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Desafios no Período Pós-Pandemia

Desafios no Período Pós-Pandemia

José Manuel Neto Simões 07/05/2021 13:11

A pandemia provocada pela Covid-19 é a maior crise a seguir à Segunda Grande Guerra Mundial. Uma crise de saúde pública provocada pela pandemia, cujo impacto social e económico vai demorar a ultrapassar. Isto obriga-nos a refletir sobre os desafios do mundo que nos rodeia e perspectivar o futuro próximo.

por José Manuel Neto Simões
Capitão-de-Fragata SEF (R)

A situação que vivemos exigirá de todos muita força colectiva e mais disponibilidade individual relegando o egoísmo, pois as sociedades estão cada vez mais polarizadas e fragmentadas com impacto negativo na coesão social.

Podemos tirar várias lições. Da importância da ciência, à necessidade de robustez dos serviços públicos de saúde, passando pelos dilemas associados às liberdades individuais, terminando nas formas de ensinar e trabalhar à distância e nos desafios que uma crise económica sem precedentes trará às relações laborais.

Do ponto de vista institucional, é evidente que os estados de excepção constitucional de que o país dispõe estão manifestamente inadequados à gestão de uma pandemia, pelo que necessitamos de ter um quadro institucional e legal – lei de emergência sanitária (?) - mais adaptado a estas circunstâncias.

Numa futura pandemia, é importante uma estratégia que permita minimizar as perturbações no sistema de saúde. E isso só será possível se reforçarmos a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS), sendo de destacar o consenso sobre a sua importância. Por isso, será importante que os governos pensem antes de cortarem no orçamento para o sector, que necessita de um redimensionamento em recursos humanos.

Acresce a necessidade de romper com os constrangimentos corporativos no processo de formação de profissionais de saúde, ter um novo olhar sobre as carreiras no SNS e a sua capacidade de fixar o talento que temos produzido e que se tem expandido pelo mundo.

Teremos um grande desafio na área da saúde, cujo âmbito foi muito alargado. Isso implica a reconfiguração do SNS e assumpção da saúde como uma questão de Segurança Nacional. Importa, pois, encarar a saúde, sem sofismas, como um activo estratégico.

Por outro lado, a Europa necessita de criar uma capacidade de resposta, quer do ponto de vista sanitário, quer económico e social, para fazer face a crises como esta.

No domínio da logística, o país carece de uma reserva estratégica nacional gerida de forma integrada. E também lhe falta um sistema nacional de planeamento civil de emergência, já previsto ao nível da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC), e que deve ser o elemento agregador dos diversos subsistemas que integram a resposta a uma emergência.

Outra evidência é a necessidade de uma efectiva reindustrialização e que deixemos de estar dependentes de cadeias de valor tão extensas, onde os riscos de disrupção são enormes. Foi com a pandemia, podia ser com uma guerra, podia ser uma ruptura num gasoduto de abastecimento, numa via de comunicação. É necessário, por isso, recuperar maior autonomia diversificando as fontes de abastecimento.

A pandemia é um fenómeno que exige uma forte e determinada liderança política. Hoje, é fácil constatar que a gestão do surto foi mais eficaz nos países que agiram depressa, e onde as decisões foram menos receosas e mais musculadas, como em Singapura, Taiwan ou Macau. Os que começaram por esconder e desvalorizar o surto apresentam resultados piores - é o caso dos EUA, Brasil e Reino Unido.

A falta de coerência do discurso faz com que a o poder político não seja ouvido, porque a informação não é clara, sustentada e coerente. Em crises como estas, é essencial que as populações entendam facilmente os comportamentos que devem tomar. Isto é, a aceitação e o cumprimento das medidas dependem também da confiança nas instituições públicas que advém muito da credibilidade da forma como usam a informação e a sabem transmitir.

A pandemia trouxe-nos um cenário desconhecido e uma quantidade infindável de informação, verdadeira e falsa, uma “epidemia de informação”, que instalou o caos e gerou dúvidas e equívocos. Este contexto pandémico mostrou claramente a necessidade de informação jornalística e de informação devidamente contextualizada, que é também uma poderosa arma de combate.

A forma como pode ser reduzido o impacto na saúde mental deverá ser ponderada para que o Estado permita o apoio psicológico ao nível dos cuidados de saúde primários.

Em relação ao trabalho, os confinamentos vieram acelerar o processo de digitalização e massificar o teletrabalho. A pandemia abriu a janela para o futuro, para a chamada modernidade laboral, mas não pode servir de desculpa para uma espécie de nova escravatura, através de um telemóvel e um computador. Importa ter em conta um novo conceito separado do tempo de trabalho que é o tempo de contacto.

Vai ainda permitir uma relação de trabalho diferente em muitas áreas, produzir mais eficácia, reduzir as viagens - as reuniões vão ser feitas à distância -e optimizar mais o tempo.

As restrições provocadas pelos confinamentos necessitam estar acompanhadas de políticas públicas efetivas e fiscalmente viáveis capazes de mitigar o impacto no colapso da economia. E no médio prazo, encontrar o caminho do crescimento sustentado irá requerer consensos políticos para avançar com reformas fiscais e de produtividade alinhadas com uma agenda moderna de políticas sociais.

Nesse sentido, será necessário cada vez mais o estabelecimento de um compromisso para construir uma coesão social onde os direitos dos cidadãos são protegidos e onde o combate contra a pobreza e a exclusão social se assuma como uma prioridade na agenda política nacional e internacional.

As lideranças mundiais devem unir-se num esforço da vacinação global para evitar uma nova onda de contágio enquanto desenvolvem planos para a recuperação económica. Neste contexto, é preciso aprender com a crise para abordar de forma mais resiliente e sustentável a globalização.

Esta crise pandémica está a provocar profundas alterações na nossa economia e na nossa sociedade. Depois do Covid-19, será muito importante que o Estado, as empresas, as universidades e os cidadãos em geral estabeleçam um novo contrato de competência e confiança que permita encontrar as respostas adequadas para um conjunto de problemas que se vão agudizar, com impactos incertos e complexos ao nível da cadeia de valor da economia e do equilibro da sociedade.

A covid-19 não deixou nenhum país ou região sem ser tocado. Enquanto continuamos a combater o vírus e nos preparamos para a recuperação, os nossos esforços devem ser complementados por uma resposta igualmente decisiva e ambiciosa na área da cooperação internacional. Esta crise deve ser uma oportunidade, um ponto de inflexão, para um multilateralismo reforçado e mais eficaz.

Vivemos tempos extraordinários. Os desafios futuros são muito importantes para que qualquer país os possa enfrentar sozinho. Somente através da acção colectiva será possível reconstruir melhores economias e sociedades mais resilientes, mais inclusivas e mais verdes. Teremos de continuar a trabalhar juntos para desenvolver políticas que melhorem a vida das gerações futuras.

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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