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Maria João Abreu. A atriz que teve o talento de se tornar íntima de todos

Maria João Abreu. A atriz que teve o talento de se tornar íntima de todos

Diogo Vaz Pinto 14/05/2021 12:32

Era o quadro mais provável, depois de ter sofrido dois aneurismas, mas a notícia da morte da atriz, aos 57 anos, não deixou de provocar choque e emocionar o país.

Toda a gente gostava dela. É um talento que passa à frente dos outros na longa fila de uma vida, pela capacidade de dar o lugar antes de mais, de ser amável, de dar valor às coisas, às pessoas com quem se cruzava, de tal modo que a sua morte é uma perda sentida intimamente por todo um país. Desaparece, aos 57 anos, no auge da sua carreira enquanto atriz, mas sobretudo enquanto essa presença familiar, que chegava a ser consoladora nessa forma de ficção que não passa de um animal de companhia. As telenovelas preenchem a solidão de um país que, em vez de estar à janela, se debruça hoje olhando o televisor, na amurada de uma existência que se distrai de si mesma, seguindo essa sucessão de dramas sem história. E Maria João Abreu soube participar neste culto menor infundindo as suas personagens de uma honestidade rara, cativando o público português pelo rigor e exigência de interpretações que não espezinhavam a subtileza nem cediam ao espavento, não se apressava a forjar um vínculo com a audiência, e tinha essa beleza de flor brava, alguém que teve origens tão humildes que recorda dias em que andavam à cata de tostões nas gavetas para comprar arroz ou de levar fiado um pacote de manteiga e que reconhecia, assim, à sorte um papel decisivo na sua vida. Com seis, sete e  oito anos já tomava conta da casa e da irmã, isto na ausência da mãe, que trabalhava como mulher a dias. “Estou sempre grata à vida”, dizia na entrevista que deu a Daniel Oliveira, no programa Alta Definição, há dois anos.

Maria João Abreu era “uma figura que representava para muitos portugueses a familiaridade de quem está connosco porque se parece connosco”, disse Marcelo Rebelo de Sousa na nota publicada no site da Presidência. Além das condolências à família, Marcelo recordou a atriz. “O humor, a emoção e a empatia ligam-nos aos outros, até aos outros que não conhecemos, como é o caso dos atores e das atrizes. Maria João Abreu, que nos deixou precocemente, escolheu essa abordagem, talvez por ser a abordagem que lhe era mais natural: a comédia, a projeção dos nossos afetos e dos nossos problemas, a proximidade humana”.

A atriz estava internada desde 30 de abril no Hospital Garcia de Orta, em Almada, após sofrer um AVC hemorrágico, na sequência da rotura de um aneurisma cerebral. Tinha-se sentido mal e desmaiou durante as gravações da novela A Serra, emitida pela SIC desde fevereiro. Foi assistida no local, tendo sido depois transportada para o Hospital Amadora-Sintra. Mas a gravidade do estado de saúde da atriz levou a que fosse transferida para Almada, onde foi submetida a várias cirurgias e ficou em coma induzido, na esperança de uma recuperação. 

Segundo informaram os amigos, Maria João Abreu andava preocupada com as fortes dores de cabeça que iam e vinham, tendo perdido muito peso nos últimos meses. Sem associar estes episódios aos dois aneurismas que viriam a ser detectados demasiado tarde, ligava os sintomas à fibromialgia, doença autoimune que lhe fora diagnosticada há uns anos.

Trabalhou desde muito cedo. Estudava e ajudava os pais no estabelecimento que tinham. Guardava boas memórias dos tempos de adolescência em que, nas férias, com uma amiga, andou a apanhar orégãos e caracóis e como isso a fez nunca recear o trabalho. Também em casa da avó, habituou-se a trabalhar no campo, entre as regas e apanhar os figos no chão, deixados depois sobre um tabuleiro para que o sol os secasse. Essa humildade a que foi obrigada ficou com ela, como a exigência dos pais de que tivesse sempre as melhores notas, deu-lhe um sentido de responsabilidade depois em relação às oportunidades que foi conquistando, tendo-se estreado profissionalmente em 1983, no Teatro Maria Matos. Foi no musical Annie, de Thomas Meehan, dirigido por Armando Cortez que a sua carreia como atriz se iniciou, tendo depois provado a sua veia cómica no Parque Mayer, integrando sucessivos elencos no teatro de revista, género que fez por ela e por tantos outros essa prova de paixão, submetendo-os ao castigo de erguer a cada noite essa festa carregada de um espírito faceto arrasador, uma prova de força que a preparou para a exigência, anos mais tarde, das produções televisivas que a tornariam um dos rostos mais conhecidos e mais expressivos da vida portuguesa.

