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Monsanto. "Muitos lisboetas não fazem ideia que o parque foi plantado, árvore a árvore"

Monsanto. "Muitos lisboetas não fazem ideia que o parque foi plantado, árvore a árvore"

  • Monsanto. "Muitos lisboetas não fazem ideia que o parque foi plantado, árvore a árvore"
  • Monsanto. "Muitos lisboetas não fazem ideia que o parque foi plantado, árvore a árvore"
Marta F. Reis 21/05/2021 13:57

Uma nova exposição no centro de interpretação do Parque de Florestal de Monsanto evoca as nove décadas do parque, que se completam em 2024. À natureza junta-se a memória, visual e oral. Fernando Louro Alves, engenheiro florestal há 39 anos em Monsanto, guiou-nos pelas imagens. Uma floresta diversa como é hoje, sem ação do homem, poderia demorar 5 mil anos a adaptar-se. “Conseguimos fazê-lo em 90 anos”, diz.

Se o chão onde caminhamos em Monsanto falasse contaria como, antes de a floresta estar viva, a serra às portas de Lisboa parecia um monte queimado pelo uso, hectares de campos agrícolas exauridos e pastos, muitos já abandonados. Antes disso, já tinha sido floresta densa – há quanto tempo ninguém sabe ao certo. Como noutras matas do país, as árvores foram cortadas para haver onde cultivar, fazer caravelas e caminhos-de-ferro.

Muito antes ainda, viu os primeiros homens. Há 300 mil anos, no fim do Paleolítico, usariam sílex para fazer setas e faziam pelos trilhos hoje animados de desportistas os seus trekkings quotidianos, milénios antes de se inventar qualquer palavra. Antes disso, há 70 milhões de anos, mantos de lava formaram o basalto em cima do calcário, que com a erosão deu barro preto e terra rossa, o início do solo rico que foi a base de implantação de tudo o resto. A floresta até vai falando sob o dia quente de primavera, mas agora um pouco mais da história do Parque Florestal de Monsanto, mandado construir em 1934 por Duarte Pacheco, pode ser conhecida numa exposição que assinala as nove décadas do parque e ficará patente pelo menos até ao celebrar da data, em 2024.

Quem conta o resto e traça o fio condutor da trama é Fernando Louro Alves, o engenheiro florestal mais antigo em funções em Monsanto e que foi um dos 10 ‘entrevistados’ para o projeto. Faz-nos a visita guiada ao lado de Ana Rita Ramos, da produtora de conteúdos Have a Nice Day, que desenhou a exposição como uma viagem ao passado, presente e futuro do ‘pulmão’ de Lisboa.

Além do lado factual – as fotografias e vídeos que mostram Monsanto ao longo de quase 90 anos, do dia em que a comitiva de Duarte Pacheco, então já presidente da Câmara de Lisboa, plantou a primeira árvore em 1938 a quando houve corridas de fórmula 1 em Monsanto – a coordenadora explica que quiseram celebrar a natureza e biodiversidade mas também a memória que envolve o lugar, um lado mais emocional pouco contado e que passou por entrevistas a funcionários mas também moradores dos bairros de Caselas e Alvito, ambientalistas e utilizadores, “apaixonados” por Monsanto. “Um deles dizia-nos que se tirassem as árvores era como perder um familiar, que as abraça”, recorda.

