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Marcelo guarda espada da liberdade de Eanes em Belém

Marcelo guarda espada da liberdade de Eanes em Belém

Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República José Miguel Pires 15/05/2021 15:30

Marcelo Rebelo de Sousa convidou Ramalho Eanes para presidir as comemorações do 25 de Abril, após ter saudado o antigo PR na sessão solene em 2021. A homenagem, no entanto, tem mais que se lhe diga.

As relações de admiração mútua entre o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro chefe de Estado eleito no pós-25 de Abril, António Ramalho Eanes, que ficaram bem expressas no convite daquele a este para presidir às cerimónias comemorativas dos 50 anos da ‘revolução dos cravos’ (que se prolongarão entre março de 2022 e junho de 2026), já vêm de longe. E o elogio com que Marcelo homenageou Eanes durante a sessão solene que assinalou a passagem dos 47 anos do 25 de Abril na Assembleia da República, está longe de ter-se tratado de um ato isolado de evocação do papel desempenhado pelo general que sempre recusou a promoção ao marecharelato (sendo que os únicos militares que receberam o bastão de marechais após o 25 de Abril de 1974 foram os dois primeiros Presidentes da República (não eleitos), António de Spínola e Costa Gomes.

Se as palavras de afeto de Marcelo Rebelo de Sousa para com Ramalho Eanes marcaram a sessão solene do 25 de Abril – na qual Marcelo  definiu Eanes como sendo a «peça chave na mudança de regime» –, também Eanes retribuiu a homenagem, já que foi o único antigo Presidente da República a marcar presença nas últimas duas sessões solenes do Parlamento para celebrar o aniversário do 25 de Abril, às quais não compareceram nem Jorge Sampaio, por razões de saúde, nem Cavaco Silva, devido à pandemia da covid-19.

A partir de março de 2022, e até 2026, vão decorrer as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, onde Marcelo Rebelo de Sousa prometeu condecorar todos os militares de Abril. Ramalho Eanes ainda não aceitou o convite do Presidente da República, mas a comissão organizadora das comemorações, essa sim, já tem um presidente oficializado, segundo anunciou António Costa: trata-se de Pedro Adão e Silva, sociólogo escolhido para liderar a organização deste evento, que deverá ter, como presidente da comissão de honra Ramalho Eanes, caso o antigo Presidente da República aceite o convite.

Espada da liberdade em Belém

Um dos símbolos maiores do respeito e admiração que rege as relações de Marcelo e Eanes é a espada que o atual Presidente da República guarda no seu escritório em Belém e que lhe foi entregue pelo primeiro chefe de Estado eleito no pós-25 de Abril.

Recuemos ao ano de 2016. A passagem do 40.º aniversário sobre a primeira eleição de Ramalho Eanes como Presidente da República, foi assinalada com uma cerimónia militar de homenagem, em que estiveram presentes, para além de Marcelo Rebelo de Sousa, os líderes dos três ramos das Forças Armadas e o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), Pina Monteiro.

Nesta cerimónia, com parada militar, os chefes militares presentes (CEMGFA e da Marinha, do Exército e da Força Aérea) ofereceram a Ramalho Eanes uma espada simbólica – que representa «a condição militar, sem cuja observância justa, atenta e virtuosamente díptica, não há verdadeiras Forças Armadas nacionais», nas palavras de que Eanes proferiu na altura. Espada essa com a qual, como disse Pina Monteiro, se pretendeu «recordar a bravura e o poder com que, ao longo da sua brilhante carreira, [Ramalho Eanes] sempre conseguiu distinguir o bem do mal, combatendo a perversidade e a insipiência, na defesa dos valores da democracia e na construção da justiça e da paz».

Ramalho Eanes aproveitou a mesma cerimónia para entregar a espada nas mãos do comandante supremo das Forças Armadas (e Presidente da República), Marcelo Rebelo de Sousa, «como símbolo de confiança dos militares, que também eles saberão ser, enquanto Presidentes da República e Comandantes Supremos das Forças Armadas, os guardiões da correcta condição militar das Forças Armadas, da democracia e da Pátria».

Marcelo recebeu a espada que até hoje guarda no seu gabinete no Palácio de Belém e que passará ao seu sucessor, e assim sucessivamente conforme desejo de Ramalho Eanes.

Durante a homenagem em Mafra, Marcelo Rebelo de Sousa – à semelhança do que aconteceu a 25 de Abril de 2021 – não poupou nos elogios a Eanes, definindo-o como um «homem sério, honesto, austero, corajoso, incorruptível», que «foi naturalmente chamado a assumir em nome de uma geração funções de elevada responsabilidade durante o período mais critico após o 25 de Abril».

As celebrações dos 40 anos da eleição de Ramalho Eanes, além da cerimónia com parada militar em Mafra, teve outros momentos importantes numa altura em que Marcelo Rebelo de Sousa tinha apenas alguns meses de primeiro mandato na chefia do Estado. 

Castelo Branco e Évora foram palco de mais duas sessões de homenagem a Ramalho Eanes promovidas pela Presidência da República. As iniciaitivas foram intituladas Encontros Com Jovens, onde o atual Presidente da República, acompanhado por Ramalho Eanes, promoveu discussões e debates sobre a Democracia em Portugal e aproveitou para enaltecer o papel do antigo Presidente da República no processo de transição democrática em Portugal e abrindo, depois, um espaço de perguntas e respostas entre os jovens e o general.

Um detalhe curioso sobressai da sessão em Évora: se o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão solene do 25 de Abril, em 2021, incidiu fortemente no passado histórico do país, na transição democrática e, acima de tudo, na necessidade de aprender com a história, esses temas parecem ter sido inspirados nas palavras de Ramalho Eanes nesta mesma cerimónia de 2016, em Évora. Afinal de contas, em declarações à Rádio Campanário, uma estação regional, na altura, o Presidente da República  enalteceu também o discurso de Eanes. «Por um lado, a recordação do passado e a explicação do passado, e por outro lado, a análise sobre o passado, sobre o presente e a análise sobre o futuro. Foi um testemunho riquíssimo porque permitiu falar do que foram as dificuldades que teve no período revolucionário, como foi a transição para a democracia e depois os grandes problemas da democracia e os grandes problemas da democracia em Portugal e no mundo, bem como a situação e os desafios da Europa e as dificuldades no exercício da função presidencial. Foi muito completo, e foi a prova de que valeu a pena celebrar estes 40 anos desta maneira», concluiu o Presidente da República.

Para além destas sessões, da entrega da espada, dos elogios aos discursos e das várias homenagens, ainda houve espaço, na mesma janela temporal, para Marcelo Rebelo de Sousa condecorar Ramalho Eanes, em Lisboa, com o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, o mais alto grau de condecoração da Ordem.

A entrega realizou-se no exato dia em que se celebraram 40 anos da eleição de Eanes, a 27 de junho, e deu como concluídas as comemorações desta data simbólica, que levaram Eanes e Marcelo a vários pontos do país.
Ramalho Eanes, com 86 anos de idade, ainda não aceitou formalmente o convite que lhe foi dirigido por Marcelo para presidir à Comissão de Honra das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, cuja resposta – apurou o Nascer do SOL – será dada nos próximos dias, num encontro entre o antigo e o atual Presidente da República.

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