7/5/21
 
 
Carlos Gouveia Martins 29/04/2021
Carlos Gouveia Martins

opiniao@ionline.pt

100 dias de Biden e 100 anos de aviso sobre a exploração do meio ambiente.

E, sabemos nós, é fundamental a palavra americana. O Mundo vê e ouve o Estados Unidos da América como líderes. Os 100 dias de Biden, como os 100 de Trump ou os 100 de Obama serão sempre um foco de luz e, espera o Mundo sustentável, devem ter este olho ambiental também.

Assinalamos os 100 dias da Administração Biden a liderar aquele que é considerado o País mais forte do mundo. Serve esta data, simbólica mas fortemente política para aquele país de  quase 350 milhões de habitantes e para todo o Mundo, para tocar em dois pontos que servirão de guia para esta reflexão: A ausência, mas sobretudo a necessidade de lideranças silenciosas, confiantes mas sobretudo lideranças disponíveis para aprender nesta altura em que tudo é “novo” neste planeta; E, igualmente, nesse processo de aprendizagem, a exploração do meio ambiente e a real necessidade de políticas públicas que, esses líderes mundiais, como Joe Biden, têm de trabalhar com humildade.

O democrata Joe Biden fez um discurso, diante das duas câmaras do Congresso, para assinalar os seus primeiros 100 dias de Presidente, focou as suas palavras no bem-estar social. Vale a pena ouvir. E, claro, este novo bem-estar social depende de algo fundamental a todos: O meio ambiente.

Hoje, a pandemia carrega às costas todas as culpas de tudo. O meio ambiente é uma das raras exceções dessas “costas largas” do vírus. A culpa é bem anterior ao vírus SARS-CoV-2.

Mais que 100 dias, vamos olhar à superfície de 100 anos.

Há registos anteriores, mas comecemos na década de 1920. Nesse período, para se criar consciência para a interdependência entre espécies animais e espécies vegetais, com foco naquela época para a proteção das aves, surgiu a Sociedade Audubon. Esta sociedade (em que não havia igualdade de género, eram quase só Mulheres) surge na mesma altura em que o Governo Americano também começa a sustentar o movimento e crescimento em torno dos parques nacionais americanos para “olhar ao verde”.

Posteriormente, em 1962, saía nas bancas americanas o livro Primavera Silenciosa de Rachel Carson. Um livro que colocou o Mundo a refletir sobre o perigo dos pesticidas e das substâncias químicas para os nossos recursos hídricos. Hoje, ainda está atual e, durante as últimas décadas, muitas conclusões de então foram tidas por base de estudo para soluções mais ecológicas.

Dez anos mais tarde, em 1972, com o Livro Os Limites do Crescimento surge a preocupação mais evidente, em publicação escrita, com o rápido crescimento da população mundial e, também dessa forma, do consumo a nível global que poderia levar a um esgotamento de recursos essenciais não renováveis (tão atual, não é?).

Na prática, sobre este assunto, para conhecimento de todos: em 1900 tínhamos 1,6 mil milhões de pessoas no planeta. Aquando deste livro, em 1972, o planeta já albergava 3,6 mil milhões de pessoas. Hoje, em 2021, estamos entre os 7 e os 8 mil milhões de pessoas. E, por exemplo, em 2050? Estimam os estudiosos que estaremos entre os 9 e os 10 mil milhões de habitantes do planeta terra.

Claro que que este livro e as suas conclusões estão relacionadas com a capacidade (ou não) do planeta suportar a produção de alimentos, ração animal e biocombustíveis suficientes para fazer face às necessidades da população. A preocupação da década de 1970 tinha fundamento à data e tem ainda hoje, meio século depois. Continuará a ter daqui a outras décadas.

Foi durante essa década de 70 que a Administração Americana de Nixon criou a Agência de Proteção Ambiental para que existisse, efetivamente, controlo sobre os danos no meio ambiente.

Por cá, na Europa, nessa década de 1970, acentuava-se a preocupação e o combate à poluição. A CEE tomava pela primeira vez medidas legislativas para proteger o ambiente e criava-se o conceito de poluidor-pagador assim como surgiam os Grupos de Pressão ambiental, como o Greenpeace.

Em Portugal, em 1970 também, vivíamos o “Ano Europeu da Conservação da Natureza” e abríamos legislação à Lei da Conservação da Natureza, nesse ano, e, um ano depois, em 1971, nasce a primeira área protegida de Portugal: O Parque Nacional Peneda-Gerês que veio com bónus. Trouxe a oficialização da Comissão nacional do Ambiente.

Cá, no nosso Portugal, entre 1980 e 1990, vivemos anos fundamentais a nível legislativo para além de diversas medidas para a proteção da Natureza. Foram décadas em que apareceram os primeiros Estudos de Impacte Ambiental, os primeiros Planos de Ordenamento do Território e ainda se criou a Reserva Ecológica Nacional (REN) com finalidade de proteger os recursos naturais, água e solo, e fazer a gestão territorial ao nível da conservação da natureza e biodiversidade. Sabemos bem que ainda hoje tem uma importância extrema.

