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José Paulo do Carmo 21/05/2021
José Paulo do Carmo

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Os carros, as bicicletas e o caos em Lisboa

A cidade de Lisboa (leia-se a Câmara) assumiu desde há algum tempo a esta parte uma autêntica guerra contra os carros, sejam eles elétricos, a combustível ou a gás. Provavelmente uma visita a uma outra cidade europeia mais plana e organizada construiu na cabeça de alguns iluminados a ideia de que para sermos modernaços e sustentáveis bastava plasmar um projeto de sucesso na capital. Esqueceram-se todas as dinâmicas que é preciso desenvolver para que as pessoas dependam menos dos automóveis e para que possam levar a sua vida da mesma forma utilizando outros meios de transporte.

Desde logo os públicos. Só quem não anda nos nossos transportes nem conhece as limitações por exemplo da nossa linha de metro é que pode achar que todas as pessoas podem pura e simplesmente deixar de usar o carro. A ideia de ter parques de estacionamento com excelentes acessos para quem vem de fora para cá trabalhar nunca saiu da gaveta. O que vemos é ciclovias a tomarem o lugar de faixas sem qualquer estratégia e pontos importantes da cidade a ficarem completamente estrangulados como é o caso da Almirante Reis onde em hora de ponta, com uma só faixa, nem as ambulâncias passam. Fazem-se obras com grande preocupação estética como na Praça de Espanha mas depois cai-se no ridículo de encaixotar uma ciclovia dali até à Universidade Católica com grande blocos de cimento a delimitar o espaço.

Trocam-se os sentidos das ruas permanentemente e em algumas artérias, como na Avenida da Liberdade, cria-se um labirinto com a ideia de que é tão difícil perceber os diferentes sentidos das laterais que ninguém se lá vai enfiar. É assim que tiramos os carros da rua. Complicar para tentar vencer pelo cansaço. Os estacionamentos nem se fala. Cada vez há menos sítios para parar o carro e por entre obras privadas que chegam e instalam os seus pinos ou grades e lugares privados de mil e um institutos ainda temos as obras públicas. No caso de Campo de Ourique, com a proximidade das eleições decidiu-se inovar. Alcatroam-se as estradas, fecham-se duas e três de cada vez ao mesmo tempo que se trocam os estacionamentos que estavam em espinha para direitos e os que estavam direitos para espinha.

A verdade é que fomos transformados em ratos de laboratório ao sabor de certos visionários que quando chegam gostam de deixar o seu cunho pessoal. Depois logo se vê se funciona. São modas como os intolerantes ao glúten. Acho muito bem que existam ciclovias, mas as cidades não se tornam mais verdes à pressão. E se eu quero andar de carro não devo ser julgado por isso. Aliás para desenvolver alterações substanciais na forma das pessoas se deslocarem tem que se pensar primeiro nas condições essenciais para que estas não percam qualidade de vida. Não é decidir que é fixe tirar os carros da cidade e estarem-se a marimbar para o que isso implica. Será que as pessoas que têm estas ideias maravilhosas também se deslocam a pé ou de bicicleta para o trabalho? Ou querem Lisboa só para postal? 


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