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Hélio Morais. "Já estou mais em paz com a ideia do erro"

Hélio Morais. "Já estou mais em paz com a ideia do erro"

Mafalda Gomes Hugo Geada 24/05/2021 11:18

O i esteve à conversa com Hélio Morais, baterista dos Linda Martini e Paus, que se prepara para regressar aos concertos e apresentar o seu primeiro álbum a solo.

Um piano do Sufjan Stevens e o Hélio Morais, baterista de algumas das maiores bandas de rock alternativo português, como os Linda Martini, Paus ou os If Lucy Fell, entram numa sala de ensaios. Podia ser o início de uma anedota para encantar um auditório de melómanos, mas foi o início de Murais, o projeto musical a solo do baterista português que, em abril, lançou o seu primeiro disco em nome próprio e com um título homónimo, já que assume agora o nome artístico Murais. Prestes a ingressar numa nova onda de concertos - atua em Lisboa, São João da Madeira, Porto e Coimbra, nos dias 1, 4, 5 e 6 de junho, respetivamente, - o i foi até aos estúdios da Haus, onde músicas como Até de Manhã, Marialva ou Oi Velho nasceram, para conversar com o baterista de 41 anos. Para além de nos ter revelado que o sucessor de Murais está quase completo, o músico falou sobre como foi trocar as baquetas pelas teclas do piano, voltar a sentir nervos antes dos concertos e de como uma visita ao hospital influenciou uma das músicas mais pessoais deste disco.

 

Esta nova aventura musical começou com o piano do Sufjan Stevens. Ainda se lembra da primeira vez que começou a tocar nele?

Não sei se me lembro da primeira vez, mas lembro-me das primeiras vezes. Tenho a imagem do sítio onde o piano estava e lembro-me de estar lá a tocar. Na altura tínhamos uma sala de ensaios em Belém, ao lado do Sérgio Nascimento que toca com o Sérgio Godinho, e era uma coisa estranhíssima. Era uma garagem com os nossos instrumentos e este piano foi lá ter. Foi em 2010, ainda antes de editar o Casa Ocupada. Não tocava mais nenhum instrumento melódico, só tocava bateria e flauta de bisel (risos). Já tinha experimentado tocar guitarra, mas não gostava muito, apesar de agora utilizar para compor músicas. Lembro-me de pensar que, uma vez que era um instrumento que funcionava como percussão e cordas, podia estar relacionado e servir como ponte. De facto, foi mais fácil utiliza-lo para criar algo que me soasse como uma canção.

Existem vários músicos, como o Dave Grohl dos Foo Fighters ou o J Mascis dos Dinosaur Jr, que também passaram da bateria para a guitarra, mas dizem que a guitarra é um instrumento muito mais simples.

Tenho tocado guitarra praticamente todos os dias, agora estou muito melhor, mas neste disco não tinha grandes pretensões. Não houve um dia em que pensei, hoje vou fazer um disco a solo. Ia fazendo canções porque sempre quis ser músico. Tomei essa decisão muito cedo, em 2006. Estava a estudar engenharia eletrotécnica e odiava aquilo. Ainda cheguei a ter alguns trabalhos descartáveis, mas acabava sempre por os abandonar porque, na altura, tinha agendadas tours com os If Lucy Fell. Ia conciliando o trabalho, a música e a universidade, que acabou por ficar para trás. Já nessa altura escrevia músicas, mas não tinha um instrumento melódico ao qual me pudesse dedicar para fazer canções sozinho. Nos Paus, por exemplo, é um processo diferente, vamos compondo e muitas ideias surgem das batidas, mas não é a mesma coisa, não são propriamente canções. Com piano funcionou bem, dediquei-me ao instrumento, fui criando estruturas melódicas de que gostava, ia acrescentando algumas letras e foram surgindo canções. Sempre sem grandes pretensões, na altura não sabia que queria fazer um disco. Agora, sei. Por isso é que me tenho dedicado ainda mais. Sei que quero fazer um segundo disco, que já está praticamente composto. Mas na altura não sabia e as coisas foram desenrolando-se muito devagar.

Como é que foi a transição de passar da bateria para o piano?

