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José Paulo do Carmo 29/04/2021
José Paulo do Carmo

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Operação (raspadinha) Património

Estávamos em dezembro de 1994. Era eu ainda um miúdo de tenra idade (12 anos na altura) mas suficiente para me recordar ainda hoje da famosa Operação Coração que o Benfica lançou, numa altura de tremendo desespero. E que melhor última instância para tentar salvar o clube do que apelar ao sentimento dos seus sócios e simpatizantes, de ego ferido e preocupados com um futuro que parecia cada vez menos risonho. A ameaça era séria, o Glorioso corria o risco de fechar portas e tudo foi usado como pretexto para tentar angariar mais umas dezenas de contos. Lembro-me do meu Pai ter comprado (ele e muitos outros) mas a soma não ultrapassaria os 180.000 contos. Muito longe das expectativas iniciais.

Esse momento de pura solidariedade e caridade para com um clube, que é dos seus associados e que a eles compete (ou competia) a sua sustentabilidade financeira parece ter sido retirado do baú das memórias e plasmado em 2021 com contornos mais bizarros e rocambolescos. Desta feita é o Governo (mais propriamente o Ministério da Cultura) que aparece com uma solução milagrosa para salvar e preservar o património lusitano. Não, não é um aumento do percentual do orçamento do Estado para a Cultura, nem é aproveitando e alocando dinheiro dos impostos pagos pelos contribuintes para esse efeito. É (imagine-se!) uma raspadinha de nome Lotaria do Património!!

Ou seja, o dinheiro que nós descontamos todos os meses é para tapar buracos na TAP, nos bancos que se conhecem e para mais de 20 anos de estudos e projetos para o novo aeroporto que nunca saíram do papel. Mas não chega para preservar o património. E o que fazemos? Atacamos precisamente as classes média e média-baixa, com menor acesso à Cultura e a esse mesmo património, às pessoas que está estudado serem mais vulneráveis ao fenómeno das raspadinhas e ao jogo – e toca de lhes sacar as já de si parcas poupanças.

Se era para esquecermos toda a dialética que usámos durante anos, sobre os perigos do jogo e o seu poder aditivo, para de repente fecharmos os olhos na ânsia de amealhar mais uns trocos, então teria sido mais simples, mais justo e muito mais proveitoso financeiramente, legalizar as drogas e a prostituição e colocar parte dos seus impostos ao serviço da Cultura. Uma vez que são consideradas recreativas, ficava tudo em casa e teríamos seguramente o património salvaguardado durante décadas e provavelmente ainda daria espaço para aumentarmos o nosso espólio…

A partir de dia 18 de maio não se esqueça: ajude, jogando. 


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