31/7/21
 
 
Carlos Carreiras 02/06/2021
Carlos Carreiras

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Mel que adoça a boca de António Costa

O Mel fez mais pelo primeiro-ministro do que dezenas de inflamados discursos socialistas. Muito mais que as sucessivas inaptidões de vários governantes.

Chamam-lhe encontro das direitas. Ou convenção do Mel – Movimento Europa e Liberdade.

Tirando o autocomprazimento da bolha tertuliana da capital, esta é daquelas coisas que tem uma importância relativa, normalmente inversa à sua cobertura mediática. E que, sem surpresa, o país ignora olimpicamente. Todavia, cá estou eu a elaborar sobre o Mel. Ou melhor, não tanto sobre ele e mais sobre a realidade política destapada pelo autoproclamado conclave das direitas. Paradoxalmente, temos de julgar o Mel como a mesma benevolência com que olhamos para o socialismo: vale mesmo só pelas boas intenções, já que os resultados são um fracasso. Estes são alguns dos males do Mel.

O mal da gula. Orientado por uma carta de princípios bem-intencionados e pertinentes, como exercício intelectual o fórum tem sido interessante ao longo dos últimos três anos. Parabéns aos promotores. O problema foi o Mel ter dado um passo maior do que a perna. Ao ter a ambição, mais ou menos confessada, de se assumir como proto-convenção política federativa das “direitas”, o Mel insuflou tanto as expectativas que o resultado só poderia redundar em fracasso. Essa proposta política, ainda que possa ser considerada benigna em abstrato, é digna de um mundo que é governado por anjos – e não por políticos. Uma ingenuidade que se paga caro.

O mal da historicidade. A visão que funda o Mel é uma com a qual discordo frontalmente. A de que a nossa vida coletiva é definida ao longo dos eixos direita vs esquerda, na liberdade vs igualdade ou no confronto estado vs capital. Essa é uma verdade contingente. Não é a realidade do tempo presente – embora reconheça que há grupos politicamente mais radicalizados e mobilizados do que nunca, sobretudo mas questões da raça ou género. Para o eleitor comum, para o grosso da coluna dos cidadãos, o fenómeno político é avaliado em termos de soluções para problemas, melhoria da qualidade de vida e progresso nos rendimentos. Isso transcende largamente as definições ideológicas binárias. Outro erro é o preconceito sobre o Estado e a apologia do privado. A crise pandémica sublinhou a indispensabilidade do Estado. Tal como indispensável é o setor privado como motor de criação de riqueza e prosperidade. O mundo caminha, inexoravelmente, para um maior aprofundamento das parcerias entre público e privado. Todo o antagonismo é estéril e autodestrutivo.

O mal da oportunidade. Acresce em cima da ingenuidade o problema da oportunidade. O bloco do centro-direita não é uma família feliz. Os partidos do centro direita e da direita, hoje, todos juntos, valem tanto como o PS sozinho. Isso é muito revelador de duas realidades que se alimentam num ciclo de reciprocidade sem fim à vista: a deriva hegemónica do poder socialista, sedimentada no apoio da extrema-esquerda comunista e bloquista, por um lado; a ausência de afirmação de um programa, de uma alternativa e de uma liderança mobilizadora no espaço do centro e centro-direita, por outro.

As pessoas importam para a criação de dinâmicas federadoras. E a realidade é que as lideranças dos partidos do bloco não socialista têm pouca afinidade, pouca química, pouca admiração mútua.

Os protagonistas não partilham da mesma visão do mundo, de sociedade ou, tão pouco, da mesma cultura política. Isso emerge frequentemente quando a berraria substitui o diálogo; quando as propostas são julgadas pela capacidade de chocar e não pelo que ousam mudar; ou quando a procura de consenso é lida como sinal de fraqueza ou abdicação.

Quando se constrói um projeto político comum, a dimensão pessoal importa. Sá Carneiro com Adelino Amaro da Costa e Passos Coelho com Paulo Portas são apenas dois exemplos de como as figuras políticas são decisivas para a construção de um projeto comum. Essa afinidade, essa ‘gravitas’ individual, não existe nos nossos dias – para mais num espaço ideológico muito mais dilacerado e competitivo do que no passado.

Ao juntar a pouco feliz e pouco funcional família das direitas, o Mel salgou a ferida aos olhos dos portugueses. Um erro de palmatória no qual os partidos da ‘‘geringonça’’ nunca se deixariam apanhar. Honra lhes seja feita: em matéria pragmatismo na preservação do poder, ainda está para nascer quem à sua direita lhes faça sombra.

O mal da vacuidade. Eufemisticamente, o desfile dos partidos foi mauzinho – e não só pela razão acima exposta. Para além do combate ao PS, que é absolutamente necessário aos portugueses e à democracia, não saiu daquele conclave uma única ideia para Portugal, uma única ideia capaz de mobilizar o eleitorado. Qual é a ideia do centro direita para a reorganização do Estado? Qual é a visão, a estratégia e o plano do centro direita para os dinheiros de Bruxelas que, pelo que vamos sabendo, o mais certo é irem aterrar nos bolsos dos mesmos de sempre? Como é que pomos o país a crescer sustentadamente na próxima década e criamos riqueza para as famílias portuguesas? Qual é a nossa ideia de revolução digital e como lidamos com ela ao nível da qualificação dos cidadãos e da modernização das empresas? Como é que vamos incrementar os índices de sucesso do ensino, a começar na escola pública? Como reconstruiremos o país no pós-pandemia? Como contrariar o inverno demográfico e reconstruir o edifício da segurança social para que todos os portugueses que hoje descontam tenham direito a uma reforma?

As perguntas que importam às famílias e às empresas ficaram todas sem resposta. E agora pergunto eu: como é que partidos sem agenda, sem fatores de mobilização, sem uma visão, podem sequer ambicionar a conquistar o eleitorado?

A um Governo desgastado, a um país sem rumo, a uma sociedade desesperada pelos euros de Bruxelas, o bloco da direita responde com um enorme nada.

Em resumo: o Mel fez mais pelo primeiro-ministro do que dezenas de inflamados discursos socialistas. Muito mais que as sucessivas inaptidões de vários governantes.

Com oposição comos aquela que desfilou no Mel, todas as debilidades de António Costa brilham como qualidades.

Presidente da Câmara Municipal de Cascais

Escreve à quarta-feira

 

 


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