Foi um bocado assustador. Nem é pelo facto de as pessoas estarem habituadas a ver-me na bateria e de repente veem-me a tocar piano. Quando estou a tocar bateria não penso naquilo que estou a fazer: já o faço desde os 13 anos, já tenho 41 (risos). Não é algo que me desassossegue, muitas vezes estou a tocar bateria e a fazer listas de compras, é algo que está mecanizado em mim. A tocar teclado não é a mesma coisa. O mais complicado, para mim, é estar a tocar piano e a cantar para um microfone, é uma experiência mais física, não posso estar a olhar para as mãos. Lembro-me de fazer um exercício antes do meu primeiro concerto a solo que foi ensaiar o alinhamento todo sem olhar para o teclado, independentemente dos pregos que tivesse de dar. Não sou teclista de formação, foi algo que me dediquei como curioso, nunca estudei muito, só agora, quando comecei a ter que ensaiar o disco, é que comecei a treinar mais. Lembro-me que o primeiro concerto que dei com este projeto foi num live do Instagram, a propósito do EDP Live Bands, e as minhas mãos tremiam imenso, acabei o concerto e estava todo suado. Foi uma experiência fixe, estava numa posição desconfortável, o que até sabe bem. Já estou mais em paz com a ideia do erro, não é que seja muito mais experiente, porque dei poucos concertos, mas estou mais desapegado dessa ideia de tocar sempre bem. Lembro-me da primeira vez que os Linda Martini tocaram no Coliseu, estava expectante por voltar a sentir aquele nervosismo na barriga, mas fiquei um bocado desiludido porque senti-me muito confortável. Agora com Murais e a tocar teclado é completamente diferente. Só no dia 16 de abril, que foi quando lancei o disco e fiz um showcase na FNAC, a primeira vez que toquei com a banda, é que senti que me ia divertir e já não estava preocupado se ia dar pregos.

Lembra-se da primeira música que aprendeu a tocar no piano?

Não aprendi a tocar nada, experimentei logo começar a tocar coisas minhas. Como nunca soube tocar guitarra nunca fui aquele miúdo que ia para trás do polivalente tocar Nirvana. Quando peguei no teclado foi com uma intenção muito clara de criar canções. A música mais antiga de Murais é a Outono, de 2011, mas é a única dessa altura, gravei algumas demos, mas só se aproveitou essa.

Começou a desenvolver este projeto há mais de dez anos, porquê só lançar agora as músicas? Foi uma questão de se sentir mais confortável e confiante?

Quando comecei a compor sozinho não o pensava fazer todos os dias. Era algo que acontecia pontualmente, havia um dia que estava aborrecido e vinha para o estúdio mais cedo, sentava-me no piano e tocava um bocado, mas não era algo que me tirasse muito o sono. Lembro-me de ter comprado um teclado para ter em casa, no final de 2012, e aí comecei a tocar mais vezes. Se calhar é por isso que nenhuma das músicas que fiz antes sobreviveram, mas mesmo assim não tinha muito tempo, entre tocar com as minhas bandas, fazer agenciamento de grupos, a vida pessoal, era muita coisa acumulada, sobrava-me muito pouco tempo para compor. Por isso é que as coisas se foram desenvolvendo lentamente. Este projeto só começou a tornar-se mais sério em 2017, depois de gravar uma demo nesta sala, já tinha a intenção de mostrar as músicas a alguém, mas só um ano depois é que aluguei uma sala do Haus para poder gravar o disco com a ajuda do Fábio Jevelim, do Makoto Yagyu [membros de Paus] e do Pedro Ferreira [membro de Quelle Dead Gazelle]. Como já tinha investido dinheiro pensei: “vou ter de fazer alguma coisa com isto” (risos). 

Foi aí que começou a trabalhar com o brasileiro Benke Ferraz, dos Boogarins, como produtor?

Andava à procura de um produtor que não estivesse relacionado com Paus ou com Linda Martini, não queria correr o risco de ter um som parecido. Por exemplo, as baterias foram a última coisa que  gravei, foi o meu maior desafio. Por isso é que tinha a certeza de que o Benke era a pessoa certa para produzir o disco. Queria que tivesse um som orgânico, mas não fazia questão que tivesse um som real. Quando estive em São Paulo, em 2019, a gravar um EP com os Paus na Red Bull Station, um dos músicos convidados foi o Dinho, vocalista dos Boogarins. Sendo eles uma banda muito orgânica que fazem muitas jams, o Benke no trabalho de produção acaba por manipular as músicas e acaba por “estragar o som”. Pensei, esta é uma boa solução, já andava a matar a cabeça a tentar fazer baterias que não soassem às minhas bandas anteriores e quando ouvi o último disco dos Boogarins pensei que essa parte plástica podia ajudar-me a afastar.

Mais do que uma questão de técnica, era uma questão de estética.

