16/6/21
 
 
Afonso de Melo 06/05/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Cicatrizes que gritam

Nunca ninguém esquecerá o carinho que ficou por dar e que provavelmente nunca mais tornará a aquecer as palmas das nossas mãos.

O calcutá, minha índia em lisboa, Rua do Norte, no Bairro Alto, voltou a abrir as portas e delas saíram para a rua borboletas cor-de-laranja de esperança. De certa forma, foi como deixássemos de morrer mais um pouco a cada dia. Afinal é para isso que a esperança serve, não é?

Quem sabe se, passo a passo, voltaremos a tirar da maçaneta da vida aquela nota que dizia “Volto já!”, como se uma pressa de urinas nos tivesse obrigado a correr até ao quarto de banho mais próximo. Com a esperança regressam as pessoas as nossas vidas, embora eu esteja certo de que muitas há que jamais voltarei a ver. A doença deixou as suas cicatrizes. “Eu sei que as cicatrizes falam/Mas as palavras calam/O que eu não me esqueci...”

Provavelmente estamos ainda no tempo de calar, receosos que um deus maligno resolva lançar sobre a Humanidade uma nova maldição. “Eu sei que flores existiram/Mas que não resistiram/A vendavais constantes...” preciso de tempo para me olhar de alto abaixo, por dentro e por fora. Preciso tempo para vos olhar a todos de alto abaixo, irmãos e pais e filhos e companheiros de momentos infinitos. Somos nós os mesmos? Estamos só a fingir que nada se passou e que o sofrimento ficou escondido no fundo de um punho fechado.

Animais Feridos, cantava a Bethânia. “Eu sei quanta tristeza eu tive/Mas mesmo assim se vive/Morrendo aos poucos por amor/Eu sei, o coração perdoa/Mas não esquece à toa/E eu não me esqueci”. Nenhum de nós esquecerá as correntes com que fomos algemados nem a proibição dos passos e dos gestos. Nunca ninguém esquecerá o carinho que ficou por dar e que provavelmente nunca mais tornará a aquecer as palmas das nossas mãos. Uma porta abre-se e um bando de borboletas cor de açafrão ocupa a Rua do Norte a caminho do Cais do Sodré e do rio que nos ensinou a fugir daqui, desta prisão em nome de país. As cicatrizes falam. As cicatrizes gritam! 


Especiais em Destaque

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×