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Benjamim Tormenta. Portugal já tem o seu detetive do oculto

Benjamim Tormenta. Portugal já tem o seu detetive do oculto

DR José Miguel Pires 10/05/2021 21:53

As forças negras e os demónios do Além tentam destruir a Lisboa de Eça de Queiroz, mas um detetive – ou bruxeiro – vai desvendar os mistérios. Assim é o primeiro livro de Luís Corte Real, editor apaixonado pela BD e o fantástico.

O universo literário português deixou, oficialmente, de estar órfão de um detetive do oculto. Benjamim Tormenta é o protagonista da primeira obra completa de Luís Corte Real, fundador da editora Saída de Emergência e amante do mundo da ficção, que se aventura agora na escrita com a série As Aventuras de Benjamim Tormenta, Detetive do Oculto. O primeiro título está já disponível: O Deus das Moscas Tem Fome.

Ambientada na Lisboa de finais do século XIX, a obra transporta o leitor para um mundo de fantasia e mistério, onde Benjamim Tormenta vagueia pela capital – dos becos mais sórdidos aos meios mais burgueses –, fazendo pontuais aparições em locais como Sintra ou até Macau, no longínquo Oriente. O dito detetive do oculto – ou bruxeiro, como também lhe chamam – investiga e analisa os factos do Além, ao mesmo tempo que luta com os seus próprios demónios. Livros malditos, deuses negros, aberrações e, no cerne de tudo, uma sociedade secreta: a Irmandade da Serpente Verde. A capital portuguesa é retratada, nesta obra de Luís Corte Real, como um antro de demónios, seres do Além e forças sobrenaturais que lutam e combatem – dentro e fora do corpo de Benjamim Tormenta – por dominar a cidade. Um detetive do oculto – e não um “detetive oculto”, como o mesmo faz questão de corrigir –, Benjamim Tormenta é a chave que desvenda os mistérios da cidade, e que tem como missão salvar a sociedade, um demónio de cada vez, ao mesmo tempo que luta contra os seus rivais internos, literais e figurativos. Ao seu lado, o fiel criado Adama Ramanujan, ou ‘Raj’, que o acompanha nas aventuras e desafios que Tormenta enfrenta ao longo das 432 páginas do livro.

Ópio, mulheres, demónios e sombras são alguns dos ingredientes de vários episódios da vida deste combatente do oculto, entre Lisboa e Macau, onde exóticas figuras se lhe apresentam, ligadas à secreta Irmandade da Serpente Verde.

Como não poderia deixar de ser, até porque, afinal de contas, é da Lisboa de finais de século XIX que falamos, a obra de Luís Corte Real é uma homenagem a Eça e ao universo queirosiano. O editor e escritor admite que foi ao ilustre autor buscar quer inspiração, quer toneladas de informação sobre a Lisboa da época, tanto do ponto de vista arquitetónico como do ponto de vista social.

A dada altura, Benjamim Tormenta e o romancista cruzam-se, num momento de interligação literária e fictícia. Por entre as figuras históricas da época, encontram-se também o Rei D. Luís e até Fontes Pereira de Melo, que se combinam com uma descrição minuciosa das ruelas e vielas da cidade de Lisboa, no ano de 1873.

Se as obras de Eça se dedicavam à crítica social, num ambiente que se mantinha novelesco, esta história de Luís Corte Real transcende os limites do mundo ‘real’, e coloca a figura principal num debate entre o mundano e o espiritual, num “estilo de X-Files na Lisboa de Eça de Queirós, com influências que vão de H. P. Lovecraft e Arthur Conan Doyle a Mike Mignola”, como o mesmo descreve. Afinal de contas, apesar de se cruzarem, muitos dos locais que o detetive do oculto frequenta seriam impensáveis para a maioria das personagens das obras de Eça de Queirós, as quais, como o autor afirma, “nunca estariam numa luta de navalhadas num beco lisboeta”, ao contrário da personagem principal de O Deus Das Moscas Tem Fome.

