel Fernandes e, até, ao Jordão. Fiquei com o 9. Vendo bem, também ninguém queria o 9. O 10 deve ter qualquer chamado íntimo que faz parte da poesia do jogo. Mas o 9 era a prosa. E eu só sabia jogar em prosa.


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