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Teletrabalho na pandemia: o que fica de um ano à experiência?

Teletrabalho na pandemia: o que fica de um ano à experiência?

Dreamstime Sara Porto 03/05/2021 14:08

O teletrabalho – para quem pode – vai continuar a ser obrigatório mas algumas profissões já voltaram ao normal. Segundo o INE, no último trimestre de 2020, antes do confinamento deste ano, 597,5 mil portugueses ainda continuavam em teletrabalho, a grande maioria (mais de 400 mil) devido à pandemia. Eis quatro testemunhos de como foi desafiante, dos lados negativos e também dos positivos.

Assunção Araújo - 58 anos - Professora de Português

"Sentia que estava a dar aulas para uma parede"

Quando soube que íamos trabalhar a partir de casa, entrei em pânico e interroguei-me: “Agora o que é que eu faço?”. Tive de fazer uma aprendizagem de raiz, em tempo recorde. Não sabia como funcionar, por exemplo, com a ferramenta básica que é a classroom, não estava habituada a funcionar com o Zoom, mas lá consegui apanhar o comboio em andamento. Foi muito complicado de gerir, até porque todas as aprendizagens que fiz foram fora do tempo em que estamos a leccionar, em webinars, e como era tudo muito novo, foi muito cansativo e desgastante. Como professora, as diferenças entre o trabalho presencial e o teletrabalho foram abissais. Estar em teletrabalho a leccionar a miúdos que têm pouca autonomia, que ainda são muito “tenrinhos”, para estas andanças, não é tarefa fácil. Perdeu-se o contacto presencial, nós não conseguimos validar as aprendizagens... Acho que para um professor que está habituado a “pisar o palco” diariamente e a ter uma relação de muita proximidade com os seus alunos, a falta do contacto humano é muito difícil. Nem as carinhas deles nós víamos no primeiro confinamento, não era obrigatório. Havia toda uma frieza que me dava a sensação de estar a dar aulas para uma parede, só tinha quadradinhos pretos à frente. O silêncio dominava, eu não via ninguém, não ouvia ninguém e acabava por ser muito desmotivador. Na sala de aula, basta olharmos para a cara de cada aluno, para que percebamos se ele está a apreender o essencial, ou se tem alguma dúvida. E depois a carga horária que me obrigava a manter-me sentada em frente ao computador desde manhã até de madrugada, altura em que me rendia de cansaço. Para que pudéssemos dar feedback aos nossos alunos e perceber se estavam ou não a apreender as coisas, tínhamos de pedir vários trabalhos. É claro que isso, em sala de aula, se faz de uma forma muito mais rápida. Aqui, não! Foram muitas, muitas horas com os olhos no computador. É mesmo de enlouquecer de exaustão. A única coisa que retiro de benéfico foram as minhas aprendizagens pessoais, nomeadamente em termos tecnológicos. Neste segundo confinamento trabalhei de uma forma mais rápida e mais ágil. Mas quando falamos deste tipo de trabalho com miúdos, não vejo quais os benefícios. Só deve ser implementado em situações de emergência como as que vivemos.

 

Sérgio Penajoia - 34 anos - Personal Trainer

"Ao início problemas da net tiravam-me do sério"

Fui enviado para casa cerca de três semanas depois de ser declarado o primeiro estado de emergência. Nessa altura estava com muito trabalho e confesso que até me soube bem parar e ter umas pequenas “férias”. Depois, comecei a planear treinos para que os meus alunos conseguissem treinar sozinhos em casa e, uns tempos mais tarde, iniciei os treinos online. Resolvi então adquirir ferramentas para melhorar a qualidade de som e imagem do meu material, contactei os alunos para perceber quem estaria interessado ou não a participar e, desde então, não parei. Nesta área sentem-se muito as diferenças entre trabalhar presencialmente e em teletrabalho. Em primeiro lugar, a comunicação com o aluno torna-se mais difícil. No ginásio, o estímulo visual e o próprio toque para corrigir posturas, são bastante importantes e ao fazê-lo online, não existe essa possibilidade. Em teletrabalho tudo depende das informações e feedbacks que damos. Temos de ter a atenção redobrada na maneira como passamos os exercícios, porque a mensagem tem de ser clara e eficaz, para que o aluno consiga, “autonomamente” fazer sempre tudo em segurança. Depois, muitos alunos, foram apanhados de surpresa, não tinham material de treino em casa, e por isso, foi necessário improvisar, ou com garrafas e garrafões, ou pacotes de leite, cadeiras e lençóis… Por fim, temos sempre a limitação da internet, que caso seja má, a imagem e o som acabam por prejudicar as “aulas”! Acho que isso foi o que mais me dificultou a vida. No início tinha mesmo muitos problemas de internet, tirava-me do sério, pois não estava com o mindset preparado para esses contratempos! E depois lá está, acabei por resolver isso e ajustar os treinos mediante as pequenas coisas disponíveis! Pode ter sido um bocadinho complicado na fase inicial, agora tenho a certeza que o teletrabalho me fez adquirir ferramentas importantes, muito úteis para todos os personal trainers.  Outra coisa boa nisso tudo, foi a expansão que nos deu. Conseguimos chegar a alunos de outros países e agora sabemos que, se um aluno se tiver de deslocar em trabalho, ou for de férias, pode continuar a treinar, sem interromper o processo do treino.

