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José Manuel Caballero Bonald. “Venho de ser um corpo pelo mundo”

José Manuel Caballero Bonald. “Venho de ser um corpo pelo mundo”

Diogo Vaz Pinto 11/05/2021 14:05

Prémio Cervantes 2012, e um dos últimos representantes da Geração de 50, morreu na madrugada de domingo, aos 94 anos, um dos grandes poetas espanhóis do último século.

“Isto já se vai acabando”, dizia o poeta quando lhe perguntavam como passava os seus dias. Tinha 94 anos e uns meses, e não dizia muito sobre a vida, não a enaltecia, mas tinha anotado certa vez que a velhice não é já a melhor altura para se falar dela. Sofreram-se, então, demasiadas perdas. Noutra vez disse simplesmente que “a velhice é uma cabronice, e tem uma cara feíssima”. A orla do futuro, de tão sujeita à erosão, vai-se compensando com o crescimento do passado. “Ali se agita o tempo vivido, a rápida sucessão dos anos, formando uma cadeia heterogénea de incredulidades. O que parecia real começa a dar lugar ao irreal. A experiência, de ora em diante, não significa mais do que umas poucas suspeitas de verdades, uma série de informações mal costuradas à memória que acabam sendo apenas conjecturas. Entretanto, também existe a possibilidade de se defender do indesejado, esquecendo-o.”

Certa vez, nos seus versos, deixou um conselho: “Usa a vida para te envenenares/ enquanto possas, salta/ para a margem oposta assim que possas.” Resta a alguns homens salvarem-se do remorso, atingirem a maturidade e a sabedoria num culto à transgressão, o qual não é alheio a uma certa delicadeza dos gestos, que, segundo Caballero Bonald, os torna mais insolentes e nocturnos, mais ufanos dos seus estratagemas combativos. E acrescenta: “fizeram o impossível/ para seguir sendo oráculos, deuses/ num mísero reino de rufiões”. Este poeta que foi agraciado com os principais prémios da língua espanhola, vivia aferrado às suas dúvidas, e exercia a sua arte de intérprete desses sinais e domínios que apenas se divisam por entre a névoa, buscando, nesta época marcada por uma incerteza que atinge tanto a realidade como a própria matéria de que os homens se reconhecem feitos, arrancar à boca terrestre os seus “rescaldos de mísera epopeia”.

José Manuel Caballero Bonald superou no ano passado a infecção do coronavírus, tendo estado internado numa clínica de Madrid, de onde saiu identificando esta invasão de um inimigo invisível como a terceira guerra mundial, mas da experiência aquilo que mais transtorno lhe parece ter causado é o facto de os telefones nos hospitais não funcionarem. Ele que há muito se retirara da vida pública, depois de um cancro de pele lhe ter provocado umas “avarias” que não lhe agradava exibir, já raramente deixava a sua casa, e os contactos que mantinha eram do outro lado da linha, assim, o confinamento não lhe provocou grande transtorno, mas o que o perturbava era a sensação de que “estamos a viver o final de um período da história, o fim da realidade”, como disse na última entrevista que deu, ao El País. “Daqui para a frente haverá novos modelos, novos vínculos, novos hábitos. Mas o que é inquietante é pensar o que será preciso para neutralizar os efeitos desta guerra bacteriológica. Como diria um trágico grego: um deus abjecto está a tentar usurpar-nos o futuro.”

“Tenho a impressão de que esta cidade que vemos ser atravessada por receosos transeuntes, cada qual com a sua máscara, compõe um cenário de teatro do absurdo”, disse ainda. Ele que brincou entre as ruínas da guerra, e que na juventude, enquanto estudante em Cádis e em Sevilha, se encantou pela noite, pelo grito que dela se lançava sobre o silêncio dos muros, e que, mais tarde, na sua chegada a Madrid, se afirmou como um dos “chefes de expedição” da aventura que tinha menos a ver com vínculos literários e mais com essa cumplicidade em apagar da pele os vestígios da desolação para entregar-se ao amor e às suas fúrias, à beleza e às suas lutas, esse grupo que inauguraria caminhos novos na poesia espanhola, fiel mais a uma lúdica impetuosidade do que a um estreito regime ou dieta estética, num bulício etílico que fez deles companheiros de tantas viagens ao fim da noite. Ao lado de Cabellero Bonald, nessa geração que ficou conhecida pela década em que tantos fizeram a sua estreia literária, estavam nomes como José Ángel Valente, Claudio Rodríguez, Jaime Gil de Biedma, José Agustín Guytisolo, Ángel González, Francisco Brines e Gabriel Ferrater.

