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Auzenda de Oliveira. O Benfica-Sporting do Sonho de Valsa

Auzenda de Oliveira. O Benfica-Sporting do Sonho de Valsa

Afonso de Melo 14/05/2021 22:03

Na véspera de mais um dérbi, fale-se do dérbi mais estranho de sempre: a votos, no Teatro São Luiz, no intervalo de uma opereta – vitória dos encarnados.

Uns escreviam Ausenda; outros escreviam Auzenda. A família era de artistas – Ausenda, ou Auzenda nasceu no berço certo. Repare-se: Carmen e Egídia, suas irmãs, também se lançaram na carreira dos palcos; Raul Oliveira, seu irmão foi um violista de méritos; Carmen Oliveira, cunhada, esposa de Raul, era notável acrobata e igualmente atriz.

Já se passaram quase cem anos, Auzenda (ou Ausenda) caiu no esquecimento de quase todos, algo que não merecia certamente.

A sua estreia fora precoce: junho de 1904, no Teatro Avenida de Beja, com a Companhia Sousa Bastos, na opereta A Boneca. Os vinte anos que se seguiram foram mágicos para Ausenda. Revistas como ABC ou Favas Contadas, Dia de Juízo, Ovo de Colombo; mais operetas – Viúva Alegre, Vendedor de Pássaros, Paganini, O Soldado de Chocolate, O Rei dos Sovietes, Enfim!, Sós, Conde de Luxemburgo. Trabalha para diversas companhias: José Ricardo, Armando de Vasconcelos, Luís Pereira.

Representa papéis que ficam na memória dos seus admiradores, nas peças. A Leiteira de Entre-Arroios, O Príncipe Orlof, O Milagre da Aldeia, Baiadeira, Morenhina, A Prima Inglesa. Passa quatro anos no Brasil e ganha mundo e notoriedade. Regressa a Portugal com mais prestígio do que nunca.

A sua voz era bela, de recursos amplos e reconhecidos. Também não fugiu à ópera, atuando na Bohème de Pucini e na Cavalaria Rusticana de Mascagni, por exemplo. Trabalhou com Palmira Bastos e com Maria Matos – figuras únicas do drama português – em numerosas peças levadas à cena no Teatro Politeama. E, agora, a pergunta que está na ponta da língua de cada um – que diacho tem a Auzenda a ver com um Benfica-Sporting. Eus explico! Eu explico!

No São Luiz. Vamos dar um salto ao dia 11 de março de 1924. No Teatro da Trindade, a atriz Aura Abranches sai inopinadamente de palco por causa dos dichotes que lhe são lançados no início do segundo ato. O episódio, raro, vale colunas de acusação e desculpas no Diário de Lisboa e em O Século. O povo leva as coisas a peito. Há a necessidade de programar um espetáculo imediato como resposta.

Curiosa a notícia que este último periódico traz à estampa: “É hoje que no S. Luiz se realiza a anunciada Festa da Bola promovida pelos artistas da Companhia Armando de Vasconcelos – António Tavares, Fernando Rodrigues e António Matos, nela disputando a Taça Ausenda de Oliveira pelos clubes de Futebol. A entrega de votos da simpatia pelos clubes de futebol termina no fim do intervalo do primeiro acto, fazendo-se escrutínio no decorrer do segundo. A taça será entregue por Ausenda de Oliveira no fim do espectáculo”.

Ou seja, no intervalo da opereta Sonho de Valsa apresentada no teatro São Luiz com Ausenda de Oliveira como protagonista, os espetadores iam a votos: escolhiam seu clube favorito e o mais votado receberia um troféu. Estranho? Talvez. Mas era o Portugal do início da década de 20, que descobria um fascínio novo pelo futebol que já ombreava e levava a palma às exibições de palco.

A notícia que se segue dá-nos conta da decisão final. Veio publicada no Sport Lisboa de 15 de Março: “A festa da Bola efectuada no teatro São Luiz alcançou um êxito ruidoso que deve com certeza levar a uma reprise... Os entusiastas do Benfica e do Sporting bateram-se valentemente, tendo-se formado à porta de entrada dois grupos que galopinavam para os respectivos clubes os votos dos espectadores indiferentes. O Sporting contava com um triunfo apoteótico, de antemão assegurado, encontrando-se na sala para os efeitos convenientes os seus elementos mais representativos. O pior é que as lutas eleitorais trazem sempre surpresas e o Sporting, no final da votação, viu-se batido pelo Benfica por uma diferença de mais de 400 votos”.

No final: Benfica, 1763 - Sporting, 1321.

Certamente o resultado mais estranho da história dos dérbis!

 

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