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Fórmula1 vs MotoGP. Queridos inimigos

Fórmula1 vs MotoGP. Queridos inimigos

DR João Sena 05/05/2021 21:55

A Fórmula 1 e o MotoGP estiveram em Portimão e mostraram o melhor de dois mundos. O Mercedes “esmagou” com a volta mais rápida, mas foi batido pela Ducati na velocidade máxima. Um thriller vivido ao milésimo de segundo e a velocidades incríveis.

Duas ou quatro rodas, quem é mais rápido na “montanha russa” algarvia? A moto de grande prémio acelera como um demónio e alcança velocidades insanas, superiorizando-se ao F1, mas quando analisamos uma volta completa, com curvas para todos os gostos, a situação muda de figura.

Primeiro há que perceber as características das máquinas. O F1 tem motor 1.600 cc turbo, auxiliado por dois motores elétricos, enquanto a moto não vai além dos 1.000 cc. O monolugar pesa 752 quilos, com piloto a bordo, a moto pesa 157 quilos sem piloto. Os pneus do F1 têm 270 mm de largura à frente e 405 mm atrás, no MotoGP o pneu dianteiro tem 125 mm e o traseiro 205 mm. Ter quatro pneus é uma vantagem incomparável, a isso junta-se o facto dos pneus do F1 estarem em permanente contacto com o piso, na moto nem sempre é assim.

A pista de Portimão tem 15 curvas, algumas assustadoramente rápidas e “cegas”, o que aumenta o desafio e merece a aprovação dos pilotos. “É extremamente desafiante, e os desníveis são incríveis. Há zonas onde não sabemos onde está a pista. Este circuito merece ficar no mundial”, referiu o heptacampeão do Mundo de F1, Lewis Hamilton. Miguel Oliveira é uma referência no MotoGP e considera “o circuito fantástico e muito técnico. Tem grande variedade de curvas e exige travagens muito fortes. É uma pista especial, devemos ter muito cuidado com o acelerador para ter a máxima tração”.

A melhor volta deste ano foi realizada precisamente por Hamilton (Mercedes W12) em 1.17,968 m, à média de 214,841 km/h. Nas duas rodas, Fabio Quartararo (Yamaha YZR-M1) estabeleceu um novo recorde com 1.38,862 m, à média de 167,2 km/h. Ou seja, há uma diferença de 20,9 segundos entre os dois, que significa que quando Hamilton está a passar a linha de meta, Quartararo está a sair da curva 13 (a antepenúltima do circuito).

VOAR EM DUAS RODAS Se a volta mais rápida é do F1, já a velocidade máxima foi obtida por uma moto. Johann Zarco (Ducati) “voou” a 351,7 km/h no primeiro setor da pista – ele que já tinha batido o recorde de velocidade máxima com 362,4 km/h no Qatar!

A telemetria indica que Esteban Ocon (Alpine) entrou na reta da meta a uma velocidade superior e que travou mais tarde no final, mas o melhor que conseguiu foi uma velocidade máxima de 333,1 km/h (-18,6 km/h).

Mas há outros aspetos onde fazem jogo igual. Em aceleração, ambos precisam de escassos 2,6 s para fazer 0-100 km/h, já nos 0-200 km/h a moto faz 4,8 s contra 5,2 s do F1, isso deve-se ao fato de os monolugares terem um sistema eletrónico de controlo da aceleração, ao passo que na moto a aceleração é livre. Nos impressionantes 0-300 km/h, o F1 dispara em 10,6 s e a moto precisa de 11,8 s. Olhando para os números, conclui-se que a moto de grande prémio é mais rápida em velocidade de ponta, mas, no final de uma volta, o F1 vence.

Há fatores que explicam a diferença entre as duas e quatro rodas. Pneus mais largos, maior carga aerodinâmica, baixo centro de gravidade, suspensões sofisticadas e maior tração deixam o monolugar literalmente agarrado ao asfalto. Há curvas que os pilotos fazem a fundo ou, simplesmente, aliviam o acelerador, ao passo que os pilotos de moto travam em quase todas – passam 23 por cento do tempo da corrida a travar ao passo que na F1 usam os travões em 17 por cento do tempo.

AERODINÂMICA E TRAVAGEM FUNDAMENTAIS Como exemplo, podemos dizer que no final da reta da meta (curva 1), onde o apoio aerodinâmico é fundamental, Hamilton passa a 235 km/h e Quartararo fica-se pelos 115 km/h. Na zona mais lenta do circuito (curva 5), o piloto da Mercedes curva a 85 km/h e o da Yamaha a 74 km/h. A diferença acentua-se nas zonas de média/alta velocidade (curva 7), com Hamilton a curvar a 262 km/h e Quartararo a ficar-se pelos 137 km/h. Na zona rápida que antecede a entrada na reta da meta (curva 15), Hamilton foi cronometrado a 275 km/h e Quartararo a 193 km/h.

Outro aspeto onde há uma diferença abismal é na travagem. O F1 coloca toda a potência de travagem nas quatro rodas e as distâncias são muito curtas. Um piloto de MotoGP começa a travar 150 metros antes de uma curva rápida, e precisa de usar o corpo com sabedoria e risco para ajudar a reduzir a velocidade. A menor capacidade de travagem da moto dificulta a vida aos pilotos, mas favorece o espetáculo na medida em que possibilita mais ultrapassagens do que na F1.

Outra importante diferença é a força centrifuga (G) a que os pilotos estão sujeitos, que chega aos 5,1g no F1 e a 1,8g na moto.

A visibilidade é também completamente diferente. O piloto de moto está mais afastado do chão e tem um capacete mais largo, tendo por isso melhor visibilidade periférica.

Independentemente da máquina e da pista, o mindset dos pilotos é sempre o mesmo. Como afirmou John Surtees, o único piloto campeão do Mundo de F1 e Moto “se tinha rodas era para ganhar”.

 

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