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Salazar. Os amores às escondidas de um misantropo

Salazar. Os amores às escondidas de um misantropo

Miguel Silva Jornal i 17/05/2021 13:34

Pré-publicação de excertos do capítulo 4 – “Vida quotidiana de um ditador” – do livro A incrível história de António Salazar, o ditador que morreu duas vezes, de Marco Ferrari (ed. Objectiva).

“Era um homem metódico e de hábitos. Ia para a cama à meia-noite, dormia bem, dispensando os soníferos, levantava-se às oito da manhã, tomava o pequeno-almoço, lia os jornais, sentava-se no gabinete das 10 às 14, fazia uma pausa breve para o almoço, depois um quarto de hora de sesta, a partir das 17 recebia visitas, antes do jantar passeava no jardim, lia livros, ouvia rádio, depois comia um jantar frugal, à base de peixe fresco, uma dourada ou sardinhas. Não fumava, bebia um decilitro de vinho do Dão, produzido na sua pequena propriedade. Adorava café, que considerava a melhor bebida depois da água, mas não o bebia, apenas o cheirava, pois caso contrário ficava excitado. Embora nunca tivesse lá ido, sabia que existia em Ermera, em Timor-Leste, uma das melhores variedades de café-arábica, introduzida pelos colonos portugueses no início do século xx. De três em três semanas, encontrava-se com o calista Augusto Hilário e com o barbeiro Manuel, que, além de lhe cortar o cabelo, 4. Vida quotidiana de um ditador lhe fazia a barba. De resto, era D. Maria com uma simples lâmina quem o barbeava todas as manhãs.

Adorava livros de história, sobretudo os que tratavam da América, e biografias das grandes figuras históricas. Não apenas volumes acabados de sair, como também antigos. Era frequente folhear os volumes de arte que lhe chegavam do estrangeiro, quiçá o catálogo de uma exposição em Londres ou Paris. Gostava de música clássica, em particular de ópera, e acerca da música moderna dizia que não possuía harmonia. Na política internacional, considerava os americanos infantis, os soviéticos habilidosos e achava que no espaço de algumas décadas os chineses se tornariam uma potência mundial. Não estava optimista em relação ao futuro da Europa, pois, com o desaparecimento de uma certa classe política — de Gaulle, Adenauer, Churchill —, só via mediocridade: «Daqui a 30-40 anos», profetizava, «haverá um cataclismo económico e também Portugal irá ao fundo.»

O seu desejo declarado era o de se retirar para Santa Comba Dão para escrever livros, embora nunca o tivesse feito. Ninguém acreditava na sua falsa modéstia, o seu destino de prepotência exaltava-se nas horas de silêncio («aquelas em que trabalho melhor», afirmava). E Maria de Jesus mantinha um semblante de cumplicidade sempre que ele perspectivava a ameaça de se retirar. Portugal era ele, tinha de ser aquilo que ele decidisse, e a sua vida era Portugal. Não o Portugal ultramarino, mas o interior, uma paisagem agreste e húmida, de rios e silvas, de igrejas paroquiais e carreiros. Ele era fiel a esse país e a sua fidelidade criava o enigma de um ditador que não soube governar a vastidão, não a conhecendo, não a frequentando. Àquela paisagem rural foi buscar a desconfiança em relação aos outros e as maleitas hereditárias, a gota, as dores nos músculos e nos pés, embora também a severidade e a depressão, a religiosidade e a obsessão com a fé, o destino amargo atribuído por Deus àqueles homens e àquelas mulheres («Devo à Providência a graça de ser pobre»). E, de facto, ao morrer, deixou na sua conta 274 mil escudos e a sua modesta propriedade no Vimieiro. Aquele pé que lhe doía desde criança e o levava a calçar sapatos especiais de pele era o sinal da sua fragilidade. Um homem que nunca dava mais de 20 passos e nunca dizia mais de 20 palavras. E depois aquela voz estridente, sibilante e aguda que para os inimigos era como uma lâmina de ferro que se introduzia na sorte das pessoas comuns. Sobretudo quando usava a ironia cortante, com duplo sentido, sob a qual se escondia sabe-se lá que destino marcado. Tudo compensado por uma capa de elegância britânica e sóbria, fato todo escuro, gravata às risquinhas e uma camisa de riscas brancas e azuis, quase uma antecipação da moda.

A aversão à viagem Os seus navios e os seus aviões desdobravam-se pelas rotas intercontinentais, mas ele nunca viajou, odiava as deslocações, tal como odiava os encontros internacionais com modestos homens políticos que não possuíam os seus títulos académicos. O que haveria a partilhar com um professor, um empregado ou um general? Antes cultivar vinho no Vimieiro e dedicar-se aos muitos opositores que perturbavam a sossegada normalidade do país atlântico. E, além disso, quem dentre esses falava perfeitamente francês como ele, amante da língua de Victor Hugo, Alexandre Dumas, Marcel Proust e Voltaire?