Benjamim Tormenta nasce de um aglomerado de influências, tanto literárias como de banda desenhada, televisão e cinema. Afinal de contas, o seu criador partiu do amor pela banda desenhada, nos anos 80, numa época em que o meio em Portugal não augurava grandes perspetivas profissionais, o que o fez virar para a área da escrita criativa e, mais recentemente, para a escrita de ficção.

PREPARAÇÃO FAZ A QUALIDADE “Escrever é sofrer”, confessa o autor em conversa com o i – e a fase de pesquisa não fugiu à regra. Apesar de confessar uma paixão profunda pela fase de investigação e pesquisa que está por trás dos diferentes contos de Benjamim Tormenta, que resultou em mais de 100 páginas A4 repletas de informação sobre uma Lisboa que já não existe, o autor não esconde as dificuldades que traz, em termos de despesa, gasto de tempo e frustração, já que “a pesquisa nunca acaba”, nem sequer quando o livro já está publicado... “Na feira do livro, encontrei um livro sobre o teatro S. Carlos, e outro sobre Lisboa do século XIX, e poderia ter utilizado no livro, mas isso vai sempre acontecer e faz parte, o que interessa é não parar o processo”, garante.

Luís Corte Real estreia-se como autor no mundo da fantasia, apesar de estar envolvido no meio há já vários anos. A Saída de Emergência, editora que fundou em 2003, é o projeto-mãe do mundo do fantástico em Portugal, lançando obras tanto de autores portugueses como internacionais, sendo os casos mais ilustrativos as edições de trabalhos de Nora Roberts e Mark Manson. Dentro desse seio de ficção lusitana, a Saída de Emergência é a promotora da Coleção Bang!, que conta, incluindo O Deus das Moscas Tem Fome, 349 livros publicados. Luís Corte Real figura como um autêntico aficionado deste mundo, rodeado de referências que vão do jogo Dungeons & Dragons até aos universos de Indiana Jones e H.P. Lovecraft, Bram Stoker, Júlio Verne ou Rider Haggard.

A sua estratégia passa por “trazer a fantasia” para o mainstream, explica ao i, referindo que o nicho a que se refere o livro – o mundo da fantasia e da ciência ficção – acaba por ser muito limitado em Portugal, sendo preciso juntar, na obra, elementos que atraiam os leitores de diferentes áreas. “Portugal é um país pequeno, e infelizmente tem poucos hábitos de leitura. A figura do detetive do oculto entra num nicho muito pequeno. Eu tento puxá-lo para o mainstream, e há muitos leitores de policiais, ou do Eça, que podem gostar do livro. Tento não vendê-lo como fantástico, porque é redutor. As coisas cá, quando são vendidas como fantasia ou horror, acabam por cair num nicho que é muito pequeno, talvez de algumas centenas de pessoas, e portanto não tem potencial comercial. Mas uma Guerra dos Tronos, que também é fantasia, já vende 100 mil, em vez de dois ou três mil livros. A minha avó, de 92 anos, leu a Guerra dos Tronos, nunca tinha lido ficção, e se lhe dissesse que tinha dragões e espadas, ela teria torcido o nariz”, refere o autor e editor.

PLANOS PARA O FUTURO O Deus das Moscas Tem Fome é apenas a primeira coleção de contos das Aventuras de Benjamim Tormenta, e no forno está já o segundo volume, que inclui uma história passada no Egito. Benjamim viajará também até ao Porto. A pesquisa que fez para escrever este conto levou o autor a apaixonar-se pela Invicta. A cidade “revoltosa” marcada, durante o século XIX, pela guerra civil e pelas invasões napoleónicas, é pano para mangas para Luís Corte Real, que se mostra cheio de ideias e conteúdos para as diferentes aventuras de Tormenta. Goa, Rio de Janeiro e outros locais pelo mundo que, durante o século XIX, ainda integravam o império português, são outros palcos que Benjamim Tormenta terá de visitar.

 

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