15/6/21
 
 
Afonso de Melo 04/06/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Olhe, desculpe, onde fica Portugal?

Mais vacina menos vacina, a doença matou-nos a todos um pouco. Ficámos mais tristes, mais melancólicos, menos crentes, sem vontade de nos atirarmos de cabeça para os projetos que se soltavam aos borbotões de diálogos infinitos. Há um poema que fica por escrever, há um livro que fica por terminar, há um vento maligno que nos empurra para a desistência e não há quem erga a voz para nos dizer - temos um país inteiro para construir.

A pouco e Pouco, Mesmo a pouco muito pouco, parece que o Bairro Alto vai recuperando a vida que lhe tiraram desde que, de forma bárbara, assassinaram todo o comércio que por aqui havia, quase todo ele baseado em bares e restaurantes.

No Calcutá, que é o meu pedaço de Índia em Lisboa, o Hiren volta a reconhecer as caras que regressam ao fim de um ano. Não as nossas. Temo-nos mantido o mais fiéis possível, entre mim e o Bernardo Trindade, o Horatiu, o Nuno Miguel Guedes, o Nuno Dias e o João Paulo Cotrim, mesmo quando não era possível mais nada do que só para conversar e prever o um futuro cada vez mais triste. E ele já era triste, mesmo antes desta maleita que tomou conta do mundo como um fedor, um cheiro pestilento pelas esquinas da cidade que ainda há meses estava morta, um cadáver de lesma fétida que se escapa à beira Atlântico com o nome desacreditado de Portugal, como dizia o divino Eça.

Voltaremos a viver como dantes? Eis uma pergunta para a qual devem existir milhares de respostas e nenhuma certa. Continuam a faltar caras habituais, quotidianas, aqueles que passavam apenas para uma cerveja rápida porque sabiam que nos encontravam sempre ali, nesse lugar da Rua do Norte onde só passa o vento sul. Continuamos até a faltar nós mesmos que já não somos iguais ao que éramos.

Mais vacina menos vacina, a doença matou-nos a todos um pouco. Ficámos mais tristes, mais melancólicos, menos crentes, sem vontade de nos atirarmos de cabeça para os projetos que se soltavam aos borbotões de diálogos infinitos. Há um poema que fica por escrever, há um livro que fica por terminar, há um vento maligno que nos empurra para a desistência e não há quem erga a voz para nos dizer - temos um país inteiro para construir!

Portugal precisa de ser feito e nós não o fazemos, dizia o poeta do peito enfunado contra as correntes e as intempéries que nos afastam do Bojador. Limitamo-nos a perguntar, como indigentes que pedem um cigarro: desculpe, por favor, onde fica Portugal?


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