As três viagens que realizara na sua longa carreira de ditador tinham-se revelado pouco confortáveis e escassamente interessantes. Atravessara a fronteira com Espanha para debater com Francisco Franco. Tinham-se encontrado na Corunha, em Ciudad Rodrigo e em Sevilha. Numa outra vez, conversara com um colaborador seu, também do outro lado da fronteira, embora tivesse regressado logo ao Vimieiro.

Esforços incríveis, para quem odiava os almoços oficiais, para quem adorava andar de chinelos e ir cedo para a cama. Ele preferia a correspondência, adorava escrever cartas num tom oficial e altivo, rico em sobranceira compostura. Após a vitória de Franco, começara a escrever-lhe com uma certa regularidade, sem nunca abordar os paralelismos políticos e existenciais, o amor comum pela solidão, por exemplo. Só por uma vez entrou num avião da TAP para um voo entre Lisboa e o Porto, embora a companhia portuguesa, inaugurada em 1946, fosse a muitos outros países europeus, a África, à América, à Ásia. Fez um esforço tremendo em 27 de Março de 1966, quando apanhou o voo 104, com pouco mais de uma hora de duração, destinado ao Porto. Um bando de jornalistas acompanhou-o e ele sujeitou-se ao lançamento de perguntas. Durante o voo, não abriu a boca e no final não disfarçou o seu desagrado. Quando ia ao Vimieiro ou a Guimarães, usava o automóvel blindado, receando um atentado no caminho. Em 1933, o Paço dos Duques, mandado construir por D. Afonso, duque de Bragança, foi alvo de importantes obras de restauro para o transformar na residência oficial da Presidência do Conselho, embora ele preferisse dormir em sua casa. Enquanto professor, tinha feito uma viagem à Holanda e passara dois dias em Paris, fascinado com o metropolitano. Só por uma vez apanhou um barco para ir à ilha da Madeira, mas, sofrendo do estômago, ficou um tanto transtornado na ida e na volta. De contrário, vagueava de bom grado pelo jardim de São Bento entre galinhas e pombos, pois sentia-se na sua paisagem natal.

[…]

Os amores às escondidas Estava casado com a pátria: foi essa a justificação que usou para se manter solteiro toda a vida. António de Oliveira Salazar, mais do que um misógino, era um misantropo, embora não tivesse deixado de ter proximidades verdadeiras ou supostas com várias mulheres. Tendo uma alma feminina, sentia a autoridade como uma necessidade de vida, quase uma obsessão, que tornava público o seu sacrifício sentimental. As suas relações amorosas — afloradas no filme Amores de Salazar, de 1981, de Manuel Carvalheiro e no livro Os Amores de Salazar de Felícia Cabrita, de 2006 — eram todas elas marcadas por um conhecimento do mundo feminino, quase uma curiosidade, embora não tivessem dado em nada de concreto, à excepção de certos casos que nunca ficaram completamente claros.

O primeiro amor juvenil foi por Felismina de Oliveira, rapariga muito religiosa, de beleza clássica, cabelo arruivado, também ela atingida pela pobreza, a quinta de oito filhos. Chegada ao liceu e inscrita pelo pai na Escola Normal de Professores Primários, graças ao auxílio económico de um familiar que emigrara para o Brasil, Felismina conheceu Salazar em 1905, por intermédio da irmã deste, Marta, que morava na sua casa, para estudar. No seu diário, Felismina descreve António como sendo muito pálido, magro e alto. Quando o viu pela primeira vez na estação de Viseu, vestido de seminarista, foi o início de um amor «como Deus queria!», escreveu ela, um amor total e platónico, eterno e religioso. Dedicou-lhe um poema apologético num diário denso de castos sentimentos pelo homem que sempre adorou. Convidada pela primeira vez por Marta a ir a casa dos Salazares, apresentou-se com um vestido escuro, de luto, pela morte do tio, mas apesar dos meros 17 anos foi recebida como se fosse da família. Aos 19 anos, recebeu como prenda de António o livro Poesias de Soares de Passos que ele lhe leu, na casa do Vimieiro, sob os olhos da mãe, Maria do Resgate. Descurando o olhar investigador da mulher, ele rodeou-lhe a cintura e apoiou a sua cabeça na de Felismina. Encontravam-se todos os Verões na terra natal de Salazar, após meses e meses de cartas. As suas voltas e passeios despertaram a desconfiança dos familiares dela — Salazar era ainda um seminarista, que todos tratavam como padre António! Quando o futuro ditador entrou para a Universidade de Coimbra e se dedicou então ao ensino académico e, posteriormente, à carreira política, não se esqueceu de Felismina. Aos 42 anos de idade,continuava a escrever-lhe, num tom de amor subentendido que não agarrava a presa, recordando com gosto a amizade entre ambos, abençoada pelo Senhor. […]

