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Luto em Torres Vedras após morte de autarca. "Aparentemente era uma pessoa bem disposta"

Luto em Torres Vedras após morte de autarca. "Aparentemente era uma pessoa bem disposta"

Facebook/Carlos Bernardes Felícia Cabrita João Amaral Santos e Marta F. Reis 04/05/2021 08:33

Carlos Bernardes era presidente da câmara desde 2015. Investigação aponta para suicídio. Últimos anos marcados por processo de plágio, que segundo a família viveu como uma humilhação.  

Por Felícia Cabrita, João Amaral Santos e Marta F. Reis

O presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras morreu esta segunda-feira aos 53 anos de idade. Carlos Bernardes era natural de Torres Vedras e presidente da Câmara desde 2015, tendo em março anunciado a sua  recandidatura. “Dentro da minha disponibilidade, continuo a servir o partido e a minha terra”, disse na altura o autarca, que era também presidente da federação regional do Oeste do PS. 

Segundo o i apurou, a morte violenta está ser investigada como suicídio e a investigação a cargo da Polícia Judiciária afasta, até aqui, o envolvimento de terceiros. A resposta só será dada após o resultado da autópsia mas o exame pericial ao local dos factos, feito durante tarde de ontem, não apontou nesse sentido. O autarca do PS debatia-se há algum tempo com uma depressão e estava a ter acompanhamento médico e a ser medicado. Ontem não apareceu para trabalhar. A ausência durante todo o dia na câmara foi estranhada. Após várias tentativas de contacto, ligaram do município para a mulher do autarca, que, deslocando-se a casa, o descobriu já sem vida, por volta das 16h. Tinha ferimentos no pescoço provocados por uma arma branca – um golpe na jugular (uma veia do pescoço) terá sido fatal. 

Fonte da PJ disse ao i que, “embora não seja comum a utilização de uma faca para cometer suicídio, quando o quadro psicológico é instável e o domínio da realidade distorcido tal pode eventualmente acontecer”. Todos os cenários estão em aberto, mas, neste momento, “não há indícios da participação de terceiros” na morte do autarca, avançou a mesma fonte. A última pessoa a vê-lo ainda com vida terá sido a sua mulher que, como normalmente, saiu de casa esta manhã para ir trabalhar.

Uma vida na política com os últimos anos conturbados O Partido Socialista e município reagiram com pesar ao desaparecimento do autarca, desde cedo ligado à vida política em Torres Vedras. 

O primeiro cargo foi o de secretário da Junta de Freguesia do Turcifal, entre 1989 a 1997, tinha então 30 anos. Entre 1994 e 1997 foi adjunto e secretário do Gabinete de Apoio Pessoal ao Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. 
No ciclo seguinte seria vereador do pelouro de Turismo, a sua área de formação, na Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço. Entre 2003 e 2005 foi vereador da Câmara Municipal de Torres Vedras com os pelouros do ambiente e serviços urbanos e durante dez anos vice-presidente do município, que passaria a liderar em 2015, substituindo Carlos Miguel, que renunciou ao mandato para assumir funções no Governo. 

Nos últimos anos a vida pública de Carlos Bernardes ficou marcada pela polémica em torno a sua tese de doutoramento, com o título “As Linhas de Torres. Um destino turístico estratégico para Portugal”. Em 2017, Jorge Ralha, ex-vereador independente pelo PS, publicou um artigo na jornal local Badaladas denunciado vários casos de plágio na obra. Carlos Bernardes seria alvo de uma denúncia ao Ministério Público e foi acusado em 2019 por plágio de 40 textos originais na tese. No início do ano passado foi condenado a uma multa de 5 mil euros pelo crime de contrafação na tese, tendo a sentença sido devolvida no passado mês de janeiro à primeira instância pelo Tribunal da Relação de Lisboa por vícios encontrados decisão e não pela questão fundamental, o plágio. Já no início de abril a primeira instância, apesar reconhecer esses vícios, manteve a condenação por plágio. 

Ao i, o advogado do autarca, Tiago Bastos, explicou que estavam a preparar o recurso e mostrou-se surpreendido. “Nunca pensei que este caso horrível pudesse acontecer”, disse o advogado. “Não o tinha na conta de uma pessoa deprimida. Aparentemente era uma pessoa bem-disposta, estava confiante de que iria ser reeleito e contente com a forma como tem decorrido o combate à pandemia no concelho”, disse Tiago Bastos. Já segundo familiares ouvidos ontem pela PJ, Carlos Bernardes viveu o processo como uma situação de “grande humilhação”, acrescentando-se a pressão dos últimos meses da pandemia. 

A Câmara Municipal de Torres Vedras decretou esta segunda-feira luto municipal durante cinco dias. “Empenhado na defesa do ambiente e da sustentabilidade, colocou Torres Vedras num lugar de relevo a nível nacional e internacional. Era embaixador Quality Coast, membro do Comité Consultivo Político da CIVITAS Initiative e Embaixador Green Destination para a Europa”, referiu o município. Numa nota publicada online, também o Presidente da República enviou condolências à família de Carlos Bernardes, estendendo-as ao município. 

O nome do autarca fica associado a iniciativas na promoção da sustentabilidade e obras como ciclovias. O último projeto, apresentado em abril pelo município, visa atingir a neutralidade carbónica em Torres Vedras em 2030, antecipando em 20 anos a meta estabelecida na União Europeia.  

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