Fernando Louro Alves junta saber e também o lado emocional e acusa-o logo à entrada, mostrando no mapa onde viviam os avós maternos no bairro dos Sete Moinhos em Campolide. O prédio onde vivia a família foi um dos expropriados – 40 contos nos anos 30 – para a empreitada do parque, que Duarte Pacheco, como ministro das Obras Públicas, decidiu em 1934 que era para fazer e classificou como obra de superior interesse público, expropriando em tempo recorde tudo que fosse necessário para avançar com um parque de 600 hectares. “Só em ditadura mesmo. Num tempo de brandos costumes não teria sido como foi”, diz Louro Alves. “As pessoas levaram terrivelmente a mal, e foi também por causa disso que Duarte Pacheco foi demitido em 1934”. Para quem vivia ali, as memórias novas foram-se juntando às antigas. “Muitas tenho-as pela minha mãe. Com a minha tia, subia a serra a pé pela autoestrada para irem fazer um piquenique na zona da Cruz das Oliveiras, num dia de sol desciam até à praia em Algés e voltavam a subir de volta.” Dos seus tempos de infância, o que já recorda é brincar no Alvito, que tinha um elétrico e um avião militar. Para os muitos que partilham da mesma nostalgia, lembra que já no seu tempo de funcionário do parque fez a operação para devolver o carro à Carris, que o pediu por ser dos poucos abertos. “Foi em 1988, teve de vir uma grua para o levantar e passar a cerca do parque. Pode ser visto no Museu da Carris.”

Uma cintura verde para Lisboa “Quer a conjuntura nacional como a internacional favoreciam a criação do parque florestal”, recorda Fernando Louro Alves, indo então ao início que se evoca na exposição. “Lá fora, começava a discutir-se a existência de greenbelts, cinturas verdes à volta das cidades. Hoje o parque apanha um nono da área da cidade. Mas durante muito tempo a área consolidada de Lisboa era muito restrita e tinha crescido bastante com a implantação da República. Em 1383 havia portas no Martim Moniz, para fora já não era cidade. Quando chega a implantação da República, a cidade cresce até à rotunda do marquês de Pombal. Ao mesmo tempo que a cidade crescia, tínhamos o movimento de higienistas, que diziam que as cidades maiores tinham de ter estes cinturões verdes por causa da qualidade do ar, da poluição, para prevenir incidentes como os smogs em Inglaterra”, recorda o engenheiro florestal.

Ao mesmo tempo, a nível interno, desenhava-se uma campanha de arborização depois de de uma campanha intensiva de cultivo de trigo, que tinha deixado os solos degradados. “As florestas não se plantam, nascem. Só muito recentemente é que tiveram de se plantar. O que as pessoas fazem é cortar florestas e foi isso que aconteceu ao longo da história. Houve um esforço grande de D. Dinis ao proibiu o corte das árvores, mas a partir do século XV, com as descobertas, começa dramaticamente uma delapidação do património florestal, sobretudo para lenha e para as embarcações, nomeadamente de sobreiros. Há algumas tentativas de inverter isso pelo meio, mas a partir do início do século XIX, dá-se uma nova delapidação para fazer as chulipas dos caminhos-de-ferro. Depois a campanha do trigo. A certa altura aumentou a convicção de que era preciso recuperar a floresta perdida”, resume o engenheiro florestal.

No caso da serra de Monsanto, está convicto de que a desflorestação ocorreu por volta do século XVI, mas a história não é consensual. “Há quem diga que não havia floresta há 2 mil anos. Para termos mais dados precisávamos de fazer um estudo dos pólenes fossilizados, para perceber que espécies houve em cada época”, diz. Do que aconteceu após 1934, há mais registos e são alguns que se recuperam na exposição, que terá em breve mais material numa versão “virtual”.

Ana Rita Ramos constata que a história, para muitas pessoas com quem ia falando ao longo do projeto de recolha de elementos e testemunhos, era simplesmente desconhecida. “Muitos lisboetas não sabem que Monsanto foi plantado, árvore a árvore, antes a serra estava deserta”, diz. “Quisemos resgatar essa memória e fazer de Monsanto também um lugar de preservação de memórias.”

Árvore a árvore O Parque Florestal de Monsanto inspira-se nos parques europeus mas numa lógica um pouco mais austera que os parques franceses com canteiros e zona de passeio com pedrinhas, mais à imagem das cercas conventuais como existia por exemplo no Bussaco, com cedros e pinheiro de Alepo. A primeira árvore, plantada em 1938, diz-se no entanto que foi uma acácia, evoca Fernando Louro Alves. “Só vejo que faça sentido por ter uma simbologia maçónica, porque não era a ideia que se tinha para o parque”.

