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Por Este Rio Abaixo. Os novos fados e destinos de Pedro Mafama

Por Este Rio Abaixo. Os novos fados e destinos de Pedro Mafama

Miguel Silva Hugo Geada 28/05/2021 11:17

O disco de estreia de Pedro Mafama, Por Este Rio Abaixo, vira a música tradicional portuguesa e o fado de pernas para o ar, através da fusão de estilos mais contemporâneos, como o hip-hop ou o trap, que permite ao músico abordar problemáticas de cariz pessoal e social.

A mãe de Pedro Mafama disse-lhe, um dia, que ele podia ser quem quisesse. Por isso, ele escolheu ser ele próprio. Misturando os universos que sempre o rodearam, do fado ao hip-hop, da música tradicional portuguesa ao kizomba, Mafama criou uma das linguagens musicais mais singulares e honestas da música portuguesa. Editado esta sexta-feira, Por Este Rio Abaixo, o seu disco de estreia (cujo título homenageia Fausto), é uma das misturas mais orgânicas entre estas diferentes gerações musicais portuguesas - ao desconstruir algumas ideias pré-definidas de como deveria soar o fado ou os temas que deveria abordar, acaba por fazer os seus “novos fados” mais atuais do que nunca. E pretende, nas palavras do músico, que conversou com o i numa bela manhã em Alfama, “criar pontes entre mundos que as pessoas pensam que são distantes”.

“Quero unir, reconciliar e criar ligações e não criar muros causados pela estranheza e pelo choque. Não quero chocar, quero fazer perceber, quero mostrar coisas novas que façam sentido”, diz-nos Pedro Mafama, que vai apresentar o seu disco de estreia no dia 16 de julho, às 21h, no Lux Frágil, em Lisboa.

 

Para os mais desatentos, se calhar Pedro Mafama vai ser um nome caído do céu, mas tem partilhado música regularmente desde 2017. Porquê só lançar agora um álbum de longa duração?

Estava à procura da minha maturidade e de concretizar a ideia musical que tinha em mente. Na altura, fazia mais sentido lançar uma música de cada vez porque ainda estava a experimentar, a conhecer melhor a minha voz e aquilo que queria dizer. Quando encontrei isto decidi apresentar este projeto.

Algo que é possível ouvir ao longo dos lançamentos da sua carreira é a adoção cada vez maior de sons, símbolos e referências da portugalidade. Isto foi um processo de reconciliação e descoberta da música portuguesa?

Sim, mas a reconciliação começou há algum tempo atrás, no final da minha adolescência, quando comecei a pesquisar mais a fundo a nossa cultura, como a origem africana do fado, as nossas raízes árabes e mouras. Comecei a descobrir coisas na nossa cultura e história que me despertaram um grande interesse e uma vontade de investigar ainda mais, em oposição à cultura anglo-saxónica com que eu cresci. 

As suas primeiras músicas, por exemplo a ‘Como Assim’, tinham um som um bocado mais americanizado.

O ‘Como Assim’ é uma música muito lisboeta. Brinca muito sons como o kuduro e o baile funk. É uma mistura de música de dança de Lisboa que me inspira, mesmo que alguns desses estilos não sejam naturais da cidade, tem uma grande força aqui, e o que queria misturar era muito claramente elementos de rap e do trap com kuduro e baile funk. Ainda não estava tão interessado nas melodias e na canção portuguesa. Estava mais focado na batida lisboeta.

Sente que se tivesse crescido noutra cidade tinha conseguido fazer um álbum como este?

Acredito que sim. Algo que me dá muito prazer é ver outras cidades a começarem a descobrir-se a si mesmas. Se não fosse de Lisboa, se calhar ia existir um elemento de batida africana ou afroportuguesa que não ia estar tão presente no disco, mas a ideia de revisitar as nossas origens e tradições e trazê-las para os tempos modernos ia continuar. Se fosse de Olhão, de Aveiro, de Guimarães ou do Porto ia continuar a ser um disco interessante de se fazer.

Por Este Rio Abaixo é uma referência ao disco Por Este Rio Acima de Fausto. Porquê homenagear este em específico?

