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Nuno André 28/05/2021
Nuno André

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Partida… lagarta… fugida!

É reconfortante saber que ainda há quem brinque e goste de brincar com crianças recorrendo a jogos tradicionais, pois já não é comum assistir a estes meios de interação. 

Ao longo de vários anos recorri à expressão (estranha para os meus ouvidos de criança) “partida…lagarta…fugida!”, sempre que nas brincadeiras de menino era necessária uma voz de partida. Passaram-se os anos e eu, convencido de que as crianças já não brincam na escola como se brincava, ouvi, hoje, pela boca de uma educadora de infância a mesma expressão ao dar início a uma corrida de pneus.

Foi delicioso. Em apenas trinta segundos, houve oportunidade de os ver correr, gritar, atropelar, cair, rir e no fim aplaudir. Do caos inocente saiu um vencedor que foi aplaudido por quase todos à exceção daquele que esfolou o braço e de outro que atingido por um pneu, se sentou e chorou.

É reconfortante saber que ainda há quem brinque e goste de brincar com crianças recorrendo a jogos tradicionais, pois já não é comum assistir a estes meios de interação. Aparentemente já não se estimula a competição, já não se premeia o vencedor, já não se admite que haja derrotados e, mais importante de tudo, não se aceita que uma criança se magoe.

Talvez porque se confundam os arranhões resultantes de uma dinâmica de grupo com sinais de maus-tratos ou, também, porque se exija que a criança regresse a casa tal como foi depositada na creche – com a zona dos pequenos cotovelos e joelhos limpos, os botões abotoados e com os cabelitos sedosos ainda a cheirar a camomila.

Considerações à parte, foram necessários muitos anos para que me apercebesse de que alguma coisa não estava bem naquela expressão de comando. Afinal a expressão correta é “partida… largada…fugida!”. Porque foi em adulto que me apercebi do erro que, mesmo inseguro cometi desde sempre, julguei ser o único e, por isso, nunca tive a coragem de perguntar ou partilhar com alguém este problema.

Na verdade, desde que fiz esta descoberta, senti-me incomodado comigo mesmo, pois considerei ter feito uma triste figura sem o saber. Julguei ter inventado ou, no limite, ter entendido mal. Porém, depois de voltar a ouvir o mesmo erro pela boca de uma educadora, percebi que a expressão “lagarta” andava mesmo por aí a circular. Não sei identificar a origem, nem sei o suficiente de linguística para tecer uma consideração sobre a razão de ser do erro. 

Mesmo assim, porque gosto de me aventurar em experiências sociais, quando entrei na sala de aula, sem dar qualquer explicação, pedi aos meus alunos que sem pronunciar a referida palavra, escrevessem no caderno a velha expressão. Foi assim que percebi que metade da turma aprendeu a dizer “lagarta” em vez de “largada”.

Como a sociedade gosta de catalogar e engavetar as pessoas segundo critérios originais, pode ser que esta ideia seja mais uma forma de nos separar – os que sempre disseram “lagarta” dos que sempre disseram “largada”. Ou então, outra sugestão, esta mais difícil de perceber – os que admitem ter dito “lagarta” a vida inteira e os que não assumem que acabaram de aprender como se diz. “É preciso que eu suporte duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas”. (Saint-Exupéry).


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