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China, temos um problema. Parte de foguetão em queda para a Terra deixa meio mundo em alerta

China, temos um problema. Parte de foguetão em queda para a Terra deixa meio mundo em alerta

AFP Marta F. Reis 05/05/2021 13:48

Agência Espacial Europeia admite haver pouca informação pública sobre o design da parte do aparelho que deverá reentrar na atmosfera entre sábado e o início da próxima semana. Faixa onde poderão cair destroços abrange continentes e oceanos e inclui também Portugal.

Os olhos e os telescópios estão apontados para o céu nos próximos dias à procura de sinais do que poderá ser a reentrada na atmosfera do objeto mais pesado nos últimos 20 anos, com as agências espaciais a reunir o máximo de informação possível. Em causa está um aparente problema com foguetões chineses sobre o qual continuam a não existir explicações oficiais: na passada quinta-feira, a China enviou para o Espaço o primeiro dos três módulos da sua estação espacial, batizado de Tianhe – “harmonia celestial”. Mas o que se seguiu parece em pouca sintonia com objetivos mais terrestres de conter o problema do lixo espacial e evitar reentradas descontroladas. O foguetão Long March 5B conseguiu com sucesso colocar o módulo em órbita mas o seu núcleo ficou a dar voltas à Terra numa órbita baixa (160 a 375 km da superfície terrestre, como já tinha acontecido num lançamento prévio em maio do ano passado), onde não se consegue manter e por isso começou a cair gradualmente em direção à terra.

Segundo o site SpaceNews, que chamou a atenção para a reentrada do objeto no final da semana passada, havia o rumor de que o núcleo pudesse iniciar uma manobra ativa para sair da órbita terrestre, o que não aconteceu nem foi referido pelas autoridades chinesas.

Em maio, um primeiro lançamento com este modelo de foguetão tinha acabado da mesma maneira e os destroços caíram na Costa do Marfim, onde não houve nenhuma vítima. Uma das imagens que circularam nas redes sociais mostrava um cano com 12 metros encontrado na vila de Mahounou.

Jonathan McDowell, astrofísico na Universidade de Harvard, que tem estado de novo a acompanhar a informação sobre o foguetão no Twitter, chamou na altura atenção para o desenho da missão. “Teriam um plano de retirada de órbita que correu mal?”, questionou em declarações à Verge. “Nunca o referiram, por isso somos forçados a assumir que não tinham”.

Um ano depois, de novo a incerteza Questionada ontem pelo i sobre o que esperar nos próximos dias, a Agência Espacial Europeia remeteu para o último ponto de situação, atualizado esta terça-feira, em que assume ter pouca informação sobre as características do foguetão e sobre a parte em causa, o núcleo CZ-5B, o que torna ainda mais difícil fazer previsões sobre o que poderá acontecer na sua reentrada. “O design não está descrito em detalhe em fontes públicas, mas estima-se que seja cilíndrico com 5 metros por 33,2 metros e uma massa de 18 toneladas métricas”, refere a agência.

Atualmente, e com base na trajetória e velocidade do decaimento da órbita, o departamento de destroços espaciais da ESA estima que a reentrada ocorra no dia 9 de maio pelas 18h23 (hora de Portugal), mas admite-se uma janela de mais ou menos 26 horas, o que coloca a hipótese de acontece entre 8 e 10 de maio, portanto algures entre sábado e o início da próxima semana.

“Todas as previsões têm incertezas significativas”, reforça a agência ao longo do documento disponibilizado à imprensa. A ESA sublinha que mantém um serviço permanente de previsão da reentrada online e que, além disso, fornece dados mais detalhados às agências nacionais de aviação civil dos estados-membros.

