23/7/21
 
 
José Cabrita Saraiva 06/05/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

O silenciamento seletivo em defesa da liberdade

Não sendo adepto de Twitters e quejandos, não posso deixar de reconhecer a sua importância nos tempos imediatistas que vivemos. E a entrada de Trump no Index dos autores proibidos constituiu, como é evidente para todos, um rude golpe nas suas aspirações, se não uma sentença de morte política.

Nunca aderi ao Twitter, por achar que o limite máximo de 200 caracteres o tornava demasiado superficial, efémero e descartável. É certo que grandes frases e reflexões lapidares se cunharam em menos do que isso. Basta pensar no célebre monólogo de Hamlet (dez palavras) ou na conclusão de René Descartes (três palavrinhas apenas!). Mas isso não foi na era da internet.

Outrora rei do Twitter, Donald Trump (ou alguém por ele) era exímio nessas frases bombásticas, rápidas e incisivas, curtas e impactantes, sem grande substância mas capazes de produzir efeitos devastadores. O_Twitter ajudou-o a conquistar notoriedade e influência, e possivelmente contribuiu para que chegasse a Presidente dos Estados Unidos. Mas depois, quando já era claro que ia cair em desgraça, não só se demarcou como cancelou a sua conta oficial. O_Facebook fez outro tanto. Ostracizado desse meio onde se dava tão bem, banido das redes sociais, Trump criou agora uma espécie de blog para passar as suas mensagens.

Não sendo adepto de Twitters e quejandos, não posso deixar de reconhecer a sua importância nos tempos imediatistas que vivemos. E a entrada de Trump no Index dos autores proibidos constituiu, como é evidente para todos, um rude golpe nas suas aspirações, se não uma sentença de morte política.

Até admito que isso possa ser uma boa notícia. Sem Trump, possivelmente o mundo fica mais seguro. Mas assusta-me que uma entidade semi-anónima, quase incorpórea, defina quem tem e quem não tem o direito de veicular as suas ideias. Além disso, não é verdade que, do Cristianismo ao Islão, da revolução francesa ao comunismo, as intenções mais piedosas conduziram aos crimes mais hediondos?

Posso garantir que não tenho a menor simpatia por Donald Trump, pela sua arrogância e boçalidade. Mas tenho ainda menos simpatia por este silenciamento seletivo, cínico e clínico que uns quantos oportunistas nos querem impingir como um antídoto miraculoso para as maleitas da democracia e um escudo para defender a liberdade.


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