Quando comecei este projeto de revisitar a cultura portuguesa, de querer pegar na tradição musical popular, e comecei a fazer aquilo que estou a concretizar com este disco, esse foi sempre o álbum de referência que me mostravam. Pode não ser um álbum que me tenha acompanhado desde sempre, mas escolhi-o porque é a obra-prima da música popular portuguesa. Acho engraçado estar a homenagear esta obra, mas ao mesmo tempo dar-lhe um encontrão e dizer: “Ok Fausto, tu vais pelo rio acima, respeito máximo, mas eu vou por este rio abaixo” (risos). É uma homenagem enquanto, ao mesmo tempo, estou a seguir uma direção própria, algo que acho ser muito bonito. 

É o nome perfeito para um disco onde se faz a completa desconstrução da música tradicional.

Gosto do facto de estar a homenagear, reinterpretar, revisitar e repensar a tradição portuguesa, enquanto uso o auto-tune em todo o disco, uma coisa que pode provocar incómodo num contexto mais tradicional. 

Sim, acredito que possa incomodar alguns puristas do fado. 

Sem dúvida, acredito que vá incomodar puristas e guardiões, mas também que vá estimular o pensamento e a criatividade de muitas pessoas.

Sente que o facto de existirem músicos, como o Conan Osíris ou o David Bruno, que souberam reimaginar a música popular portuguesa, motivou o lançamento deste disco?

Na verdade, surgimos mais ou menos todos ao mesmo tempo. Quando o Conan apareceu, eu já tinha feito a música ‘Jazigo’, que também coincidiu com o ano em que o David lançou o ‘Último Tango em Mafamude’. Isto aconteceu tudo ao mesmo tempo por causa de um contexto que vale a pena ser pensado, o porquê de tanta gente agora decidir abraçar esta portugalidade. Suponho que houve uma necessidade de reivindicar a nossa tradição e de reinterpretá-la, visto que todos crescemos um bocado submersos na cultura anglo-saxónica e chegámos à conclusão que precisamos de nos reencontrar. Entretanto, estou muito feliz porque não é apenas uma ou duas pessoas que trabalham este conceito, mas existe uma grande quantidade de novos artistas que o fazem. Há muito que sonhava com um panorama que emergisse da nossa cultura e que tivesse alguma coisa para dizer, algo que está a acontecer com a nossa geração.

Tem falado muito sobre esta nova realidade, os “novos fados”. Acha que este novo estilo musical tem potencial para florescer não só em Lisboa, mas também no resto do país?

Quando comecei a lançar músicas como Pedro Mafama utilizava esse chavão. Interessava-me chamar “novos fados” a músicas como o ‘Como Assim’, que utiliza uma batida lisboeta, porque é uma contradição total, e também por significar “novos destinos” ou “novos caminhos”. Atualmente, prefiro dar liberdade a todas as pessoas que estão a trabalhar neste sentido. É importante não dar nomes às coisas para que possam crescer livremente.

Acha que a sua geração fez as pazes com a música portuguesa?

Sem dúvida, acho que fez as pazes com a música portuguesa, árabe, espanhola, italiana, africana... Mas também acredito que não só fez as pazes com tudo aquilo que são as nossas grandes influências, como também conseguiu fazer um casamento entre a cultura popular anglo-saxónica, que representa a nossa adolescência, com todos os nossos ídolos, e a cultura do nosso canto do mundo, que representa a nossa infância e vivência nas nossas cidades.

Regressando ao Por Este Rio Abaixo, sinto que este é um dos discos que conseguem criar uma fusão mais orgânica entre a música tradicional portuguesa com outros elementos mais contemporâneos. Como é que o trabalho de produção ajudou a chegar a este som?

Foi através de muitas experiências ao longo dos anos. Experimentar várias batidas, ritmos, samples e abordagens à música eletrónica. Existiu muita tentativa e erro até chegar a um ponto em que consegui transmitir a minha ideia e explicar a uma série de pessoas, como o Pedro da Linha [produtor], onde é que queria chegar, para me ajudarem a chegar ainda mais longe e com um nível de perfeccionismo nos instrumentais e na conceção das músicas que, se calhar, sozinho demoraria mais tempo a alcançar. Foi um longo processo de seleção, de exclusão de experiências musicais, que ora não resultavam ou que não transmitiam aquilo que eu queria fazer passar, e de abertura para experimentar sons novos com pessoas geniais que me ajudaram a criar este disco.

