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Lucy the Human Chimp. Sete anos entre chimpanzés

Lucy the Human Chimp. Sete anos entre chimpanzés

DR Sara Porto 06/05/2021 20:38

Novo documentário da HBO conta a história verídica da chimpanzé educada como uma humana e da sua cuidadora que abdicou das comodidades da vida em Oklahoma e viveu sete anos entre estes animais.

Lucy the Human Chimp pode facilmente ser visto como uma espécie de história da Disney, um caso de exagero científico e egoísmo que poderia ter acabado muito mal. Contudo, graças a Janis Carter, a personagem principal, a história – verídica – teve outro rumo. Nesta produção, a cuidadora da chimpanzé redime os atos da sua espécie com a renúncia aos seus planos de vida pela amizade singular e intensa com o animal.

Ao longo do século XX, o estudo dos chimpanzés foi uma forma de aprender mais sobre nós mesmos. É parte dessa história que se conta em Lucy The Human Chimp, o novo documentário da KEO Films e Channel 4, disponibilizado desde 29 de abril na plataforma de streaming HBO Max, em que se explora a relação vivida entre uma chimpanzé e a sua cuidadora.

O ESTUDO DE LUCY A relação foi fruto de um estudo realizado pelos psicólogos Maurice e Jane Temerlin, que tinha como objetivo perceber os limites da natureza versus criação, no final da década de 60. Lucy, a chimpanzé, foi retirada à mãe aos dois anos de idade, enquanto estava sedada. Trazida para Oklahoma, depressa se tornou uma grande sensação no meio académico, já que o casal a criou como se fosse uma criança, ao ponto de ensiná-la a vestir-se, a comer com talheres e até preparar um gin tónico. Nessa altura, Lucy foi a protagonista de um artigo na revista Life, onde se tornou famosa por beber gin puro, criar um gato e esculpir modelos de cabeças humanas com as suas próprias fezes. O animal tinha também um grande desenvolvimento sexual, chegando a utilizar objetos para comportamentos perversos. Para tentar gerir esse seu comportamento, os Temerlin apresentaram-na a um chimpanzé macho, mas ela mostrou-se muito assustada e incapaz de se relacionar com ele.

A CONTRATAÇÃO DE CARTER Janis Carter tinha 25 anos quando, em setembro de 1976, respondeu a um anúncio para cuidadora em part-time de um chimpanzé. O trabalho, além de poder ajudá-la a pagar os seus estudos, coincidia com os seus interesses, já que Janis era estudante de primatas na Universidade de Oklahoma. O que a jovem não estava à espera era da relação de intimidade que criou com o animal.

Não foi amor à primeira vista. O começo da relação entre Carter e Lucy foi muito frio. Para além da cuidadora acusar a chimpanzé de “arrogante e muito condescendente” nos momentos em que esta não compreendia os seus sinais, a única regra imposta pelo casal de psicólogos acabava por distanciar as duas, já que o toque era a única coisa que não era permitida. Foi exatamente no momento em que essa regra foi quebrada que a relação evoluiu. A iniciativa partiu da própria Lucy que quebrou essa barreira ao pedir a Carter que se aproximasse da gaiola e lhe tocasse no pelo. A cuidadora conta no documentário que foi um momento muito especial. “Não tem nada a ver com teorias da psicologia ou linguagem ou qualquer outra coisa, foi o nosso momento”, relembra.

O ABANDONO E A NOVA CASA Mas não foi preciso mais de um ano para acontecer o previsível. Aos 12 anos de idade, Lucy estava a revelar-se agressiva, forte e destrutiva e a sua estadia na casa dos Temerlin, estava a tornar-se insustentável. O animal passou a ficar maior parte dos seus dias preso na gaiola e, segundo Maurice Temerlin, “as pessoas que antes a queriam visitar, deixaram de aparecer”. Os investigadores decidiram então levar Lucy, que só conhecia a vida entre humanos, para uma reserva natural na Gâmbia, até um centro de reabilitação onde os chimpanzés eram ensinados a ser chimpanzés de forma a que esta aprendesse a viver na selva. Carter foi convidada a acompanhar Lucy, mas aquilo que deveria ser uma viagem de três semanas para ajudar na adaptação acabou por mudar a vida da cuidadora. O animal estava extremamente deprimido com a “traição” e o desaparecimento dos “seus pais humanos”. Deixou de se alimentar, era incapaz de se relacionar com os outros chimpanzés, começou a perder o pelo e não se conseguia reproduzir, já que a sua atração sexual era apenas por humanos. Carter depressa percebeu que a sua amiga precisava dela e, sem muito refletir, prolongou a sua viagem por mais algumas semanas, depois por mais alguns meses, até que efetivamente se mudou para uma ilha desabitada no rio Gâmbia com Lucy e dois outros chimpanzés incapazes de sobreviver na selva sem ajuda. Passou assim a viver com uma família que foi aumentando e quando deu por si, Carter vivia com 10 chimpanzés reabilitados, órfãos e cativos, sem qualquer outra presença humana. A sua estadia prolongou-se por sete anos.

DETALHES SOBRE O FILME O documentário junta filmagens de arquivo, a cobertura das notícias que saíram sobre Lucy quando esta era uma “celebridade”, e extensas reencenações que, muitas vezes, resultam mal num documentário como este, mas que sob a direção de Alex Parkinson, com Lorna Nickson Brown no papel de Janis Carter, soam totalmente verdadeiras.

Enquanto Lorna Brown atua de uma forma comovente, Carter, a real cuidadora de Lucy, narra a história e viaja de Oklahoma até África, acabando na remota Ilha de Babuíno no rio Gâmbia, onde viveu. Mas é importante referir que, para Carter, esta é a história de Lucy, contada sem romantismos. Na verdade, até existe um certo grau de pesar nas suas lembranças ,já que os Temerlin a “abandonaram” juntamente com Lucy.

O documentário, de 79 minutos, vai do emprego de Carter na faculdade a uma história de idealismo tragicamente equivocado e, em última análise, um retrato de uma amizade singular, um testemunho de lealdade e imprecisão das fronteiras entre “nós e eles”. Carter mudou-se para a ilha sem qualquer experiência em viver ao ar livre e os chimpanzés dependiam da sua liderança para obter alimento e apoio emocional. Mas, apesar de todas as lacunas de preparação, o grupo acabou por se juntar e a cuidadora conseguiu que se fundisse numa família livre, distante de todas as medidas humanas. “Não sei se alguma vez me tornei um chimpanzé”, diz Carter no filme. “Mas acho que nossas personalidades e tendências culturais se encontraram em algum momento e nós éramos exatamente quem éramos”, acrescenta. Carter, que começou a cuidar de Lucy aos 25 e tem hoje 70 anos, só abandonou a “família” quando um chimpanzé macho a atacou, um acontecimento visto como afirmação de domínio primitivo. A jovem acabou por abrir uma loja, do outro lado do rio e, mais tarde, voltou para visitar Lucy que a recebeu com um abraço caloroso que está registado numa fotografia icónica desta amizade.

UM FINAL AGRIDOCE Semanas depois, uma equipa de buscas encontrou os restos mortais de Lucy espalhados pela ilha, com causa de morte desconhecida.

Carter ficou na Gâmbia, a trabalhar na reabilitação de chimpanzés enquanto a população da ilha crescia para mais de 100. No final do documentário, recorda o profundo sentimento de paz interior e interconexão que percorreu os anos vividos na ilha, “momentos sagrados relembrados pela beleza de cada pôr-do-sol”, revela. “Com que frequência temos a chance de viver assim hoje?”, interroga.

 

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