Na exposição, há fotografias de Duarte Pacheco, então já presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a plantá-la e recortes da imprensa do dia. “Foi uma admirável tarde aquela em que o Governo, tendo à frente a veneranda figura do Chefe de Estado, foi plantar pelas suas próprias mãos as primeiras árvores do parque florestal da cidade, aspiração legendária dos lisboetas e que o sr. dr. Oliveira Salvar tornou realidade.”

Outras fotografias oficiais mostram rapazes da Mocidade Portuguesa de enxada na mão. Fernando sorri a olhar a imagem dos adolescentes, todos de enxada do ar ao mesmo tempo, diante de árvores já plantadas. “Se estivessem a usá-las ficariam destruídas as árvores, parece ter sido uma fotografia teatralizada”. Entre os moradores, o que se sempre se disse era que tinham sido presos a plantar o parque. No início, era local de romaria de famílias mais abastadas. Ao longo das décadas, foi vendo novos empreendimentos. Alguns falhados, como o restaurante panorâmico que só funcionou um ano e meio como tal. Outros inesperados: o parque de campismo era para ser um cemitério, mas enterrou-se lá um cavalo que não se decompôs, conta Fernando Louro Alves.

No que toca ao ecossistema florestal, nos primeiros anos, cedros e pinheiros ajudaram a melhorar os solos. Depois vieram sobreiros e azinheiros, mas sozinhos não pegavam. Eram plantados em viveiro em solo infetado com fungos, ananitas-mata-moscas, aqueles cogumelos pitorescos vermelhos com manchas brancas, que favoreciam as raízes. Nos anos 70, entraram em cena os eucaliptos: “As pessoas queixavam-se de que ainda não se via a floresta e plantaram-se sobretudo nas zonas mais visíveis da estrada. Aqui não se dão muito bem.” Quando se juntou ao parque em 1982, Fernando recorda que a floresta estava com muita mata, mas foi-se limpando e descobrindo e intervindo numa floresta mediterrânica, em adaptação, diferente por exemplo da floresta maioritariamente exótica que se visita na serra de Sintra, em que árvores, arbustos e fetos se foram sucedendo. “São histórias diferentes. A serra de Sintra esteve muito tempo florestada, depois ardeu, depois foi florestada. Aquilo que hoje vamos visitar a Sintra é um arvoredo exótico introduzido por D. Fernando II e uma série de parceiros, colecionadores românticos, Beresford, Cook, a marquesa do Cadaval, que competiam entre eles por coleções de hortênsias, camélias, redodendros.”

A floresta de Monsanto teve sempre gestão pública e, com o tempo, foi respondendo. “Sabemos que fazemos bem quando a floresta agradece”, resume, quando paramos junto aos placares que mostram alguns exemplares das espécies do parque. “Um sinal de vitalidade do ecossistema florestal são as orquídeas, plantas mais evoluídas. Hoje estão identificadas 23 taxas, espécies e sub-espécies, no parque”.

Contam-se 157 espécies de cogumelos, entre os tais cogumelos vermelhos a bizarrias da natureza como a gaiola das bruxas, mal-cheiroso. A maioria venenosos. “Há quem arrisque a vir apanhá-los. Há uma senhora que vem cá muitas vezes, conhece bem onde estão e chega a levar sacos, diz que é para consumir...”. Entre toda biodiversidade foram identificadas por investigadores duas espécies endémicas únicas em Monsanto, inopsidium acaule e uma flor da família das silenes, assobios, que nunca foram no entanto fotografadas.

Para Fernando Louro Alves, um dos bons exemplos em termos de recuperação dá pelo nome de zêzere, como o rio, um arbusto autóctone. Já na fauna, as aves canoras são também reflexo de uma floresta saudável, diz. “Houve uma altura em que associações chegaram a apanhá-las para as levar a concursos, sem autorização. Capturavam-nos e ganhavam prémios”.

