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Espanha-Portugal. O crime e o castigo de Zabala Arrondo

Espanha-Portugal. O crime e o castigo de Zabala Arrondo

Afonso de Melo 04/06/2021 18:00

98 anos depois, Sevilha volta a receber um jogo entre os dois rivais ibéricos: o primeiro terminou com a derrota portuguesa por 0-3.

Sevilha – era o terceiro jogo da seleção nacional. Sem outro adversário que servisse para testar as suas qualidades, a seleção portuguesa tinha nestes encontros anuais frente à Espanha o seu grande momento. Em 1923, o jogo foi aprazado para o dia 16 de dezembro. Também ganhava foros de hábito jogar em dezembro.

Como de costume, em Portugal o entusiasmo foi transbordante. Reconhecia-se, claro!, o favoritismo aos espanhóis, mas salientavam-se os progressos feitos e a qualidade dos jogadores lusos, do guarda-redes Francisco Vieira, do Benfica, ao avançado-centro Balbino, do FC Porto, passando pelo interior-direito Alberto Augusto, do Benfica – o homem que ficaria para a história do futebol português por ter sido o primeiro marcador de um golo pela seleção (na estreia absoluta da Equipa-de-Todos-Nós como lhe chamou Ricardo Ornellas, em dezembro de 1921) e que, depois de Sevilha, não voltaria a ser internacional – , e pelo ponta-esquerda Alberto Rio, do Belenenses.

Mas a derrota foi nítida e frustrante: 0-3. Zabala, de seu nome completo José Luis Zabala Arrondo, jogador do Real Union, que tivera a sua primeira internacionalização frente à França, em janeiro desse ano, foi o grande carrasco de Portugal com um “hat-trick” demolidor. Nunca mais voltaria a envergar a camisola vermelha da Fúria, como era conhecida a seleção espanhola, mas também nunca lhe poderão negar o lugar na história de ter sido o primeiro jogador a fazer três golos num jogo da Espanha. Parecia sofrer o castigo do crime dos golos.

O jogo português foi fraco e o dos espanhóis brilhante. Em Lisboa, as pessoas juntavam-se em redor dos “placards” montados pelos jornais diários que tinham enviados-especiais em Sevilha para seguirem a passo e passo as peripécias da partida enviadas desde Espanha por telegrama. No Rossio, sobretudo. Mas o futebol atingira um estatuto que já dava direito a que os mesmos telegramas fossem lidos nos ecrãs do Cinema Condes, do Chiado Terrasse, do Salão Foz ou do Cine Casino, na Amadora.

O grande Zamora! As exibições do grande Zamora, do gigante Samitier, do terrível Paulino Alcantara, interior- esquerdo do Barcelona nascido em Illo-Illo, nas Filipinas, tido como o “avançado mais perigoso de toda a Espanha”, e de Del Campo, avançado-centro do Real Madrid, foram comentadas pelos cafés de Lisboa e do Porto como se o jogo tivesse sido visto “in loco”.

O árbitro belga, Rutz, foi duramente acusado de parcial, mas nos dias que se seguiram à derrota a viagem atribulada entre Lisboa e Sevilha foi escalpelizada e percebeu-se a dimensão da desorganização existente na seleção.

O desequilíbrio de opiniões entre os componentes do Comité de Seleção era manifesto e contribuiu decisivamente para o caos da equipa sobre o relvado. A ausência do capitão Vítor Gonçalves (viria a ser pai de Vasco Gonçalves, que chegou a 1.º ministro), que viajou mas não jogou, serviu igualmente para aumentar a desconfiança entre os jogadores. Na manhã do jogo ainda ninguém sabia ao certo qual o onze que entraria em campo. O desentendimento entre Ribeiro dos Reis e Vergílio Paula, por um lado, e Pedro Del Negro, o representante da União Portuguesa de Futebol (UPF - a Federação Portuguesa de Futebol ainda não tinha sido fundada), por outro, era manifesto. Na base da polémica, o lugar de avançado-centro e mais uma batalha norte/sul. Os técnicos apostavam no jovem setubalense João dos Santos, o dirigente no portista José Balbino. Balbino teria a sua oportunidade. Jogou em Sevilha o seu único encontro com a camisola das quinas. As divergências tornaram-se insanáveis. E as feridas profundas.

Mais uma vez ficávamos com o amargor na boca de uma derrota contra os nossos vizinhos do lado. Hoje, pelas 18h30, Sevillha volta a receber um Espanha-Portugal, 98 anos após o primeiro. Tudo mudou entretanto. Menos a nossa habitual dificuldade de vencer “nuestros hermanos”.

 

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