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Envolvido em escândalo sexual, biógrafo de Philip Roth fica sem agência e sem editora

Envolvido em escândalo sexual, biógrafo de Philip Roth fica sem agência e sem editora

Diogo Vaz Pinto 04/05/2021 18:46

A 6 de abril saiu a tão antecipada biografia autorizada do gigante das letras americanas desaparecido em 2018. Depois de elogiado pela generalidade da crítica, o livro de mais de 800 páginas tornou-se um best-seller instantâneo. Mas agora que o biógrafo, Blake Bailey, foi acusado de assédio e de abusos sexuais, é preciso perceber se haverá uma editora que lhe pegue.

 

Ninguém sabe com que novos desastres contamos ao fechar as páginas de um livro. A luz não viaja bem de um lado ao outro, e a tradução tende a fazer demasiadas cedências. O mundo encarado nessa luz variável, cediça que é a sua, tende a obstar a representações mais ousadas, e acontece ali os gestos que se ensaiou na imaginação tropeçarem para lá do desejo e da fantasia para darem por si num lugar que lhes é estranho, num desengonçado avanço sobre alguém que não quer, nunca quis. Não se deve contar com a vida para ser tão satisfatória nas suas intimações à devassidão como o conseguem ser as mais lascivas obras romanescas, essas escritas pelo tipo de autores que gostam de se incriminar. Entre uma coisa e outra, impõe-se a fronteira do consentimento. São dois mundos e vivem ambos melhor conhecendo bem a distância que os separa, ainda que certos reflexos se aventurem amiúde nos domínios vizinhos, seja causando distúrbios e desacatos, seja servindo para produzir inesperadas iluminações. Philip Roth debatia-se há muito com o fedor da má consciência, essa crise sucessória com a perda de influência da religião, e que adoptou os piores dos seus hábitos, a começar pelas suas purgas, pelo seu desejo de espalhar a culpa, de prosseguir caças às bruxas sob a bandeira do moralismo. E depois de a sua biografia autorizada – Philip Roth, The Biography – ter escalado aos tops de vendas, sendo recebida de forma esfuziante nas páginas da imprensa literária de língua inglesa, o autor desta, Blake Bailey, viu-se há dias envolvido num escândalo sexual que, mesmo se para já pode prejudicar as vendas do livro, irá dotá-lo desse toque de malditismo que anima as hostes que se dirigem para as zonas mais pantanosas da literatura, essas onde se zomba dos parâmetros de bom comportamento que é bom observar do outro lado. Foi na terça-feira que a editora do livro, a Norton anunciou que iria deixar cair o livro. Com o seu selo não chegariam novos exemplares às livrarias, nem nos próximos dias nem em qualquer outro momento no futuro. Também o livro de memórias de Bailey, publicado em 2014 pela mesma editora, tem agora como destino a guilhotina. Entretanto, os direitos para a edição portuguesa foram comprados pela Dom Quixote, que entregou a tradução a Francisco Agarez (tradutor de boa parte dos livros de Roth) e que mantém o propósito de editar o livro, no mês de outubro, ao contrário da Companhia das Letras, que preferiu suspender a publicação no Brasil.

Dois dias antes da reacção da Norton, fora a agência literária que representava Bailey que se quis ver livre dele como da peste, isto ainda antes de terem chegado aos jornais as primeiras alegações de mulheres que dizem ter sido alvo da sua predação sexual. Na sua maioria são antigas alunas de Bailey, isto antes da sua segunda vida como autor de aclamadas biografias de gigantes como Richard Yates e John Cheever, na década de 1990, quando dava aulas ao oitavo ano num liceu de Nova Orleães. Dizem elas que ele as cercava de atenções, abrindo a porta a um futuro envolvimento sexual assim que estivessem para lá da fronteira do consentimento legal. De acordo com as alegações que vieram a lume na secção de comentários de um blogue literário antes de chegarem às páginas dos jornais, Bailey terá prosseguido depois alguns desses encontros sexuais e, num dos casos, terá forçado uma das suas ex-alunas a ter relações sexuais com ele. Eve Crawford Peyton diz que foi violada pelo seu antigo professor de liceu quando tinha 22 anos e que, na altura, Bailey lhe disse que já tinha vontade de o fazer desde que ela andava no oitavo ano.

Uma outra mulher, ligada profissionalmente ao meio editorial, alegou, entretanto, que foi violada por Bailey e que o episódio se deu já em 2015. Valentina Rice, de 47 anos, contou ao The New York Times que, numa estadia em casa do crítico literário Dwight Garner, o qual escreve para a secção de livros daquele jornal, Bailey entrou no seu quarto depois de ela se ter retirado, e que a violou enquanto ela repetidamente e enquanto chorava lhe pediu que parasse. Não terá sido sequer a primeira vez que foi dado conhecimento de algumas destas alegações àquele jornal e à editora de Bailey. Em resposta, o escritor de 57 anos veio negar as alegações, dizendo que recorrerá aos tribunais para limpar o seu nome.

