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Ar numa lata, esculturas que não existem (fisicamente)... A arte é um estado de espírito?

Ar numa lata, esculturas que não existem (fisicamente)... A arte é um estado de espírito?

Redação 07/06/2021 19:31

A relação entre a arte e os materiais é inquebrável. Mas os séculos XX e XXI trouxeram uma nova visão: o nada, o lixo e até o ar. Desde estátuas que existem só na cabeça do artista, e que valem 18 mil dólares, até latas de ar, molduras vazias e minutos de silêncio a que chamam de obra musical. Afinal, a arte é um objeto físico ou uma ideia e o seu efeito nas pessoas?

Io sono - Salvatore Garau

Intitulado Io Sono (‘Eu Sou’), uma escultura do italiano Salvatore Garau começou a licitação em 6 mil dólares e acabou vendida pela suma de 18 mil. Peculiaridade: a obra só existe na cabeça do artista. Fisicamente, a única coisa que está no sítio é um quadrado de 150x150cm vazio. “O vazio nada mais é do que um espaço cheio de energia. [...] Portanto, tem uma energia que se condensa e se transforma em partículas, isto é, em nós”, explicou Garau.

Ar de Paris - Marcel Duchamp

Se Salvatore Garau brincou com o vazio, e mesmo com o peso, e o ar, as experiências neste campos não são novidade. No início do século XX, Marcel Duchamp, o primeiro a afirmar através das suas obras que em arte vale tudo, “captou”o ar de Paris numa ampola de soro fisiológico vazia, e ofereceu-a ao seu amigo e mentor Walter Arensberg. A obra acabaria por entrar para os anais da arte moderna: nada mais do que ar e uma ampola vazia representam, com ironia, a inspiração e a criatividade que efervescia na capital francesa durante os primeiros anos do século.

4’33” - John Cage 

Na década de 1950, John Cage compôs aquela que é, até hoje, uma das obras mais simbólicas da arte moderna. 4’33” é não mais do que uma composição original despojada de qualquer nota musical. São 4 minutos e 33 segundos de silêncio... por parte dos músicos. Tosse, pés a mexer, espectadores a agitarem-se nas cadeiras e outros sons naturais formam a obra.

Museu de Arte Não-visível

Se o vazio e o ar foram alvo de estudo por vários artistas, o Museu de Arte Não-visível é o apogeu deste tipo de expressão artística. Dentro das suas quatro paredes, das obras só existem as descrições, deixando aos espectadores a tarefa de imaginar e criar as imagens nas suas próprias mentes. “Este mundo não é visível, mas existe, tão certo quanto o próprio pensamento existir”, pode ler-se no manifesto do Museu, localizado em Nova Iorque.

Girl with Balloon - Banksy

Se o ar e o vazio são os elementos de estudo das obras de arte em questão neste artigo, a sua efemeridade é o ponto central. E o Girl with Balloon do artista de rua Banksy foi o perfeito exemplo dessa realidade. A seguir a ter sido vendido num leilão da Sotheby’s por um milhão de libras, o quadro autodestruiu-se. Um gesto simbólico de protesto do artista contra a mercantilização da arte de rua, e um momento em que a obra deixou de existir no seu formato físico e passou a viver unicamente nas memórias dos espectadores.

Erwin Wurm

O artista plástico Erwin Warm é o autor de uma série de “esculturas performativas”: obras em que o próprio artista se colocou em diferentes posições, durante determinados períodos de tempo, ou em que convidava os espetadores a interagir com  a obra, com diferentes poses. É mais um caso de uma obra de arte que, simultaneamente, é criada e destruída. Assim que os participantes saíam da posição de estátua, a obra deixava de existir, ficando apenas o registo fotográfico.

New York City Garbage - Justin Gignac

Se a arte pode ser feita do vazio e do ar, também pode ser feita de qualquer coisa a que lhe seja atribuído valor estético. Justin Gignac passou a recolher o lixo da cidade de Nova Iorque,que depois colocou em pequenas caixas transparentes, vendendo cada uma a 50 dólares.

Wittgenstein - Martin Kippenberger

Em 1987, Martin Kippenberger lançou uma peça que nada mais é que um armário cinzento, de madeira e metal, provavelmente do Ikea, medindo exatamente dois metros de altura e desprovido de qualquer outro conteúdo. A obra chama-se Wittgenstein, e está incluída no catálogo “Peter”, junto de outros objetos aparentemente banais como mesas e cadeiras. Ainda assim, é inevitável o espectador convocar os livros do filósofo ou outros objetos que lhe ocorram, preenchendo mentalmente o espaço vazio da estante.

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