Só em 2007 surge a Associação Portuguesa do Ambiente e em 2012 o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.

O mundo, sempre, e é uma constante, andou a uma velocidade superior à nossa nacional portuguesa. Avançou. Andou mais rápido e, em 2014, surgiam mais sinais de aviso ambiental alarmantes.

Precisamente no dia 2 de novembro de 2014, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, no país de Joe Biden ou Barack Obama, afirmava algo que ainda hoje não resolvemos e passo a transcrever um excerto dessas conclusões: “Há um fracasso na redução de emissões que pode ameaçar a sociedade com escassez de alimentos, crises de refugiados, inundações, extinções em massa de plantas e animais e uma alteração climática tão drástica ao ponto de poder ser perigoso ter exposição solar durante os períodos mais quentes do ano”. Foi dito por cientistas, especialistas e peritos ambientais. Envolveu uma década de estudos. Não é leviano.

Já em 2014, após esse e vários momentos e ciclos de debate ambiental, vieram várias soluções que as empresas deveriam implementar de imediato: 1- Pôr cobro ao desperdício; 2- mudar para energias renováveis como com energia solar e hidroelétrica; 3- criar responsabilidade e promover o feedback nestas questões.

Será que, em 2021, já estão normalizadas? Fica a questão.

Hoje, para além dessas e tantas medidas sustentáveis, é imperioso que os Governos, e os cidadãos também, os quase 8 mil milhões de todos nós, implementem, cumpram e façam cumprir medidas para melhorar muita coisa a nível ambiental.

E, sabemos nós, é fundamental a palavra americana. O Mundo vê e ouve o Estados Unidos da América como líderes. Os 100 dias de Biden, como os 100 de Trump ou os 100 de Obama serão sempre um foco de luz e, espera o Mundo sustentável, devem ter este olho ambiental também.

São várias, mas há pelo menos 10 questões ambientais tidas comumente (por vários estudos, autores, cientistas e entidades ambientais) que devem ser combatidos por Governos, Empresas e todos nós:

  1. Alterações Climáticas;
  2. Energia;
  3. Água;
  4. Uso das Terras e biodiversidade;
  5. Substâncias químicas, tóxicas e metais pesados;
  6. Poluição atmosférica;
  7. Gestão de resíduos;
  8. Camada de Ozono;
  9. Mar e reservas de peixe;
  10. Desflorestação.

 

Porém, nem tudo é fácil. Podemos pensar que isto é muito aceite, mas até o Acordo de Paris de 2016, o Tratado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, e os volte-faces mundialmente conhecidos, demonstram que há trabalho perante os negacionistas que existem.

Segundo um estudo de opinião de larga amostragem, em vários países mundiais, só 40% dos americanos disseram que “concordavam totalmente” que o Planeta está mais quente e que a classe política devia combater o problema do aquecimento global criado em torno de várias questões e falhas ambientais. Felizmente, há países como o Brasil que, no mesmo estudo, apresentou uma fatia de 75% dos inquiridos que dizia ter preocupação sobre estas questões. Devemos todos implementar medidas para proteger o planeta, mesmo que, segundo o estudo da revista Time, de 23 de junho de 2014, presente no artigo “The (slow) greening of America”, haja ainda descrença em muita gente.

Resta passar da teoria à prática. Demonstrar (sem medos!) que a sustentabilidade é lucrativa e cria vantagem concorrencial para as empresas. Que há estudos que demonstram que estes grandes investimentos, na redução de custos ambientais, são recuperados entre 12 a 16 meses pelas empresas!

Fica a faltar falar da poluição ainda, claro, mas sabemos que pode ser mitigado a começar pelo fabrico de carros mais leves e, claro, movidos a eletricidade.

E as casas? Temos de recuperar edifícios e casas para que tenham maior eficiência energética, sem carvão nem outras fontes de emissões de carbono.

Não saberemos se o futuro passará pelo exemplo da primeira cidade 100% sustentável do mundo, construída na China. Esta “Cidade Floresta” que, com 30 mil pessoas e todas as infraestruturas necessárias (casas, hotéis, hospitais, escolas, escritórios, tudo!) terá e será digna de ser classificada como tendo autossuficiência energética e uso de energia renovável suficiente para reduzir a poluição do ar e aumentar a biodiversidade. Esta Cidade, Liuzhou, irá ter 40 mil árvores, um milhão de plantas e 100 espécies diferentes. Espera-se, neste exemplo que poderá vir a ser adotado por mais países no Mundo, absorver 10 mil toneladas de dióxido de carbono e 57 toneladas de poluentes por ano! Ao mesmo tempo, produzir-se 900 toneladas de oxigénio.

Este é um exemplo. Só um.

Cabe a todo o planeta criar muitos mais porque estes primeiros 100 dias de Biden são importantes para o mundo, é certo, mas os últimos 100 anos de desleixo ambiental são bem mais importantes para o planeta de todos nós.

 

 


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×