15/6/21
 
 
Carlos Pinto 07/06/2021
Carlos Pinto

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Portugal segue dentro de momentos

Onde ficarão mais bem aplicados os 45 mil milhões de Bruxelas? Será no estímulo ao setor privado ou na “subsidiação para compra de votos”?

Por Carlos Pinto, Jurista

1. Portugal produz têxteis para o mundo com grande sucesso. 

De algodão, lã, sintéticos, têxteis/vestuário, têxteis/lar, têxteis técnicos, têxteis/automóvel.
Produz sapatos, azeite e cortiça, vinho, papel, móveis de madeira para o mundo, com grande sucesso. 
Portugal acolhe turistas de todo o mundo numa rede empresarial de infra-estruturas hoteleiras de excelência. 
Natureza do capital em 99,9% das empresas: privado. 

2. Portugal constrói casas, pavilhões, estradas, grandes bairros e infraestruturas para o país e para o mundo com grande sucesso, produz autocarros, pórticos, grandes obras metalúrgicas, barcos de turismo e de transporte de passageiros, o país está dotado de grandes empresas de transporte rodoviário com sucesso indesmentível. Temos uma produção agrícola de auto-abastecimento que também exportamos para o mundo, o país produz automóveis em Palmela e Maia.

Portugal tem uma rede de lojas, mercados e supermercados, de abastecimento público e de uma modernidade excepcional que, mesmo em situação pandémica, fez chegar tudo a todo o lado. Portugal tem uma rede de farmácias que em qualquer lugar e para qualquer solicitação medicamentosa, na generalidade, é eficiente e capaz.

Temos hospitais privados com serviços de grande qualidade para os clientes do país e do mundo. Portugal tem bancos que não custam um euro aos contribuintes. Natureza do capital em 99,9% das empresas: privado. 

3. Portugal tem bancos privados que, mal geridos e por não falirem, custam muito dinheiro aos contribuintes. 
Portugal tem um banco público que, quando ciclicamente mal gerido e por não poder falir, na regeneração custa sempre um balúrdio aos contribuintes.

4. Portugal tem uma companhia pública de aviação insolvente (agora-o-último-brinquedo nas-mãos-de-um-ministro-em-exorcização-empresarial), uma companhia pública de comboios mais duas companhias públicas de Metro, mais duas companhias públicas de transportes em Lisboa e Porto, meia dúzia de portos de mar, tudo navegando em mares de insolvência averiguada.

Portugal tem uma estação de televisão, a RTP, que custa um milhão de euros por dia em tributos do Estado, isto é, mesmo dos cidadãos que a não consomem... E Portugal tem 750 mil funcionários públicos na Administração Central, Regional e Local, em funções de soberania, justiça, saúde, educação, genericamente mal pagos mas com vínculos laborais para a eternidade, quando poderiam assentar em objectivos de maior produtividade e melhor remuneração.

5. Perante este quadro, os planos governamentais que hão-de levar à aplicação dos 45 mil milhões de Bruxelas que contemplaram Portugal, onde ficarão naturalmente mais bem aplicados para um salto qualitativo na economia da realidade e não dos sonhos ideológicos de responsáveis do nosso atraso, nos últimos 19 dos 25 anos passados? 

Será nos têxteis e calçado, na exploração de petróleo on e off shore, na construção de casas a preços módicos, na descoberta de novos gadgets tipo Magalhães, no TGV de carril de bitola portuguesa? Ou na “subsidiação para compra de votos” com mil artes e indecências de vulgares capatazes espalhados pela sede do partido do governo?

6. Com a singeleza do que se escreve, percebe-se que num tempo crucial para nos posicionarmos como país que ainda queira dar cartas no mundo, os milhões aplicados pelo Estado até hoje não se permitiram tirar o país do destino dos últimos anos de PIB abaixo da média europeia.

Não por causa da produção de bens para exportar, mas em experimentalismo saídos das cabeças de quem vê os recursos financeiros como factor desligado do domínio dos mercados, do trabalho e da reprodutividade, da competição a que só as empresas privadas podem oferecer retorno, em cadeias de mais investimento e mais retorno, outra vez… E por aí...

Dito isto, percebe-se que o problema do país é o poder latu sensu: de quem também na oposição se apresenta sem opções marcadamente diferentes do governo minoritário. O pior de dois mundos que deviam ser diferentes coincidiu na política nacional, para uma coisa diabólica de impasse absoluto, numa perspectiva histórica: 

a) as opções de A. Costa são causa do impasse nacional (vide situação económica nacional); 

b) a falta de um líder do PSD com uma visão oposta à de A. Costa é uma outra face do mesmo impasse nacional. 

Donde, não é dinheiro que falta, é política e coragem que não existe num dos pilares do sistema, que não percebe o que originou as marcas diferenciadoras na sociedade portuguesa de Francisco Sá-Carneiro, Aníbal Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho. A ausência de alguém que quisesse entrar na vida política nacional por este lado da história constitui o maior problema da política actual. O Portugal do salário mínimo curto, do crescimento económico raquítico, exportador de mão de obra, segue então dentro de momentos. 


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