Exatamente. Depois de ouvir Sombra ou Dúvida, single do último disco de Boogarins, liguei ao Benke e perguntei se tinha interesse em produzir o disco. Ligou-me uns meses depois, estava em tour com a banda, disse que gostou das músicas e aceitou o desafio. Mais tarde regressei ao Brasil, para fazer uns concertos com os Paus, levei-lhe uma pen com tudo o que tinha gravado e foi aí que o disco se tornou mesmo real. 

Sempre imaginei mais depressa uma colaboração entre os Boogarins e os Capitão Fausto, dado as influências psicadélicas dos dois grupos.

Já tiveram um som mais parecido. Quando os Capitão Fausto foram ao Brasil tocar com os Terno, no Rock in Rio, estava com o Fabrício Nobre [responsável pelo agenciamento dos Paus no Brasil] e também fiz essa mesma comparação. Já tinha havido conversas sobre os Capitão Fausto, quando lançaram o seu segundo disco, Pesar o Sol, fazerem uma tour com os Boogarins, porque tinham mais pontos em comum. Mas na cabeça do Fabrício fazia mais sentido o contrário. Se pensarmos objetivamente, em termos de posicionamento destas quatro bandas no seu país, de facto, em termos de público e alcance, Capitão Fausto ocupa em Portugal o mesmo espaço que o Terno ocupa no Brasil, porque são bandas mais mainstream, e os Linda Martini ocupam o espaço dos Boogarins. Apesar de serem quatro bandas de culto, têm todas um som bastante distinto. O som de Boogarins é mais disruptivo do que Terno, assim como o de Linda Martini, hoje em dia, é mais disruptivo do que Capitão Fausto. Lembro-me de estar com o Benke em Recife, na praia, e estarmos a falar sobre como, apesar dos Boogarins e os Linda Martini já serem bandas maiores quando os Terno ou Capitão Fausto começaram, observamos essas bandas a tornarem-se mais mediáticas do que as nossas. Ainda por cima eu sou agente de Capitão Fausto, imagina que a banda que tu agencias de repente progressivamente fica maior do que a banda de que tu fazes parte (risos).

Li numa entrevista que tinha vontade que este primeiro álbum soasse mais inocente e cru. No seu próximo disco vamos ouvir um som diferente e mais maduro?

Não sei se será mais maduro, mas existe uma maior exigência. Neste disco não estava preocupado em ter muitos acordes, só queria que soasse bem. Agora estou um bocado mais preocupado, porque também é um desafio superar-me. Continuam a ser canções simples, para fazer rock alternativo acho que já fiz discos suficientes em Linda, em Paus e em If Lucy Fell (risos), portanto, quero fazer uma coisa diferente. Gosto muito de Beatles, gosto de canções e de contar histórias e é atrás disso que tenho andado a correr. Uma das principais diferenças do meu próximo disco em relação a este é o facto das canções contarem histórias mais pessoais. 

Apesar de ter algumas músicas autobiográficas, como o caso do Oi Velho, sobre o seu pai.

Essa foi a última música que escrevi, já estava num processo de transição criativo. Escrevi essa letra no final de 2019, o Benke já estava a produzir o disco. Fui ter com ele alguns dias a Recife e ele sugeriu que entrasse com um instrumental, esta é a única música cujo instrumental não foi feito por mim. Esta parte de um sample feito através de um áudio que ele recebeu no WhatsApp, que era um amigo a dizer-lhe “Oi Velho”. Ele reencaminhou-me o instrumental, que já tinha esse nome, depois de eu ter ido ao hospital onde o meu pai morreu, em 2012. Fui fazer exames por prevenção, estava a chegar aos 40, é preciso ter estes cuidados, especialmente, no meu caso, que tenho um historial de pessoas com cancro na minha família. Só passado este tempo todo é que descobri que a causa da morte foi cancro do pulmão. Foi algo que me impactou imenso. Pensas que já tens estes assuntos fechados na tua cabeça, mas, sete anos depois, os quartos continuavam iguais, os quadros eram os mesmos, as caras eram diferentes, mas as expressões eram iguais, foi muito bizarro. Ainda por cima, à saída, cruzei-me com um segurança que não sabia se eu tinha ido visitar alguém ou fazer uma consulta uma consulta e disse-me: “coragem”, foi algo que me tocou imenso. Quando cheguei a casa escrevi imenso e depois de receber o instrumental adaptei o texto e escrevi estes versos. Esta letra está mais alinhada com aquilo que, agora, tenho mais vontade de fazer, trabalhos mais pessoais. 

Sente que Murais foi uma crise de meia-idade que lhe deu vontade de cortar com os seus registos anteriores e experimentar construir algo diferente?

