7/5/21
 
 
Afonso de Melo 28/04/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Chove, nada apetece...

É melancólico este som das gotas de chuva batendo na janela ao ritmo de uma balada de Augusto Gil, leve, levemente, como a mosca deslizando na vidraça, pedindo-me para entrar, mas não consigo dar albergue a todos os seres que procuram refúgio no meu sótão já tão cheio de fantasmas que, de cada vez que me mexo, sinto uma espécie de teia de aranha a embaraçar-me os movimentos. São fantasmas e contra-fantasma. Máscaras com faces hediondas vindas do Burkina-Faso, do Togo ou do Mali, máscaras elegantes de príncipes javaneses, máscaras bexigosas trazidas do Tibete, figuras de homúnculos esculpidas em madeira na Sibéria, no país dos Iacutes. Os pardais preferem os grãos de arroz ao risco de encharcarem as penas, mas esses nunca pedem para entrar, encontraram no retângulo da varanda um pátio de meninos que brincam aos pios. É monótono este som da chuva que durou a noite toda e se prolongou pela manhã e pela tarde. “Tão calma é a chuva que se solta no ar/(Nem parece de nuvens) que parece/Que não é chuva, mas um sussurrar/Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece/Chove. Nada apetece…” De cada vez que encontro um poema de que gosto já alguém o escreveu por mim. Se calhar é por isso que bocejo desse nada me apetecer, sabendo de antemão que tudo já foi escrito e não me restam se não sobras que na maior parte das vezes nem sentido fazem. Escrevo para espantar a melancolia e aceitar de braços abertos a companhia dos meus fantasmas que fui buscar a todo o mundo para que pudessem viver sossegados no sótão da minha prosódia. Hoje estão sorumbáticos como a chuva. “Não paira vento, não há céu que eu sinta/Chove longínqua e indistintamente/Como uma coisa certa que nos minta/Como um grande desejo que nos mente/Chove. Nada em mim sente…” Talvez, quanto muito, uma saudade. Que chove por dentro em gotas de sal...

 


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×