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18 de maio de 1952. A tarde à sombra do grande herói de Huelva

18 de maio de 1952. A tarde à sombra do grande herói de Huelva

Afonso de Melo 18/05/2021 14:16

Foi sem grande alarde que Albino dos Santos, um matador famoso em Espanha, se apresentou ao público do Campo Grande. Com ele vinha a história da façanha de Huelva onde tirou da arena, a ombros, dois companheiros colhidos e regressou a ela para matar seis novilhos sob a ovação gigantesca dos aficionados.

E, de repente, chegavam de Espanha notícias de um toureiro do quilé, como dizia o Assis Pacheco. “Portugal tiene un gran torero!!!” E acrescentava nas páginas do ABC: “Os seus dois touros não se prestaram a luzimento. Na alternativa, demonstrou uma valentia admirável. Quando o citava com a muleta na mão direita, o touro longe de olhá-la, olhava o toureiro._Intentava o bicho iniciar a viagem e o toureiro permanecia impassível!”

Quem era o artista?, perguntava-se de Lisboa a Santarém. Quem era esta figura que punha os espanhóis aos saltos como se tivessem sido atacados pela doença de São_Vito e que por cá se mantinha num inaceitável anonimato?

Era Albino dos Santos!

Ah! Com que satisfação os apaniguados da festa brava iriam recebê-lo no Campo Pequeno no dia 18 de maio de 1952, um domingo pleno de sol que compensava largamente aqueles que tinham aberto as mãos à bolsa para escolherem um lugar à sombra.

“Apresenta-se hoje aos seus compatriotas, um matador de novilhos que há três anos tem vindo a obter êxitos em Espanha, embora seja desconhecido em Portugal. Chama-se Albino dos Santos e nasceu em terras de Miranda do Douro, o que também contribui para a estranha aparição deste toureiro desconhecido”.

Ah! Se há matéria que o povinho gosta é o seu enredo meio secreto, a puxar para o romance de cordel.

Rapazito ainda, foi com o seu pai para perto de Sevilha onde este era proprietário de uma finca. E à sombra da Giralda resolveu dedicar-se aos touros contra a vontade do progenitor. Era suficientemente teimoso para levar a sua avante.

Falando devagarinho. Caçado pela imprensa portuguesa depois de ter sido mais do que famoso no país vizinho, lá se foi esbulhando em entrevistas com o seu cerrado sotaque castelhano à mistura com umas palavras de mirandês e um português macarrónico como poucos.

Alto, bem parecido, na véspera de se apresentar finalmente aos aficionados lusos, concedeu uma longa conversa ao longo da qual descreveu o momento heroico de que fora protagonista em Huelva.

Perante o primeiro novilho, dois dos seus companheiros, tombaram por terra espezinhados. Eram Saragoza e Cobos. “Levantei ambos em ombros, brutalmente ensanguentados, e levei-os para lá das barreiras onde os meteram numa ambulância para o hospital”. Estiveram dias e dias a pão e laranjas, agradecendo a coragem lusitana de Abílio, que muito provavelmente lhes salvou a vida. Mas a façanha de Huelva não se ficou por aí. Por regra imposta, Abílio teve de matar os seis novilhos que estavam destinados a entrarem na arena ao som do inteligente. “Confesso que o fiz com toda a facilidade”, ia contando Albino dos Santos. Com um tudo nada de farronca, continuava. “Cortei-lhes as orelhas perante os aplausos e espanto do público e dos próprios dirigentes da corrida que me concederam dez minutos de descanso. Ainda nem cinco estavam decorridos e já eu pedia para voltar às lides, tanta era a adrenalina. Despachei os novilhos com tanta mestria e facilidade que o povo me carregou em ombros pelas ruas da cidade. Senti-me naturalmente feliz por erguer alto o nome de Portugal!”.

A frase derradeira não caía aí por acaso. Raramente a imprensa espanhola fazia questão de sublinhar a sua naturalidade. E Albino exigia: “Escreva aí que sou português! E com muio orgulho!!!”

Por cá, levantavam-se ainda dúvidas sobre o facto de Albino poder conquistar o público do Campo Grande. Houve quem viesse a palco recordar que Santos era nome de gente à qual a tauromaquia nunca seria capaz de virar as costas. E recordavam-se os nomes eméritos do grande Manuel dos Santos e de António dos Santos.

Lisboa e Portugal preparavam-se para conhecer o compatriota desconhecido. Albino, desconfortável: “É muito importante para mim agradar aos portugueses. Em Espanha já tenho nome e insisto sempre que sou português porque este é o país que amo. Cabe-me conquistar os aficionados do lado de cá da fronteira e oferecer-lhes um grande espetáculo”. Nervoso, sem o apoio certo dos picadeiros completamente encadeado pela lide de Manuel dos Santos que pôs em pé toda a praça, Albino passou quase despercebido. O Herói de Huelva não teve a estreia com que contava em Portugal. Os elogios que ouviu foram mais por consolo do que autênticos.

 

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