Não sinto que tenho sido uma crise de meia-idade, algumas destas canções foram feitas quando tinha 31 anos (risos). Mas para ser sincero, a idade só me bateu quando fiz quarenta, altura em que o disco já estava pronto, acho que o disco não espelha isso. Se calhar o seu sucessor já tem mais essa sensação. Estivemos todos um ano fechados em casa por conta da pandemia e fez-me questionar tudo. Tenho quarenta anos, estudei engenharia eletrotécnica, mas nunca exerci, não tenho experiência nesta área, e, de repente, aquilo que eu faço e que me dá sustento parou completamente. Fez-me pensar se ainda sou capaz de me reinventar. Será que sou capaz de fazer outra coisa? Questionei-me bastante e isso fez-me, mesmo que inconscientemente, olhar mais para dentro e a escrever sobre coisas que se calhar antes não ia abordar.

Murais também foi a primeira vez que gravou a sua voz a solo. Como foi essa experiência?

Sinto que muitos fãs estranharam. Quando compus os temas destes disco não pensei na minha voz, construi músicas que me soavam bem e depois coloquei as letras por cima. Algumas músicas não estão no tom ideal para eu cantar e isso sente-se quando as pessoas ouvem o disco. Cria uma estranheza, que é algo que até me agrada, faz-me lembrar o Cedric Bixler-Zavala dos At the Drive-In. A primeira vez que ouvi irritou-me, estava tudo errado, sempre no limiar da desafinação, fazia-me muita confusão, mas hoje é das minhas bandas favoritas.  

Em Linda Martini e Paus, canta com os seus colegas, como é que foi dar a voz sem qualquer tipo de apoio?

Em Linda Martini faço sempre a segunda voz do André Henriques, para reforçar melodias, ainda por cima temos um registo parecido, não temos uma grande projeção de voz, portanto, quando cantamos os quatro a voz da Cláudia Guerreiro distingue-se, por razões óbvias, e a do Pedro Geraldes também porque é muito mais forte, já a minha não cria tanta relação com os fãs. Em Paus também é tudo muito misturado e como a voz do Quim Albergaria tem um timbre muito forte fura muito mais do que qualquer uma das outras. Ou seja, as pessoas de alguma forma já conheciam a minha voz, mas não necessariamente sozinho. 

E em palco? Como é ter as luzes da ribalta só para si?

Por acaso, na primeira vez dividi. Tanto em Linda Martini como em Paus toco sempre mais à esquerda do palco, essa é a minha posição natural e foi o que fiz nos meus primeiros concertos. Agora não vai ser assim, vou colocar-me ao centro porque é mais prático para poder comunicar com os membros da banda e para poder interagir um bocado mais. Não é que seja uma pessoa tímida, mas confesso que sempre me custou a ideia de me colocar no centro.

Não foi estranho ter outra pessoa em palco a ocupar a função de baterista?

Não achei. Quando começámos a ensaiar, o João Vairinhos perguntou-me se queria que ele fizesse as baterias exatamente iguais e eu disse que não. Primeiro, porque sempre fui muito fã da sua forma de tocar - na primeira banda onde estive, de emo-core, a minha função era cantar e berrar, e ele era o baterista e adorava o seu trabalho. Quando o convidei para tocar comigo, disse-lhe que admirava o seu trabalho e dei-lhe a liberdade de adaptar o que eu tinha feito.

Houve alguma estranheza no facto de ter estado a trabalhar num projeto sozinho, com total liberdade criativa, e agora regressar para as suas bandas?

Não, acho que até me tornou numa pessoa mais tranquila em banda. Descobri que a solo sou muito mais desapegado. Em Paus temos uns egos que podem chocar mais uns com os outros, em Linda é mais uma discussão de irmãos, já estamos juntos quase há 20 anos, e bato mais vezes o pé. Isto fez-me questionar o que é que me fazia ter esta atitude, que é adotada pelos quatro membros. Qualquer decisão é muito discutida.

Será que é por já ser um projeto com tanto tempo e identidade definida?

Sim, se não me conheceres de lado nenhum e me sugerires que toque bateria de uma certa forma e eu não aceite a ideia, tu não vais levar a mal, não vais sugerir que é um ataque à tua sugestão, mas quando estás numa banda quase há 20 anos já não distingues o que é um bom comentário para algo que estás a fazer de uma chamada de atenção. Se calhar ficas mais rígido quando estás numa relação tão longa. Sozinho, apercebi-me que não era nada assim. Fiz todos os vídeos com a Ana Viotti, eu dava os traços gerais e o resto partiu quase tudo dela. Percebi que não era nada controlador sozinho e isso foi muito bom e é algo que retirei de positivo para a minha postura em banda, acho que estou menos teimoso em banda. 

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