As ameaças quando se tem uma floresta num meio urbano não se ficam por aqui e foram mudando ao longo dos anos. Durante anos o parque foi associado à prostituição em Lisboa, mas Fernando Louro Alves recorda que sempre entendeu que problemas do parque eram descargas ilegais de lixo. “A prostituição não é um problema do parque, é um problema social. Temos mil hectares e houve uma altura em que tínhamos sinalizado 15 prostitutas. Num hectare da cidade, não poderá haver mais mais?”. Neste momento, acredita que a maior ameaça é o equilíbrio na utilização e a pressão urbanística, que essa sim não foi parando de crescer na cidade. “Já temos perdido alguns hectares”.

E há outros problemas, igualmente invisíveis na mancha verde. Os esquilos, que durante anos se pensava que tinham abandonado de vez a Ibéria, foram introduzidos no parque, trazidos de Toledo, nos anos 90, quando se percebeu que estavam a adaptar-se a temperaturas mais quentes. Sete fêmeas e seis machos, que se multiplicaram para uma colónia que terá chegado a mais de 200 por volta de 2005, o auge. Nos últimos anos, têm sido predados por gatos, das muitas colónias que se espalharam pela cidade. “É uma coisa que não compreendo, se as pessoas querem ter gatos, que os tenham em casa.” Também a Monsanto vão parar cães abandonados, mais na altura do verão. De vez em quando avista-se uma ou outra raposa, que se pensa que venham da serra da Carnaxide, mesmo tendo de atravessar a CRIL. Bem-vindas. Já javalis, como nos últimos anos se tornaram presença mais assídua na Arrábida, ainda não se veem mas Fernando Louro Alves admite que estão a tornar-se um problema maior. “Ainda há pouco tempo num parque em Barcelona atacaram as mochilas de um grupo de crianças. São oportunistas e como não são caçados pelo homem perderam o receio de se aproximar.”

O futuro, acredita Fernando, passa pelo parque também como um polo cada vez maior de sensibilização para biodiversidade e a história ajuda também a fazer esse percurso junto das crianças. Afinal, em 90 anos o homem fez uma floresta, de que pode cuidar. Quanto demoraria sem ação humana? “Uma floresta adaptada, pensa-se que 5 mil anos. Fizemo-lo em 90”.

Saímos do centro de interpretação e Fernando mostra as orquídeas que crescem livremente, o zêzere, plantas que hoje qualquer um consegue identificar com aplicações de telemóvel que identificam de imediato a espécie, mas também carvalhos e sobreiros. Há muitas curiosidades que a exposição revela: Monsanto é dos poucos parques onde se podem ver sobreiros virgens, não são conformados e a cortiça nunca foi tirada. À saída, pode levar-se umas folhas escritas. Calha-nos esta: sabia que várias pedreiras em Monsanto forneceram matéria-prima para a calçada portuguesa? Chegaram a ser mais de 60.

Entre o que a serra deu e o que a floresta dá, Fernando acredita que uma coisa é certa: sem o Monsanto de hoje, a qualidade de vida em Lisboa seria pior. “A qualidade do ar seria terrivelmente má, além de funcionar como tampão de calor”, diz, comparando a capital com Atenas. “Temos uma conjugação de fatores e o parque faz parte disso. Lisboa tem uma estrutura urbanística muito bem desenhada, que conduz a um arejamento correto porque as ruas são orientadas segundo os eventos dominantes. Atenas não, tem um desenvolvimento como se fosse a palma da mão. A ilha de calor em Atenas é brutalmente elevada, a diferença de temperaturas de Atenas para a periferia é de 13ºC e aqui em Lisboa da ordem dos 6ºC. E pode dizer-se, não é do Tejo? Atenas também fica à beira do mar Egeu e não funciona. Em Lisboa funciona por um lado por causa do planeamento urbano sem dúvida e, complementarmente, por causa dos parques. Monsanto do lado ocidental, do lado do Oriental o parque da Bela Vista, o Vale do Silêncio, a mata da Encarnação e toda este conjunto se articula. O primeiro foi Monsanto”.

 

 

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