16/9/21
 
 
António Galamba 17/05/2021
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Abusar da sorte

É abusar da sorte deixar em roda livre festejos expectáveis ainda em tempo de pandemia para depois exultar um deplorável jogo de passa culpas em que os decisores políticos falharam em toda a linha.

O usufruto da sorte tem muitas expressões e justificações. “Cada um tem a sorte que merece”, “a sorte de uns é o azar de outros”, “protege os audazes”, “dá muito trabalho”, mas nenhuma consegue erradicar a dimensão de imprevisibilidade parcial ou total da coisa. Se assim é, porque razão existem e persistem impulsos para abusar da dita, que mais não são do que expressões de irracionalidade, de impunidade ou de conformismo com a letargia vigente, radicada num generalizado civismo de baixa exigência.

É abusar da sorte manter membros de um governo que são “dead men walking”, autênticos zombies políticos maculados pelos erros e omissões, acomodados em narrativas políticas sem nexo com a realidade, sem rasgo e sem capacidade para cumprir o essencial do desempenho de funções públicas. Ou enxamear a ação com incongruências e critérios que variam em função das pessoas em causa, que servem para valorizar as ameaças de uns tabefes a um comentador em detrimento de epítetos de sarjeta para qualificar o exercício jornalístico. Por muito que se tenham posicionado ao longo da vida política as peças certas nos media, na justiça, na sociedade e em tudo o que conta para a proteção e conivência com o exercício político do protagonista, algum dia a sorte acaba. Mas, mesmo para esse cenário, haverá sempre narrativa e escapatória.

É abusar da sorte deixar em roda livre festejos expectáveis ainda em tempo de pandemia para depois exultar um deplorável jogo de passa culpas em que os decisores políticos falharam em toda a linha, porque é a eles que lhes compete a liderança dos processos, fosse na defesa de público no estádio para distender as aglomerações ou na distribuição dos pontos de concentração ao longo da cidade. Nada evitaria os excessos e a bandidagem, presente em todas as claques, mas essas eram variantes do vírus da euforia a conter. Agora, o poucochinho que se constatou na organização e a incompetência revelada no momento é uma inaceitável ampliação do risco de contágio generalizado. E a tentação da reincidência na desculpabilização da responsabilidade política endereçando-a para as forças de segurança como acontece, por regras vigentes, em relação aos serviços na dependência dos políticos e de outras instituições apenas serve para gerar uma inibição de ação. Se não há liderança, não há proatividade, o melhor mesmo é fazer o menos possível para não correr riscos. A falta de cobertura política para as ações legítimas, legais e essenciais fomenta o imobilismo e a ausência de iniciativa.

E não, assumir a responsabilidade política não é resolver o problema, como sustentou o primeiro-ministro em desesperado resgate do seu ministro da Administração Interna. Assumir a responsabilidade política é ser consequente perante o erro, a omissão ou o fracasso, mesmo quando não dependem diretamente de si, mas isso, é pedir demais a quem coloca todo o foco na manutenção do poder e na preservação de um status. É a mesma linha que preside a algumas expressões de defesa corporativa perante o erro, como aconteceu com o insulto racista injetado numa peça da agência de notícias nacional. O erro é inaceitável. Foi escrito, não foi verberado com ligeireza nas redes sociais onde alguns jornalistas exercitam catarses e evidenciam o subjacente ao que escrevem, por mais desprendido e competente que seja o exercício. É assim, com tudo o que é vasos comunicantes, tudo conta e influencia.

Numa sociedade comprometida em demasia com o desenrasca, o abuso da sorte é mais um dia no escritório, acaba por se inscrever no modus operandi vigente, nas regras do quotidiano, mas não é grande solução. Não gera nenhum tipo de confiança, porque não decorre da tentativa organizada de controlar e conduzir as variantes para a afirmação de uma visão, um modelo ou um conjunto de objetivos comunitários. É o que temos, um abuso, até agora com sorte, dizem. O país abusa da sorte e depois, de vez em quando, estremunha para a descoberta da realidade.

 

NOTAS FINAIS

QUEM NÃO TEM SORTE, TANTO FAZ CORRER COMO SALTAR. Em Portugal, pode haver um cidadão desaparecido há mais de 8 meses que a Polícia Judiciária não inclui na lista dos desaparecidos, mas não falta ânimo da sua liderança para prosseguir o branqueamento assistido de um cibercriminoso em julgamento por violações múltiplas da lei. As violações não são alegadas porque existiram de facto, de jure é outra dimensão.

NINGUÉM ESTÁ CONTENTE COM A SUA SORTE. A efervescência no meio militar é mais uma contradição. Não se pode militarizar as estruturas da administração interna, da vacinação e afins para depois gerar uma situação de tensão para a qual se mobilizam os preconceitos populares, dias depois das comemorações do 25 de Abril.

A SORTE, FAZ PARENTES; A ESCOLHA FAZ AMIGOS. Além da trampolinice de antecipar decisões do governo, o Presidente da República dá evidentes sinais de maior exigência em relação ao governo. Por ocasião da Condecoração de Jorge Coelho, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, sublinhou que “em democracia tem de existir responsabilização política pelos erros ou falhas do Estado e das suas estruturas.”.

SORTE É AQUILO QUE NÃO SE MERECE. O Sporting é campeão. Parabéns. Foi o menos mau, feito melhor por mérito da eficácia. Mais um campeonato atípico pela pandemia, mas com demasiados traços tradicionais de má organização, más arbitragens e muitas forças ocultas em que uns têm a fama e outros todo o proveito. Está-se a desperdiçar este tempo em suspenso para decidir o que se impõe pela salvaguarda da atividade, do público e da verdade desportiva.

 

Escreve à segunda-feira


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