 

 

Inês Espinhal - 27 anos - Terapeuta da fala

"A principal dificuldade foi não estar presente"

Iniciei o acompanhamento dos utentes em teleterapia desde o momento em que foi decretado o primeiro confinamento. As primeiras duas semanas foram as mais difíceis porque foi necessário realizar uma adaptação de todo o material de intervenção e da estrutura das sessões. Quanto aos horários eram mais fáceis de gerir porque tanto as famílias como eu tínhamos mais disponibilidade.
Graças ao desenvolvimento da tecnologia em saúde, a intervenção à distância é simétrica nos padrões de qualidade e exigência que caracterizam o trabalho do Terapeuta da Fala. Além disto, são inúmeros os estudos que comprovam a eficácia desta metodologia de intervenção. A teleterapia permitiu-nos encurtar distâncias e continuar a proporcionar os melhores cuidados a quem mais precisa. Contudo, tivemos de nos reinventar. O tempo de brincadeira passou a ter um ecrã̃ a dividir-nos e os abraços são dados ao longe e isso foi, sem dúvida, a maior diferença e também o maior obstáculo. Além disso, importa referir que, ainda que de fácil acesso, a internet não faz parte de todas as realidades familiares, o que inviabiliza qualquer oportunidade de continuidade de intervenção.   
A principal dificuldade foi mesmo a de não estar presente fisicamente com as crianças que acompanho. Nessas intervenções a relação terapêutica que se estabelece é muito importante, o sentarmo-nos no chão e brincar, o dar um abraço quando necessitam, o colo. Foi, sem dúvida, o mais difícil. E neste processo as famílias foram fundamentais. A teleterapia conseguiu chegar a famílias que não tinham oportunidade para ter Terapia da Fala em regime presencial. Trabalho com várias famílias espalhadas por Portugal Continental, Açores, Noruega e Dinamarca. Sinto também que me aproximou ainda mais das famílias que já acompanhava. Sinto que o teletrabalho me fez crescer enquanto profissional e pessoa. Ninguém nos preparou para fazer o nosso trabalho neste regime, mas era impensável deixar as famílias sem apoio. Foi um processo de superação, mas pelo qual me apaixonei. Hoje em dia mantenho a teleterapia com algumas crianças que não têm possibilidade de a fazer de forma presencial.  

 

Diogo Pires - 24 anos- Locutor na Mega Hits

"Tomei uma melhor noção do tempo que tenho"

Com a migração do estúdio para casa, tivemos a sorte de ter tido uma estrutura interna que nos suportou em todos os momentos. Desde a parte administrativa à técnica, todos os departamentos estiveram alinhados connosco para que sentíssemos o mínimo de diferenças com a mudança. Ainda assim, claro que houve diferenças mas foram essencialmente mudanças no processo criativo. Tecnicamente, foi-nos dado equipamento para conseguirmos fazer as nossas emissões em direto de casa. O importante era termos gente pronta a fazer companhia ao ouvinte num novo normal, completamente anormal. 
A principal dificuldade que senti foi mesmo essa de continuar a ser criativo. Essa é a vertente mais importante de quem faz o mesmo todos os dias. Se não és criativo, não puxas por ti, não te superas... No meu caso, falo para centenas de milhares de pessoas, durante três horas, todos os dias. Há alguma pressão em cima de mim na hora de entreter quem me ouve e que não espera menos que isso mesmo.  Como “fazer diferente” quando todos os dias são iguais e tão desprovidos de qualquer coisa interessante? Só se ouvia notícias com números atrozes (que agora, um ano depois, já nos parecem uma migalha) e estávamos mergulhados na incerteza de como superar tudo o que estava a acontecer no mundo. Mas apesar de todas as dificuldades de adaptação que as pessoas possam ter sentido, nomeadamente na área profissional, temos muito para estar felizes com o que mudou neste último ano: a tecnologia aproximou-se do dia-a-dia de cada um, percebemos que não precisamos de viajar meio país para estar numa reunião importante, nem que são precisas horas para uma reunião ter um desfecho. Houve e-mails que substituíram reuniões, houve pessoas que, por terem o total controlo do seu tempo, o aprenderam a usar da melhor forma. Eu mesmo tomei uma melhor noção do tempo que tenho e hoje se calhar já penso duas vezes antes de encher o meu dia com coisas que não me vão acrescentar. Mas acho que, o essencial deste último ano, está na forma como hoje entendemos as relações que temos com outras pessoas. A forma como sentimos a falta de falar, de estar com os outros, e quem são esses “outros”
 

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