Nascido em Jerez de la Frontera (Cádis), em 1926, o pai era crioulo de origem cubana e a mãe provinha de uma família aristocrática francesa que assentara na Andaluzia em meados do século XIX. Depois do período da Guerra Civil, que passou entre Jerez e Sanlúcar, Caballero Bonald começou por estudar Náutica e Astronomia em Cádis, e prosseguiu depois em Sevilha o curso de Filosofia, acabando em Madrid a estudar Letras. Vivia na capital no início da década de 50, e em breve publicaria o seu primeiro livro de poemas, Las adivinaciones (1952), com o qual ganharia o prémio Adonais. Esses foram os anos em que participou naquelas movimentações que tomaram de assalto a frente cultural, e, no início da década seguinte, depois de casar com Pepa Ramis, a sua companheira de toda uma vida, com quem teve cinco filhos, mudou-se para Bogotá (Colômbia) para assumir o cargo de professor de literatura na Universidade Nacional. Na entrevista que deu ao El País, falava daquela cidade como uma das suas pátrias. “Se a pátria é o que se vê quando lanças o olhar desde a janela da casa onde vives com gosto, então, eu tenho várias pátrias; umas mais duradouras que outras: o Coto de Doñana, Jerez, Maiorca, Madrid, Bogotá... Na Colômbia estive três anos, e ali escrevi o meu primeiro romance, tive o meu primeiro filho. Lembro-me muitas vezes dessa minha pátria. Aquilo de que não gosto nada é da pátria de que se reclamam os patriotas espanhóis.”

Sem ter chegado a ser militante do Partido Comunista espanhol, Caballero Bonald foi sempre firme no seu posicionamento à esquerda, e embora se tenha descrito muitas vezes como um anarquista com inclinações burguesas, ao longo de toda a sua vida foi manifestando posições ideológicas bastante firmes, num compromisso cívico que, depois dos anos da transição, em que se bateu para que não fossem esquecidos os actos monstruosos praticados pela ditadura franquista, viu a sua insubordinação e o vigor das suas denúncias serem transladados para o seu ofício enquanto poeta, romancista e ensaísta. Foi também lexicógrafo, editor, produtor musical, e um estudioso do cante flamenco, tema ao qual dedicou alguns livros. Nesta sua faceta, um dos contributos mais decisivos que prestou foi o Archivo del cante flamenco (1966), uma antologia discográfica essencial para o conhecimento desta tradição musical, composta por uma monografia e seis discos com gravações in situ que realizou ao longo de dois anos, numa viagem que o levou em busca das vozes que articulavam entre si um legado ancestral prestes a desaparecer. 

Embora a sua obra enquanto romancista tenha sido importante para torná-lo conhecido junto de um público mais vasto, e se nos últimos anos houve uma vertente memorialista que se impôs, traçando uma série de retratos das personalidades com quem conviveu ao longo da vida, celebrando os feitos artísticos e literários sem esconder as fraquezas de carácter, Caballero Bonald afirma-se, acima de tudo, como um dos grandes poetas de língua espanhola do último século, tendo escrito uma poesia que entronca na mais vasta tradição, e que, ainda que não exiba as suas referências como cicatrizes de guerra, agita-se desde um fundo sonante, impondo “uma aromática cadência”, em que as vivências pessoais adquirem um tom que abre mão da perspectiva limitada do indivíduo, para se entregar a um registo mais barroco, mais exigente com a linguagem. Nutre assim essa volúpia do idioma, os seus despertares, uma antiguidade ressoante, e o que nos dá, a partir das suspeitas da nossa solidão, para erguer entre memória e invenção, desordenando a engrenagem dos factos, para fazer funcionar de novo os gonzos do desejo. “Bebe comigo/ a tijela da música, a líquida/ pedreira do lamento, pérfido/ amor deitado na andrajosa/ majestade da noite, minguando o clamoroso/ martírio da luz.”