Paixão fugaz foi também a que marcou a relação entre Salazar e Júlia Perestrelo, filha do antigo patrão do pai. Julinha frequentava o colégio das Irmãs Ursulinas, nunca faltava à missa da manhã, mais do que bonita era meiga, mas ele não fez nenhum esforço por salvar o amor entre ambos. Também usou a arma do sedutor em Coimbra, onde constava, numa universidade entre as mais rígidas do mundo, que o jovem professor do Vimieiro passava as noites em casa de Glória Castanheira, uma pianista que o considerava simplesmente um rapaz mimado, e que não apreciava de todo aquele jogo da distância-proximidade por si realizado. Porém, a correspondência entre ambos prosseguiu na mesma, de 1918 até 1956.

Mais pecaminoso foi o amor por Maria Laura Campos, que teve como cenário a casa arrendada por um breve período pelo então ministro das Finanças num rés-do-chão da Avenida Duque de Loulé, um apartamento sem luz, antes de passar para a Rua do Funchal onde, em Novembro de 1932, concedeu uma famosa entrevista a António Ferro. A mulher, que casara sete anos antes com o comerciante Eduardo Rodrigues de Oliveira, era alta, compacta, excêntrica no vestir, deveras esbanjadora em perfumes. Tinha uma péssima relação com o cônjuge, que a acusava de ter vários amantes. Aos 29 anos, após uma longa estada em Sevilha, em casa do tio do marido, e uma tentativa de suicídio pela ingestão de uma grande quantidade de fármacos, Maria Laura regressou a Portugal. Foi internada na Casa de Saúde de Benfica e saiu passados dois meses. Iniciou o processo de divórcio do marido e venceu-o. A relação entre Maria Laura e António desbloqueou-se. Lendo a agenda de Maria Laura entre o final de 1932 e o início de 1933, conclui-se que os encontros dos dois se tornaram frequentes. Salazar não renunciará a ela nem sequer após o novo casamento de Maria Laura, que foi viver para Madrid com o segundo marido, muito mais velho do que ela. Mais do que amor, a história com Maria Emília Vieira pode ser definida como um diálogo nas estrelas. Influenciado pela paixão pelos horóscopos, o primeiro-ministro conheceu a bailarina e astróloga nos anos trinta. Para o puritano do Vimieiro, ela era uma figura dissoluta, capaz de substituir Maria Laura. Em 1934, aos 37 anos de idade, a astróloga, filha de um sapateiro que se mudara do Porto para o Chiado, parecia uma mulher moderna, perturbante, exibicionista a vestir, com um belo sorriso provocador. Extravagante, ecléctica, surrealista, Maria Emília Vieira frequentava aulas de dança e até de boxe com duas irmãs. A ascensão familiar levá-la-á a estudar piano, a falar fluentemente francês, a viver no Campo Grande e a passar as férias no Estoril. Acompanhava como dançarina as exibições das bandas de jazz, dançava com os melhores clientes do Hotel Avenida Palace e entrava nos transatlânticos para dar espectáculos. Tinha até um agente, o senhor Silva, que tentava dotá-la de índole de personagem da moda. Não por acaso, deixou Lisboa para rumar à Paris da Belle Époque, onde levava uma vida boémia, associando-se inclusivamente à Sociedade Teosófica, criada por uma colónia de portugueses na Ville Lumière. Após cinco anos passados em Paris, regressou para a beira-Tejo com o tarô na carteira. Experimentada, sem grande sucesso, a via do teatro, abriu um estabelecimento próprio, o Makavenkos, na ampla Avenida da Liberdade. Os documentos do acervo de Salazar guardados na Torre do Tombo testemunham os êxitos dos seus horóscopos, tanto no plano pessoal como político, numa mistura de inter-relações: ameaças de pessoas que entram na vida do primeiro-ministro condicionando-o, moléstias intestinais, problemas financeiros, lutos, um ano em que a morte ficará sobreexposta… Embora Maria Emília tivesse uma relação com o jornalista Adolfo Norberto Lopes, director do Diário de Lisboa, o ditador incluiu-a no grupo dos seus conselheiros ocultos com a alcunha Guloseima, pois ela bebia uma gemada de oito ovos por dia, uma espécie de elixir da longa vida, segundo as suas teorias. Assim, os horóscopos de Maria Emília acabarão por orientar durante pelo menos três décadas as decisões do Estado lusitano.

