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Madrid. Vitória estrondosa de Ayuso abala a política espanhola

Madrid. Vitória estrondosa de Ayuso abala a política espanhola

João Campos Rodrigues 06/05/2021 10:00

Isabel Díaz Ayuso passou de desconhecida a estrela pop da direita espanhola, brandindo o seu poder em Madrid contra o Governo de Pedro Sánchez e esmagando a esquerda que o sustenta.

Um terramoto político com epicentro em Madrid abalou Espanha, com a vitória de Isabel Díaz Ayuso, nas eleições autonómicas desta terça-feira.

De figura relativamente secundária no Partido Popular (PP), Ayuso passou a grande resto da oposição, eclipsando o próprio líder do seu partido, Pablo Casado. E conseguindo mais que dobrar o número de lugares na Assembleia da Comunidade de Madrid, passando de 30, eleitos em 2019, para 65 dos 136 deputados. Ainda assim, precisaria de contar pelo menos com a abstenção dos 13 deputados do Vox para governar – mas o partido de extrema-direita até já ofereceu apoio à investidura mesmo sem entrar no Executivo.

Já o Ciudadanos, que durante os últimos anos roubara espaço no centro-direita ao PP, até já foi dado como morto, perdendo todos os seus 26 deputados madrilenos, logo após ter sido estrondosamente sangrado nas eleições legislativas de 2019.

“Voltámos a ser o grande partido de Espanha”, declarou com gosto Casado, na sede do PP, na rua Génova, notando debilidade da coligação do Governo de Pedro Sánchez. O PSOE desfez-se aos bocados na capital, passando de 37 representantes em Madrid para 24, os seus aliados do Unidas Podemos, ganharam qualquer coisa, crescendo de 7 para 10, e o Más Madrid, fundado por Íñigo Errejón, surpreendeu conseguindo 24 lugares, comparados com os seus anteriores 20 – mas estes ganhos não foram suficientes para compensar a quebra do PSOE. Não é de se espantar muitos socialistas já peçam a cabeça do seu candidato, Ángel Gabilondo, até conseguira ser o mais votado nas eleições de 2019.

“Sofremos uma derrota que não esperávamos”, admitiu publicamente a número dois do Governo espanhol, Carmen Calvo. Face à vitória de Ayuso, conseguida com uma mensagem de recusa de restrições face à covid-19, a cavalo do cansaço com o fecho de restaurantes, bares, cabeleireiro e ginásios, aos gritos de “comunismo ou liberdade”, Calvo fez questão de lembrar que “não se pode esvaziar a palavra liberdade”, pedindo que em vez de se “falar de imperiais” se julgue a política “com programas, com gestão e trabalho”.

 Já entre a direção do Unidas Podemos, a sensação também era de profunda amargura. Aliás, o próprio fundador do partido, Pablo Iglesias, decidiu abandonar a política após o “fracasso” da esquerda em Madrid.

“Deixo todos os meus cargos. Deixo a política entendida como política de partido e institucional”, anunciou. “Não vou ser um tampão para a renovação de lideranças que se tem de produzir na nossa força política”, garantiu Iglesias, lamentando ter-se tornado um “bode expiatório”, sempre perseguido por sucessivas acusações da direita – desde alegações de que aceitara dinheiro do regime venezuelano, até de corrupção – que mobilizam “as forças mais obscuras e contrárias à democracia”.

Já essas “forças mais obscuras e contrárias à democracia “ a que Iglesias provavelmente se referia, o Vox, mostraram-se muito satisfeitos com o resultado de terça-feira. Foi um “extraordinário resultado”, para “parar o assalto social-comunista à Comunidade de Madrid, fez questão de salientar o líder do partido, Santiago Abascal, oferecendo de imediato o seu apoio a Ayuso, sem sequer exigir integrar o executivo. No entanto, a líder do Executivo madrileno, fez questão de, ainda assim, deixar as portas escancaradas a essa possibilidade.

“Quero os melhores, venham de onde vieram”, salientou Ayuso em conferência de imprensa, quando questionada se o seu Executivo seria monocolor. “Tive vereadores do Ciudadanos que valeram a pena, e, se os encontrar no Vox, contarei com eles”.

Na prática, é uma significativa viragem tática em relação a Casado, que já mostrava alguma abertura ao partido de extrema-direita, mas não sem reticências – o sucesso eleitoral de Ayuso poderá muito causar uma viragem semelhante noutras comunidades, ou mesmo a nível da política nacional do PP.

Aliás, o que não faltam são suspeitas de que Casado, encurralado na liderança da oposição nacional, podendo fazer pouco mais que criticar o Governo de Pedro Sánchez, arrisca ser apanhado na curva por Ayuso – uma amiga pessoal sua, vista como escolha segura a em 2019, pela lealdade a um líder fragilizado, mas que, com as mãos na comunidade mais rica, influente e destacada do país, se tornou a grande pedra no sapato de Sánchez. Ganhando estatuto como uma espécie de pop star à direita.

É uma tensão que se pode ouvir nas entrelinhas do discurso de Casado, logo após a estrondosa vitória de terça-feira. “O PP de Madrid foi o PP de sempre”, fez questão de salientar o líder popular. “Isabel é puro PP. É PP dos quatro costados”. No entanto, Casado talvez não tenha achado piada nenhuma ao ouvir o seu grande rival, Alberto Núñez Feijóo, o todo-poderoso barão do PP na Galiza, gabar tão efusivamente Ayuso – “uma palavra é suficiente: espetacular”, terá dito numa reunião da direção, segundo fontes do El País – quando ainda recentemente questionava a sua liderança.

 

Participação histórica

Mesmo o eleitores madrilenos mostraram noção de que, nas eleições de terça-feira, estava em jogo muito mais que o Executivo da capital estapanhola – a ida às urnas foi massiva, com uma participação histórica de 76,25% dos eleitores, o valor mais alto de sempre, longe dos 68,08% de 2019.

À partida, não pareciam umas eleições particularmente propícias a grande participação. Com a covid-19 à solta – foram registados 782 novos contágios só na capital, esta terça-feira, com 19 mortes – e a obrigação de grandes medidas de higiene e distanciamento, seria de esperar que muitos madrilenos perdessem a vontade de ir às urnas.

Contudo, a pandemia parece ter sido o grande motivador para muito eleitores, dado que muita da mensagem da vencedora girou à volta do assunto. Aliás, as restrições aceites por Ayuso face à covid-19 não são só são muito mais relaxadas que o recomendado pelo Governo, como se distinguem até das regras postas em prática noutras comunidades governadas pelo PP.

No entanto, não é apenas a recusa de medidas de saúde pública que Ayuso traz para cima da mesa. No seu programa promete-se também “a maior descida de impostos na história da comunidade autonómica de Madrid”– isto apesar da capital ter o maior rendimento per capita do país, mas ter as menores receitas per capita, segundo dado do Institituto Valenciano de Investigaciones Económicas.

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