Se as suas primeiras obras se inscrevem naquele realismo denunciador do espectáculo de terror que caracterizou a Guerra Civil, pouco a pouco o poeta começou a ser atravessado pela suspeita de que nada daquilo que pode ser dito e compreendido de forma profunda e transformadora, capaz de abalar a consciência, se aguenta nesse registo mais simplista da poesia que pode ser entendida por todos, em qualquer momento e sem particular esforço. Àqueles que chegam a torturar os poemas exigindo-lhes uma mensagem óbvia, Caballero Bonald dizia ser ele quem não entendia a ideia que faziam do mundo. E nuns versos lembrava que “aquilo que o homem mais quis saber/ responde sempre mudo dentro da sua beleza”.

“Sou um simbolista e um surrealista miscigenado com um romântico”, afirmava. “O que procuro é a busca dessa palavra insubstituível que logo nos abre uma porta, quebra o selo fazendo o leitor abeirar-se de um mundo desconhecido, ignorado até ali, e que lhe proporcione de algum modo uma sensação nova”, acrescentava. Sugeria-nos assim esses “Paraísos/ vagamente arrojados/ entre a oxidação do ócio, [que] surgem/ como reclames, [e] brilham/ por vezes/ como um juvenil sabor a culpa.” Ou, nuns versos traduzidos por Egito Gonçalves, dizia-nos que “O que com mão incerta traça/ do coração o próprio emblema/ sobre o pó, também ali desenha/ o vazio da sua história”.

A poeta andaluz Aurora Luque, bastante próxima de Caballero Bonald, diz-nos que ele utilizava os corredores do mito para chegar a si mesmo e os corredores de si, os seus labirintos, para levar-nos às mais remotas salas do fundo, aos altares sujos do reverso das coisas e “ao fundo funeral da sua febre”. “Ler Caballero Bonald é como deitar-se indolentemente sobre a terra e encostar a face e o ouvido a uma areia quente e que parece latejar na nossa pele: do interior do mundo chegam-nos bramidos de cervos mitológicos, o estalar do sal cristalizando-se, as sereias de barcos não se sabe se afundados, se prestes a rasgar a névoa ou se passando por nós como fantasmas.” A poeta cita ainda Aurora de Albornoz, notando que na sua relação com as palavras ele estabelece um ritual intenso e transfigurador, usando-as “como alucinogénio para explorar o passado e o desconhecido”.

Esta é uma poesia atravessada por correntes que não deixam que as suas águas sirvam meramente como um espelho ameno, antes emaranham os reflexos, tendo Caballero Bonald o hábito de reescrever os seus versos sempre que lhe era oferecida uma oportunidade de os republicar. Ele defendia que, num poema, as palavras devem ter um significado mais rico do que têm no dicionário. Para ele a poesia era uma questão de tonalidade e rigor, estava mais próxima da música e das matemáticas do que desses insalubres jogos de palavras que saem à desfilada a tentar provocar a comoção de leitores sem nada melhor que fazer. “Às vezes juntas duas palavras que antes nunca se tinham encontrado e através delas rompe-se uma nova fronteira deste para o outro mundo.” 

Em Portugal, estando prevista a edição de uma antologia da sua obra na colecção da Tinta da China, à parte um punhado de poemas traduzidos por Egito Gonçalves e uma breve selecção traduzida por José Bento para a Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, este poeta mantém-se praticamente desconhecido dos leitores portugueses. Eis a estrofe inicial do poema que abre a recolha na antologia acima citada. “Venho de ser um corpo mais/ entre os utensílios da terra./ Venho de recordar as mesmas coisas/ que hoje me fazem cair ao esquecimento:/ a imagem do amor, seu impetuoso sonho,/ a vida que permanece no seu cárcere,/ a traição que lealdade foi primeiro,/ a mão do amigo onde o joio faz ninho,/ todo o rigor do tempo que a si mesmo se nega.”

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