Quando, em Maio de 1945, Salazar convidou D. Amélia de Orleães e Bragança para tomar um chá em São Bento, concedendo-lhe o regresso à pátria desde o exílio dourado em Versalhes, convocou várias damas saudosas da corte imperial abolida pela República. No meio das flores trazidas de propósito das ilhas dos Açores e da Madeira, dos bules que cheiravam a Goa e dos frutos exóticos do ultramar, as antigas damas da corte competiram entre si para conversar com a amada fidalga. Entre elas destacava-se Carolina Asseca, sobrinha da condessa de Sabugosa, perto de Viseu, então com 45 anos de idade, olhos intrigantes, cabelo escuro, de média estatura, que acompanhara D. Manuel II no nefasto exílio britânico. Ganhara hábitos londrinos, vestia-se à moda, falava perfeitamente inglês, lia os clássicos da literatura britânica. No regresso a Sintra, Carolina convidava os nobres da antiga casta portuguesa e os notáveis do novo regime para a flora do seu jardim, encorajava as visitas de coche ao Palácio da Pena, levava-os a passear pela estrada de Monserrate, entre os altos fetos arborescentes ou pela magnífica Volta do Duche, na frescura da floresta que domina a montanha encantada, amada por Eça de Queirós. Carolina casara-se aos 19 anos com um herdeiro do conde de Anadia, que morreu quatro anos depois, num concurso hípico.

Com a sua clássica galantaria, Salazar desviava as flores que todas as manhãs chegavam a São Bento para a luxuriante Sintra, onde, às escondidas de Maria de Jesus, o primeiro-ministro ia almoçar ao sábado ou ao domingo, enviando então o motorista com um bilhete a casa de Carolina, para solicitar que esta o recebesse. Na longa correspondência entre ambos, com a sua escrita elegante, a senhora nobre consolava o estadista pelas dificuldades que se lhe deparavam, testemunhando a sua saudade «sem fim». O estilo de Carolina transformou-a quase de imediato na primeira dama da corte salazarista, apesar dos olhares hostis de Maria de Jesus, mas com a benevolência das várias linhagens aristocráticas que projectavam já o regresso da monarquia lusitana. A hostilidade da governanta, os discursos de Micas e a atitude pouco encorajadora do filho de Carolina, Manuel José Pais do Amaral, levaram a um progressivo congelamento da relação. O chauffeur deixou de levar flores frescas e bilhetes ao palacete de Sintra, Salazar alheou-se dos propósitos da nobreza sediada na costa dourada, a estrada amorosa fez-se íngreme. A caminho de Londres, onde o ditador a utilizava para manter boas relações com a rainha, Carolina escreveu que a sua única consolação para a dor era que, para Salazar, tudo não passava de «um capricho», como em tempos lhe chamara.

[…]

O segredo da intimidade não permite tirar nenhuma conclusão quanto às inclinações sexuais de Salazar. Há ainda hoje em Portugal quem o defina como dedicado à castidade patriótica, sublimado sexualmente, libidinoso, misógino, e quem lhe atribua dois filhos. As cartas enviadas pelas supostas amantes são ricas em considerações e muitas vezes em ambiguidades, mas não há uma clara admissão da consistência da relação entre ele e elas, nem do ponto de vista físico nem do sentimental. Entre provas e ambiguidades, prevalece um platonismo que satisfazia de forma exaustiva o desejo de Salazar pelas mulheres. Herança de anos de privações, de devoção religiosa, Salazar manteve durante toda a vida uma forte tendência libidinosa, quiçá voyeurista, foi um pinga-amor, mulherengo, femeeiro. As suas trajectórias foram contraditórias neste âmbito também. De resto, nenhuma mulher alcançou em 40 anos o ceptro de first lady, como hoje em dia se diria.

Muitas saíram marcadas do encontro com o professor de Coimbra: Felismina fez voto de castidade; Julinha Alves Moreira, a suposta esposa, morreu sem um novo casamento a sério; Maria Laura teve um segundo casamento feliz, viveu com o marido em Madrid, aproveitou o sol da Península Ibérica, mas também não desdenhou alojar-se no Hotel Borges, no Chiado, para rever de vez em quando o belo António; a astróloga e bailarina Maria Emília Vieira viveu a falar dos astros e a fazer horóscopos até 1998 com o pseudónimo de Sibila e, até 1967, decifrou os astros para o decadente ditador, que nascera a 28 de Abril, sob o signo de Touro.”

 

Excertos de A incível história de António Salazar, o ditador que morreu duas vezes, de Marco Ferrari, ed. Objectiva

 

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