Agora, e depois de a monumental biografia dedicada a Roth ter sido recebida como um grande acontecimento literário, algumas vozes têm apontado para a cumplicidade moral entre biografado e biógrafo no que toca aos aspectos mais questionáveis dos comportamentos daquele face às mulheres. Mas se as acusações de misoginia sempre assombraram e tanto agastaram Roth, e se agora há quem ponha em causa todo o alarido que cercou a edição da biografia, mesmo se a presunção de inocência não foi afastada, Bailey tem a vida em suspenso, e como um proscrito e um súbito pária, conta pelo menos com as denúncias daqueles a quem preocupa a forma como hoje se trafica a culpa, como se é culpado até prova em contrário, arrastado para um processo infernal em que até mesmo a absolvição apenas servirá como um consolo. Um dos escritores que se mostrou consternado com aquilo por que Bailey está a passar é David Rieff, que lança um ataque demolidor à agência literária e à editora que acusa de o terem sacrificado sem lhe darem a hipótese de se defender, no que não pode deixar de ser interpretado como uma inversão preocupante da presunção de inocência, passando agora a valer uma “presunção de facto da culpabilidade do autor”. Rieff diz que o que a The Story Factory e a Norton fizeram foi impor de maneira retroactiva uma cláusula moral nos seus contratos com Bailey, e adianta que se estas são hoje comuns nos contratos de patrocínio de atletas famosos com marcas de produtos desportivos, bastando que a reputação daqueles fique manchada para que estas possam suspender ou denunciar os contratos, a diferença, segundo Rieff, é que os autores não são atletas, e as agências literárias e as editoras não são meros patrocinadores comerciais. Por esta razão considera que aquilo de que se trata aqui é de um caso de censura, e que o facto de a agência e a editora em causa não terem em conta aquilo que as diferencia das tais marcas comerciais é um sinal claro da “inconsciência moralista dos tempos em que vivemos”. O facto é que esta “cláusula moral” se tornou padrão em muitos contratos editoriais, e a Norton não se limitou a encorajar Bailey a procurar outra editora para os seus livros, prescindiu até de aguardar por uma apreciação das alegações num tribunal, com a sua presidente, Julia Reidhead a vir enfatizar o compromisso da editora em ouvir e respeitar as vozes das mulheres e de diversos grupos, reconhecendo o falhanço histórico da nação para com eles. Assim, Reidhead não apenas virou costas a Bailey como, para lavar as mãos do assunto, prometeu doar o valor do adiantamento que lhe foi pago a organizações que apoiam as vítimas de abusos e assédio sexual. Mais do que virar-lhe as costas, a editora dá um passo decisivo na condenação do autor que até aqui representava, e se isto se tornou a regra há razões para levar a sério as denúncias que têm sido feitas contra a atmosfera McCartista que tem estado a fermentar num regime que, sendo absolutamente avesso a todo o risco, está a abrir caminho aos piores mecanismos que as religiões puseram em prática no que toca às suas estratégias para coagir através de instrumentos de tortura psicológica  quem quer que fosse visto como um obstáculo ou um inimigo. Um fervoroso ateísta, Philip Roth bem podia ter orquestrado como enredo do último dos seus romances esta hipótese diabólica, uma forma de sucesso literário que carreta a própria condenação à fogueira. Se ele sempre receou como uma das formas de punição póstuma o ficar preso para a eternidade a uma biografia que lhe fosse hostil, se numa entrevista chegou a citar Oscar Wilde quando este disse que a biografia dava uma nova dimensão ao terror de morrer, teria de conceber também a ironia mortífera que haveria de corresponder no reverso dessa hipótese. Depois de ter feito de tudo para encontrar um biógrafo que não o penalizasse e que e abstivesse de tecer juízos sobre os aspectos mais sórdidos da sua vida íntima, Roth teria de admitir que haveria um preço a pagar pela cumplicidade que tanto procurou, e que o fez rejeitar um após outro os candidatos que lhe foram surgindo antes de finalmente ser seduzido por Bailey. Ao longo da sua vida, Roth provou ter uma boa dose do que há de melhor e pior nos homens, podia ser mesquinho, tremendamente egoísta e vingativo da mesma forma que muitas vezes soube ser extremamente generoso e leal àqueles que lhe eram próximos. E se cada forma de inteligência produz uma forma de estupidez que lhe é própria, no génio da sua obra está inscrita essa dualidade, essa inversão que da graça de um instante espia o seu reflexo na montra da danação. Roth estava certamente entre esses autores que reconheciam como, nos nossos dias, há uma forma de ressentimento que tem ganho cada vez mais preponderância e que poderá ir bem mais longe do que foram as religiões, com um bando de moralistas a assumirem este sacerdócio da má consciência, numa espécie de religião secular, com os seus dogmas, as suas unções e excomunhões, perseguindo uma pureza impossível, num regime de exclusão que acaba por condenar como heresiarcas os seus próprios membros, e a qual aparece hoje como o inimigo mais sério da liberdade de expressão.

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