Foi pouco depois de se ter estreado que conheceu José Raposo, com quem se casa em 1985. Estiveram juntos 23 anos e tiveram dois filhos, Miguel e Ricardo Raposo, que seguiriam os pais ao entrar no mundo da representação. Amigos do casal contam que a amizade sobreviveu à rutura, e que, mesmo na altura em que tratavam do processo de divórcio, foi em casa de Maria João Abreu que José Raposo buscou um lugar onde pousar a cabeça, e, ao longo dos anos, perpassou para o público os sinais de admiração e afeto que continuavam a uni-los. Tendo contracenado muitas vezes, antes e depois de se separarem, tinham fundado em 1998 a produtora Toca dos Raposos, que fora responsável por sucessos como a revista Ó Troilaré, Ó Troilará e o musical Mulheres ao Poder. Na entrevista ao programa Alta Definição, disse que a representação surgiu como uma forma de superar a timidez e também brincar um pouco, por fim, pois, como a sua mãe costumava dizer, fora isso o que faltou na sua infância, tendo sido uma criança que não aprendeu a brincar. “A representação veio soltar-me, despertar facetas em mim que eu desconhecia”, admitiu. Mas se o teatro funcionou, em parte, como um resgate da infância perdida, naquela entrevista dada em 2019 contou também que sofreu situações de bullying, ao ponto de ter ido parar ao hospital na sequência de um ataque de ansiedade.

No mesmo ano em que fundou a produtora, chegou o papel que a tornou conhecida da generalidade dos portugueses. Lucinda, a empregada doméstica com sotaque nortenho na série O Médico de Família, da SIC, foi a grande oportunidade que soube aproveitar para não mais deixar que a esquecessem. A estreia na televisão tinha ocorrido uma década antes, em 1988, no telefilme Uma Bomba Chamada Etelvina. Depois da série que se manteve no ar durante três anos, seguir-se-iam outros papéis em filmes tanto no cinema como na televisão, sendo que, apesar das muitas telenovelas que foi fazendo, manteve a sua ligação ao teatro e à revista, com a sua última subida aos palcos a ocorrer em 2019, tendo protagonizado Sonho de uma noite de Verão, no Tivoli, que lhe deu a oportunidade de contracenar uma vez mais com José Raposo e também com o filho de ambos, Miguel.

Maria João Abreu contava no Alta Definição que foi após o divórcio que retomou a sua adolescência e se permitiu começar a transgredir, só então, já depois dos 40, sentiu o impulso de rasgar o papel que havia assumido desde sempre, não querendo mais tomar-se tão a sério, ser sempre tão responsável, seguindo os filhos nas saídas à noite, nos festivais de música... “Agora quero ser um bocadinho louca também, quero estar descontraída na vida”, disse a Daniel Oliveira. Em 2012, casou-se com o músico João Soares, 10 anos mais novo. E numa entrevista que deu no programa 24 Horas de vida contou que os dois se conheceram no Algarve, na praia. “Tinha tido pesadelos, estava na praia a chorar e ele limpou-me as lágrimas. Quando voltei para Lisboa, não o tirava da cabeça. Trocávamos mensagens à distância. Conhecemo-nos dia 1 de agosto, dia 31 de agosto, às 5 da manhã, ele estava à minha porta. Estamos juntos desde então. Casámos na praia. Adormecemos todos os dias de mãos dadas há 11 anos”, afirmou em 2020.

Desde o final do mês passado, a família de Maria João Abreu esteve sempre ao seu lado, no hospital, e foram inúmeras as manifestações de apoio, tendo a descrença no pior cenário alimentado uma esperança firme na recuperação. 

A morte parece um final de telenovela, menos trágico do que ridículo, e muitos ficarão a aguardar a sua reaparição num novo papel.

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