Existe todo este conceito de portugalidade no disco. Ao focar-se tanto neste imaginário, introduzindo elementos como o Adamastor ou o D. Sebastião, isso de alguma forma não o limitou na forma de expressar ou de contar histórias mais pessoais?

Não, porque apesar de o título referenciar a obra do Fausto, que fala muitas das navegações portuguesas e a epopeia portuguesa, o meu disco não é sobre isso. O meu disco é um ensaio sobre a ideia de rio, mar e mistura, em que as navegações portuguesas não são definitivamente a peça central. O que ocupa essa posição é a mistura que nos chega através da água. Se em algumas músicas, como a ‘Ribeira’, sou um pirata ou um pescador, já na ‘Borboletas da Noite’ uso o Adamastor para falar dos meus demónios. “Eu sei que o Adamastor é um vício cruel que me mete a suar”, no verso desta música, o Adamastor é uma metáfora para um monstro pessoal. Sinto que ao abordar este tema e com a colaboração do Tristany [rapper da Linha de Sintra que participa nesta música], onde fala sobre matar o D. Sebastião [“Eu é que matei / Sebastião / Numa manhã escura de tarde à lua”, canta o músico] de uma vez por todas, conseguimos finalmente seguir com as nossas vidas sem olharmos para trás. Acho que é muito importante e vou estar sempre grato ao Tristany por ter assassinado Sebastião numa música minha (risos). O disco não é sobre navegadores, é sobre pescadores, portugueses que cresceram junto a rios e mares, pessoas que gostam de aproveitar um pôr do sol ao lado da praia e toda esta mistura que chega até nós através das águas.

Estava a falar do Tristany. Além dele ainda conta com as participações do Profjam e da Ana Moura, um leque muito diversificado de artistas portugueses. Como se preparou para estas colaborações?

Fui escolhendo os artistas organicamente, ou seja, cada música pedia estes artis-tas. A ‘Cidade Branca’ pedia o Profjam, na música falo sobre vivências que tive em comum e como amigo com ele, por isso, precisava do Mário [Cotrim] ao meu lado enquanto me despedia da Cidade Branca, assim como ele; A ‘Borboletas da Noite’ pedia o Tristany, havia qualquer coisa em comum que pedia a sua participação e ele completou a música da melhor forma, com a machadada perfeita; A música com a Ana Moura, ‘Linda Forma de Morrer’, pedia a sua participação. Muitas das músicas deste disco foram feitas num momento atribulado da minha vida, uma fase de tempestade, mas esta foi feita num momento de calma, e a Ana aparece como um raio de luz depois da tempestade, é como uma criatura mágica, a Moura Encantada que aparece depois de um naufrágio. Esta música tinha que ter a voz da Ana, ainda para mais foi escrita com ela ao meu lado, no Alentejo, debaixo de um sobreiro, enquanto trocávamos ideias. As músicas pediam pessoas diferentes, também conto com o Branko [João Barbosa, DJ e produtor ex-membro dos Buraka Som Sistema e que agora faz música em nome próprio], era importante ele estar neste disco porque há muitos anos que ele fala nisto de revisitar o folclore português e de como a batida da chula [dança típica de Portugal] tem uma afinidade com a batida da kizomba, não estaria a fazer este tipo de música se não fosse o Branko, os Buraka e a Enchufada [editora independente criada pelos membros deste conjunto], que trilharam este caminho. Cada participação foi escolhida a dedo e com o coração e representam um panorama bastante completo da música portuguesa.

A sua música, talvez por ser tão diferente e inovadora, pode criar aquele sentimento de “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Não lhe causa algum receio que as pessoas possam não compreender?

Não fico surpreso com esse sentimento, mas não é o meu objetivo. Não quero fazer coisas para chocar. Quero criar pontes entre mundos que as pessoas pensem que são distantes. Quero unir, reconciliar e criar ligações e não criar muros causados pela estranheza e pelo choque. Não quero chocar, quero fazer perceber, quero mostrar coisas novas que façam sentido.

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