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Gasolineiras. Proibição de venda de álcool leva a "rombo enorme" na faturação

Gasolineiras. Proibição de venda de álcool leva a "rombo enorme" na faturação

DR Daniela Soares Ferreira 25/05/2021 14:14

Os postos de combustível são, neste momento, os únicos estabelecimentos a operar mas com a proibição de vender bebidas alcoólicas 24h por dia. A decisão é do Governo mas cria graves problemas aos proprietários das bombas que já tiveram de doar o stock ou deitá-lo ao lixo. Acrescem as perdas indiretas que têm mais força nos aperitivos.

Os postos de combustível são os únicos estabelecimentos a nível nacional que não podem vender bebidas alcoólicas 24 horas por dia. A medida – que afeta as contas das empresas – traz consigo outras consequências e perdas diretas como é o caso dos aperitivos: batatas fritas, frutos secos e sandes embaladas.

Esta realidade é contada ao i pela Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (Anarec) que conta que “a proibição de bebidas implica que outros produtos não sejam vendidos”. A associação deixa exemplos concretos. Muitos estabelecimentos deixaram de vender, por exemplo, uma sandes de presunto porque não podiam vender a cerveja para acompanhar.

Mas não só: “As refeições, como por exemplo, em S. Pedro do Sul, onde um dos nossos associados serve migas de bacalhau que são, normalmente, acompanhadas com vinho”, deixaram de se vender porque as pessoas gostam de acompanhar a refeição com vinho.

E até os tradicionais tremoços ou amendoins, que são normalmente acompanhados por uma cerveja, deixaram de se vender. A Anarec não tem dúvidas: “O pensamento do cliente é ‘simples’: não vai às bombas almoçar ou lanchar porque não pode beber álcool”.

Muitos associados optaram por não ter muito stock e efetuar regularmente compras o que se mostrou “vantajoso anulando assim grandes perdas. No entanto, estas perdas têm um impacto negativo significativo no balanço da empresa”.
Face a esta proibição do Governo, não há dúvidas: é uma “medida desproporcional, discriminatória e carecedora de qualquer fundamento”.

É que, para os postos de combustível, a proibição de vender álcool vigora ininterruptamente desde junho do ano passado na Área Metropolitana de Lisboa, e em todo o território nacional desde setembro do mesmo ano. A medida é, no seu entender, injusta não só porque promove a concorrência desleal como leva a que as gasolineiras continuem a somar perdas na faturação. 

Ao i, a associação garante não existir “qualquer elemento fáctico, ou sequer estatístico, que demonstre que existe uma maior perigosidade de contágio por venda de bebidas alcoólicas nos postos de abastecimento do que em qualquer outro local”. Além disso, até ao momento, “nunca o Governo apresentou qualquer fundamento ou argumento para justificar tamanha violação do princípio da igualdade entre estabelecimentos comerciais”.

Para tentar perceber de que forma é que esta medida tem afetado os seus associados, a Anarec questionou-os e os resultados devastadores são partilhados com o i. 

Vamos a números: com a proibição de venda de bebidas alcoólicas, os postos de combustível registaram quebras de vendas entre os 15% e os 100%. A Anarec deixa um exemplo: “Antes da proibição da venda de bebidas alcoólicas, num mês um associado fazia vendas mensais de 5000 euros ou mais. Atualmente, só com muito esforço conseguem chegar aos 1000 euros”.

“Sucede que, o facto de estarem impedidos de vender bebidas alcoólicas, nomeadamente, cerveja, que é a bebida alcoólica mais vendida neste tipo de estabelecimentos e, nalguns casos, a única, tem um impacto significativo na venda de outro tipo de produtos e representa uma diminuição de vendas de produtos de loja em geral”.

Com base em testemunhos dos postos de combustível, a Anarec diz que o facto de os clientes se deslocarem às chamadas ‘bombas’ para comprar uma cerveja, acaba por impulsionar a aquisição de outros produtos e serviços, como é o caso da lavagem automóvel. No entanto, esse ciclo deixou de acontecer com esta proibição do Governo e, neste momento, “registam-se quebras elevadíssimas ao nível da venda de produtos de loja em geral. Além da quebra de faturação da venda de bebidas alcoólicas existe, pois, um volume considerável de perdas indiretas”.

Outro problema é que a rentabilidade dos postos de abastecimento “advém maioritariamente dos produtos adquiridos em loja, e não tanto da venda de combustíveis, pelo que a quebra de vendas em loja tem um grande impacto na solvabilidade das empresas”, diz a Anarec ao i. 

O que se fez ao stock da cerveja? A verdade é que os postos de combustível não esperavam que a proibição do Governo vigorasse durante tanto tempo. E, com o tempo a passar, a validade das bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja, também vai passando. Segundo a Anarec, apenas “uma diminuta parte” dos respondentes conseguiu escoar o produto.

Quanto ao resto, não há dúvidas: a maioria contou com perdas totais e prejuízos significativos. Aqui, enquadram-se os que não tiveram outro remédio se não oferecer a cerveja a terceiros – como familiares ou colaboradores – para conseguirem evitar o desperdício.

Ainda assim, muitos não tiveram outra alternativa se não a de mandar fora todo o stock que tinham, como é o caso de uma associada que explica que “deitar fora não tem custos, ao contrário de dar baixa nas Finanças”. “Além das perdas de vendas temos ainda os produtos fora de validade como perda total pois a maioria dos fornecedores não os troca. No meu posto já chega aos mil artigos fora de validade que vão para o lixo”, lamenta.