Num evento como este, não é possível prever com antecedência onde será a reentrada, nem oito horas antes, diz a agência europeia, mas em termos gerais a ESA indica que dada a inclinação da órbita, de aproximadamente 41 graus em relação ao eixo da Terra, podem excluir-se como zonas de possível impacto de destroços que “sobrevivam” à reentrada tudo o que esteja acima dos 41 graus de latitude norte e abaixo dos 41 graus de latitude sul. O que deixa pelo meio (ver mapa) praticamente metade do globo, incluindo todo o continente americano abaixo de Nova Iorque, sul da Europa, todo o continente africano, Ásia e a maior parte dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

Sul de Portugal na zona de possível impacto No que diz respeito aos estados membros, a nota informativa da ESA refere que Grécia, Espanha e Itália estão assim na possível zona de impacto mas questionada pelo i, a agência esclarece que em Portugal a linha dos 41 graus norte é cruzada cerca de 20 quilómetros a Sul do Porto, pelo que o resto do país abaixo desta marca também está na zona de possível impacto. O i tentou perceber junto do Ministério da Defesa Nacional se está a em articulação com a ESA e se foi entretanto solicitada informação à China, não tendo tido resposta.

Na próxima semana vai ser inaugurado na ilha Terceira, nos Açores, um novo centro de operações relacionado com a participação portuguesa no programa Space Surveillance and Tracking (SST), que é central na monitorização deste tipo de eventos e de outros detritos espaciais que possam constituir perigo quer para a Terra quer para as operações no Espaço, sejam satélites ou astronautas.

A mensagem da ESA, entre a falta de mais dados, a incerteza das previsões e a inevitabilidade da reentrada, é de que a probabilidade de a queda causar danos é baixa: a maioria dos objetos são praticamente destruídos na reentrada na atmosfera, sendo que podem subsistir partes de motores, por exemplo, feitos de materiais mais resistentes. Aqui a dúvida é que não se conhecem detalhes do design da parte do foguetão em queda livre. “Assim, é impossível fazer uma avaliação de risco mais detalhada”, refere a agência europeia, ressalvando no entanto que estes são “eventos raros e como 75% da superfície da Terra é coberta por água e grandes partes de terra não são habitadas, o risco individual é de várias ordens de magnitude abaixo do que são riscos comummente aceites, como aqueles com que nos confrontamos a conduzir ou na vida do dia a dia.” Na última década, diz ainda a ESA, cerca de 100 satélites e partes de foguetões rentraram na atmosfera, com uma massa total de 150 toneladas.

Há 42 anos, nem os pescadores foram para o mar Em 1979, a queda da estação espacial norte-americana Skylab para a Terra, depois de seis anos de vida no Espaço, fez correr tinta e receios, mesmo com muito menos velocidade na informação do que agora.

Um poema de um “poeta-repórter” brasileiro, José Soares, que é possível encontrar na internet e foi escrito em Recife em julho daquele ano, deixa um relato do medo do povo. “Disseram que o satélite caía no mar/ ninguém ia mais à praia / com medo de se banhar. Os pescadores, coitados /não entravam para pescar”, relata.

O Skylab caiu, mas foi só um pedaço, como escreveu também Soares. A estação de 79 toneladas ficou destruída na reentrada às primeiras horas do dia 12 de julho mas ainda assim caíram destroços em Esperança, na Austrália, sem atingir ninguém – segundo as notícias da época, recuperadas nos últimos dias, um dos habitantes conseguiu até uma recompensa de 10 mil dólares por ter levado o primeiro pedaço ao San Francisco Examiner. “Resumindo, isto é maior do que qualquer coisa que tenha acontecido recentemente, mas não é maior que o Skylab”, escreveu Jonathan McDowell esta segunda-feira. A Convenção sobre Responsabilidade por Danos Causados por Objetos Espaciais, de 1972, determina que as agências sejam responsáveis pelo pagamento dos danos causados, mas, segundo o investigador, não existe uma obrigatoriedade de adotar medidas preventivas, o que tem sido seguido mas no caso destes foguetões chineses parece não estar a ocorrer.

 

 

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