Outro associado da Anarec, da zona das Caldas da Rainha, diz que só entre setembro e abril, já registou uma quebra de faturação de 829.562,52 euros (13,4%) em comparação com o período homólogo do ano anterior.
“De uma forma global, os associados reportaram-nos a perda total das cervejas (principal bebida alcoólica vendida nos postos, e nalguns mesmo a única), por terem ultrapassado o prazo de validade, cujos valores podem variar, entre 500 e cinco mil euros por mês”, estima a Anarec.

Realidades que o Governo desconhece Face a todas as proibições levadas a cabo pelo Governo, a Anarec diz só conseguir chegar a uma conclusão: “o Governo desconhece Portugal”.

E justifica: “Há que recordar que em muitas localidades do interior do país, os postos de abastecimento são o único local onde as pessoas podem adquirir bens”. Nestes locais, os postos de abastecimento funcionam como mercearia, correios e banca de jornais por exemplo. “É nas “bombas” que as pessoas vão comprar as batatas, o azeite, o vinho, o café, o jornal, a garrafa de gás e abastecer o carro”, garante a associação.

O que significa que “para os postos de combustível, nomeadamente para os pequenos postos do interior do país, a cafetaria, bebidas, jornais e tabaco, são fundamentais para gerar receita. A maioria destes postos não conseguiria sobreviver apenas com a comercialização de combustível e sem essa receita complementar”. E é aqui que começa um ciclo vicioso: se não vendem cerveja, também não vendem sandes, café, o jornal, o tabaco e até não vendem o combustível.

Queixas dos associados A realidade que os postos de combustível enfrentam nos dias de hoje, leva a que muitos associados tentem, junto da Anarec, a ajuda que não conseguem junto do Governo.

Desde setembro do ano passado, os telefonemas por parte dos associados são diários. Relatam as suas experiências, negativas, por causa das diversas proibições a que estão sujeitos. Não há dúvidas: “O rombo na faturação é enorme no que concerne às bebidas alcoólicas”. 

Recorde-se que esta associação representa proprietários de bombas de gasolina de norte a sul de Portugal, dos mais variados tipos. Ou seja: desde o dono de um pequeno posto no interior do país ao empresário que detém 14 ou mais postos.

Face a esta diversidade de associados, a Anarec garante que tem “valores de perdas de faturação díspares, como o caso do associado que desde setembro de 2020 tem perdido uma média de 3000 euros por mês, ou o do sócio que já contabiliza 60 mil euros de prejuízo”.

A título de exemplo, um associado de Santarém conta com uma perda de 6000 euros devido à validade do stock e 4500 de prejuízo devido às bebidas fora do prazo. E a partir daqui, surgem problemas ainda mais graves: “Estes prejuízos acabam por refletir-se no despedimento de funcionários das bombas de gasolina”. E o problema poderá continuar: “Alguns associados transmitiram à Anarec que foi e continua a ser equacionado a redução de despesas que já levou a fazer redução de pessoal”.

Outras proibições Mas se atualmente os postos de combustível estão ‘apenas’ proibidos de vender álcool, durante a pandemia – e principalmente durante os confinamentos – a lista dos produtos que não podiam vender era bem mais extensa. Recorde-se que, a título de exemplo, até 30 de abril as bombas estavam proibidas de revender nas suas lojas de conveniência determinados produtos a partir das 13h, como o caso do tabaco, jornais e revistas e jogos Santa Casa, aos quais ainda se juntavam os produtos alimentares a partir das 19h, aos fins de semana e feriados. No que respeita aos dias úteis, a partir das 21h só lhes é permitido vender combustíveis.

“Em suma, aos postos de abastecimento de combustíveis, não obstante serem encarados como um serviço essencial, foram sendo aplicadas as mesmas restrições de horários dos demais estabelecimentos que habitualmente vendem este tipo de produtos”, acusa a Anarec.

Exemplos não faltam: “Note-se que nas lojas de conveniência, são ainda vendidos óleos e fluidos, como o AdBlue, que são importantes para o funcionamento dos carros. Por isso, não faz sentido, por exemplo, a proibição do óleo que serve de componente para as gasolinas 95 e 98 para os motores de 2 tempos e motociclos. Ou seja, pode-se vender a gasolina, mas não se pode vender o óleo, que é essencial para o perfeito trabalhar do motor”.

E o problema é que foram muitos os clientes que não viram com bons olhos estas proibições, acusando os postos de combustível de uma proibição da qual não tinham culpa, pedindo muitas vezes o Livro de Reclamações. E houve quem não tivesse problemas em passar para o insulto por não poderem comprar tabaco nas bombas de gasolina. “Ora, como se não bastasse as perdas de vendas, os associados da Anarec ainda têm que levar com reclamações dos clientes. As restrições não fazem sentido por vários motivos, dos quais destacamos a concorrência desleal. A Anarec pretende que os horários sejam iguais para todos: supermercados e lojas de conveniência”, defende a associação ao i.

Todas estas preocupações têm sido levadas pela Anarec até junto do Governo mas, até agora, sem resposta. “Não tivemos, até à presente data, qualquer resposta da tutela às várias missivas remetidas, o que é, naturalmente, de lamentar, sendo a Anarec uma associação de âmbito nacional, representativa da rede de revenda de combustíveis”, lamenta.

Mas afinal, que restrições ainda temos? Ainda são muitas as dúvidas sobre o que se pode ou não se pode vender além do álcool nos postos de combustível. Mais que não seja porque, durante muito tempo era proibido, por exemplo, comprar tabaco depois das 13h aos fins de semanas e feriados.

A Galp esclarece: “De acordo com a legislação em vigor, os postos de combustível apenas estão impedidos de vender bebidas alcoólicas fisicamente”, diz fonte oficial da Galp ao i. Já aos fins de semana e feriados, “as lojas fecham porta às 19h e não podem vender produtos de loja após este horário”, ao contrário do que acontece nos postos em autoestradas onde”não há restrições de horário nem de venda de produtos”.

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